Milos Morpha

por Cesar Castanha

10 de fevereiro de 2015, 10h06

Apanhado do Cinema 2014

 

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Mais uma vez, apresento os meus mais queridos do Cinema do ano que passou. Também volto a pedir desculpas pelos membros da lista que estão órfãos de texto, pretendo compensar essa falta com uma pequena nota (minha ou não) em algumas categorias, além de belas resenhas que a mim foram gentilmente emprestadas. Este ano, convidei Isabel e Cecília Shamá a escolherem um filme Feminino e/ou Feminista para ser celebrado numa categoria própria, o mesmo farei em Filme Queer. As garotas fizeram um podcast para justificar sua escolha. Então, mais uma vez, navegue por entre os textos anexados, veja os filmes. Reitero, como sempre: a lista está aqui para ser comentada, criticada e jamais definitiva.

Filme:

1º) Um Novo Começo
2º) O Grande Hotel Budapeste
3º) Sob a Pele
4º) Ela Volta na Quinta
5º) Garota Exemplar
6º) The Babadook
7º) A Gangue
8º) Força Maior
9º) Eles Voltam
10º) Mapas para as Estrelas

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Admirador de certos dogmas realistas silenciosos que historicamente marcaram o cinema, tivessem me apresentado um argumento de Dois Dias, Uma Noite, eu diria que a personagem em questão, uma mulher excessivamente comum à beira de um colapso emocional, só poderia ser alcançada por uma atriz não profissional. Que maravilhoso é testemunhar o meu equívoco no trabalho de Cotillard! A atriz se aniquila pela personagem, diminuindo seu corpo, transformando-se numa não atriz para atuar. Uma das grandes performances da década.

Atriz:

1º) Marion Cotillard (Dois Dias, Uma Noite)
2º) Anna Kendrick (Um Novo Começo)
3º) Rosamund Pike (Garota Exemplar)
4º) Scarlett Johansson (Sob a Pele)
5º) Anne Dorval (Mommy)

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“O que é primordial em O Grande Hotel Budapeste é a loucura cuidadosamente controlada em que até explosões esporádicas de violência são educadamente encenadas. É uma estrutura rígida em que os jogadores florescem, e o mais notável de todos é Fiennes. Saboreando, sem sair do ritmo rápido, o diálogo que vaga incongruente entre o oleaginoso e o obsceno, Fiennes entrega uma performance voraz, seu timing perfeito a cada nota, seus maneirismos no ponto, do movimento de seus braços ao arco de suas costas, da curva de seus lábios à ponta de seu bigode falso. Ele parece uma criação animada, capturada frame por frame, cada gesto rico em detalhe.” (Mark Kermode, do The Guardian)

Ator:

1º) Ralph Fiennes (O Grande Hotel Budapeste)
2º) Jake Gylenhaal (O Abutre)
3º) Johannes Kuhnke (Força Maior)
4º) Philip Seymour Hoffman (O Homem Mais Procurado)
5º) Antoine-Olivier Pilon (Mommy)

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Atriz Coadjuvante:

1º) Melanie Lynskey (Um Novo Começo)
2º) Patricia Arquette (Boyhood)
3º) Suzanne Clement (Mommy)
4º) Agata Kulesza (Ida)
5º) Teyonah Parris (Dear White People)

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Ator Coadjuvante:

1º) Antonio Fagundes (Quando Eu Era Vivo)
2º) F. Murray Abraham (O Grande Hotel Budapeste)
3º) Noah Wiseman (The Babadook)
4º) Tony Revolori (O Grande Hotel Budapeste)
5º) Robert Pattinson (A Caçada)

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Elenco (preparação, escalação e atuação):

1º) Garota Exemplar
2º) Mapa para as Estrelas
3º) Nós Somos as Melhores
4º) Ela Volta na Quinta
5º) Birdman

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O Grande Hotel Budapeste é uma boneca russa de pontos narrativos. Assim, é também inevitavelmente uma história sobre contar histórias. É bem verdade que as quatro camadas — por assim dizer — recebem do diretor o mesmo tratamento, embora o tom mude um pouco de acordo com a época retratada. Ao chegarmos no núcleo da história, o espaço narrativo e temporal chave, onde o filme passará mais tempo, algo na forma como aquele momento e lugar são descritos me remeteu à frase que abre o clássico Ninotchka: “Este filme se passa em Paris naqueles dias maravilhosos em que uma sirene era uma morena, e não um alarme — e se um francês desligasse a luz não era por causa de um ataque aéreo”. Ou, na linguagem no próprio Grande Hotel Budapeste: “Para ser franco, acredito que seu mundo desapareceu muito antes de ele sequer ter nascido. Mas eu vou dizer, ele certamente sustentou a ilusão com maravilhosa graça”.

Roteiro:

1º) O Grande Hotel Budapeste
2º) Garota Exemplar
3º) Força Maior
4º) Dear White People
5º) Mapa para as Estrelas

 

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“Para mim, pelo menos, é um lance de identificação muito grande com o modo com que os personagens são apresentados, suas tristezas e a necessidade que cada um tem de estar com o outro para completar algo que lhe falta. As relações falhas são estabelecidas de modo extremamente naturalistas e legítimas e isso é raríssimo no cinema! Para mim, já é motivo para muita celebração (e não me importa se o filme não vem acompanhado de rebuscamento estético ou o que for). A condução narrativa do Swanberg é brilhante, afetiva e segura ao mesmo tempo e perceber esse carinho dele pelos personagens do filme me fez experimentar um amor por eles como não tive em nenhum outro filme nesse ano.” (Thiago Macêdo Correia)

Diretor:

1º) Joe Swanberg (Um Novo Começo)
2º) Jonathan Glazer (Sob a Pele)
3º) Miroslav Slaboshpitsky (A Gangue)
4º) Jennifer Kent (The Babadook)
5º) André Novais (Ela Volta na Quinta)

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Um Novo Começo é quase o Um Bonde Chamado Desejo do mumblecore. A Blanche DeBois de Anna Kendrick (uma jovem atriz que só tem crescido em potencial criativo e expressivo), a partir do olhar que Thiago ressaltou, é, no entanto, recebida com carinho pelo Stanley de Lynskey. Para a construção desse afeto estranho e insistente entre os personagens, a montagem é um artifício essencial do filme. Como limitar personagens tão livres, como estabelecer o ponto de corte para as suas ações e os seus movimentos na tela?

Montagem:

1º) Um Novo Começo
2º) Nova Dubai
3º) Sob a Pele
4º) Eles Voltam
5º) Obvious Child

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O conhecimento do diretor das imensas possibilidades do quadro cinematográfico é evidente na riqueza de detalhes. Ele frequentemente permite a liberdade do olhar do espectador para ações de fundo, fazendo de cada plano uma ampla janela para o universo representado. Somos convidados a espiar, procurar pistas, personagens, estudar ações, porque, mesmo que muito seja dito no filme, o diretor não se apoia no significado exato da linguagem, mas apenas na força do que ela motiva nos personagens. E, para o impacto da história, isso é o bastante.

Fotografia:

1º) A Gangue
2º) Sob a Pele
3º) Era Uma Vez em Nova York
4º) A Misteriosa Morte de Pérola
5º) Força Maior

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Trilha Sonora Adaptada:

1º) Ela Volta na Quinta
2º) Boyhood
3º) Mommy

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“Jonathan Glazer se preocupa em criar uma atmosfera, um terror sombrio e inexplicável, porque essa é uma das vertentes mais poderosas do suspense: o irracional, o que não explica suas origens ou intenções. Assumindo o ponto de vista de Scarlett, o diretor documenta um mundo de belezas superficiais, maquiadas, com uma crueza particular. Pontuando um universo bizarro, a trilha sonora, orgânica a ponto de se confundir com a respiração da personagem, instaura uma atmosfera de constante perigo, incerta e opressiva – algo que o filme todo faz questão de reforçar, seja pelos ambientes escuros e estranhos nos quais os personagens se inserem, seja pelo silêncio constante.” Júlio Pereira, publicada originalmente no Cinetoscópio.

Trilha Sonora Original:

1º) Sob a Pele
2º) Quando Eu Era Vivo
3º) Mesmo Se Nada Der Certo

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Todo o amor que não foi, mas poderia ter sido e que, no fim das contas, é pela mera possibilidade de ser. Amor fugaz e verdadeiro de aplicativos de celular, que pode durar 5 minutos de conversa ou infinitamente, que pode ou não ser correspondido, que é fácil, mas não é frágil. Perceba o título internacional Dois na Sombra, gosto muito dele. Acho que diz bastante sobre esses personagens que, contrariando a expressão, transam na luz e amam no escuro. O Completo Estranho é pra mim como uma versão muito contemporânea (no que diz e em como diz) de Desencanto. O som é a principal maneira que o filme encontrou em mim de se construir como experiência.

Trabalho de Som:

1º) O Completo Estranho
2º) A Gangue
3º) A Misteriosa Morte de Pérola

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Curta ou Média-metragem:

1º) Nova Dubai
2º) O Completo Estranho
3º) The Dark, Kristle
4º) A Caça-revoluções
5º) Redenção

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O tempo, quando capturado por Richard Linklater em Boyhood, causou uma grande impressão em muitos dos que o assistiram. Sem querer desmerecê-lo, o tempo capturado capturado em O Conto da Princesa Kaguya pelo traço de Isao Takahata não deixa nada a desejar ao primeiro. Kaguya é uma fábula sobre perda prematura, sobre ser pai e ser filho. Todas as alegorias (a do crescimento ágil, uma angústia que assola pais universalmente, e, principalmente, a da morte) são claras, mas não menos belas e grandiosas. Arrisco dizer que desde Ratatouille não temos um filme de animação tão completo.

Animação:

1º) O Conto da Princesa Kaguya
2º) Vidas ao Vento
3º) Operação Big Hero

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Quando, depois de passar perrengue com a categoria, escolhi Virgindade, de Chico Lacerda, sabia que teria que justificar o filme como do gênero documentário. Não pretendo perder tempo fazendo isso ponto por ponto quando esse recorte pode simplesmente não existir, é apenas válido lembrar que a maior parte das imagens de Virgindade é mais nula de construção cênica que talvez a maioria dos aceitos documentários.

Documentário:

1º) Virgindade
2º) Abandoned Goods
3º) At Berkeley

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O engano dos significados quando pode não haver nenhum. Se Quando Eu Era Vivo desperta as curiosidades dos “por quê?” deve-se, além do roteiro e da tensão concedida por Marco Dutra, pela distribuição não aleatória, mas talvez sim, aleatória, de objetos, cores, formatos e padrões.

Cenografia:

1º) Quando Eu Era Vivo
2º) Birdman
3º) The Babadook

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Figurino, Cabelo e Maquiagem:

1º) O Grande Hotel Budapeste
2º) Amantes Eternos
3º) Era Uma Vez em Nova York

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Production Design:

1º) Sob a Pele
2º) Brasil S/A
3º) Birdman
4º) Garota Exemplar
5º) O Grande Hotel Budapeste

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Porque o cinema, quando livre, completamente livre, é uma fuga da opressão vertical, da repressão sexual, da moral e da proibição da morte. 

Filme Queer:

Nova Dubai

The Babadook

As meninas fizeram um podcast para justificar a escolha. Ouçam-o clicando aqui.

Filme Feminino/Feminista (escolhido por Cecília e Isabel Shamá):

The Babadook

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Como um Woody Allen pós-moderno, Louis C. K. experimenta maneiras de narrar suas fábulas cotidianas, cada uma delas uma profunda tentativa de entender o que motiva as ações humanas.

Menção Honrosa:

Louie (4ª temporada)

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(Fotos: Divulgação)