#FÓRUMCAST
29 de Janeiro de 2018, 22h46

Apanhado do Cinema 2017

Mais uma vez, apresento os filmes e trabalhos cinematográficos que se destacaram, para mim, no ano que passou. Considerei bastante cortar algumas categorias, principalmente a de Documentário. Incomoda-me que essa categorização caia numa visão muito industrial do cinema e não corresponda a imersão de um trabalho em outro (a influência de um roteiro para a […]

Mais uma vez, apresento os filmes e trabalhos cinematográficos que se destacaram, para mim, no ano que passou. Considerei bastante cortar algumas categorias, principalmente a de Documentário. Incomoda-me que essa categorização caia numa visão muito industrial do cinema e não corresponda a imersão de um trabalho em outro (a influência de um roteiro para a direção ou da direção para a fotografia, por exemplo). O fato de que Baronesa circulou em festivais de Documentário acentuou esse incômodo porque tenho uma resistência a ler o filme como Documentário. Mas, na medida em que eu ia cortando as categorias, vi-me com menos espaço pra lembrar de filmes que tiveram menos visibilidade e pra chamar atenção pras especificidades de cada um deles. Enfim, no fim das contas, trouxe elas de volta e acrescentei ainda algumas. Eis o lado bom de uma lista pessoal: você inventa o que quiser e defende como puder.

Como sempre, sigam os links! Há textos meus e de outros críticos para a maior parte dos filmes.

Filme:

  1. O Estranho que Nós Amamos
  2. Arábia
  3. O Outro Lado da Esperança
  4. Projeto Flórida
  5. Corra!
  6. Baronesa
  7. Na Praia à Noite Sozinha
  8. Eu Não Sou Seu Negro
  9. Era uma Vez Brasília
  10. Lady Bird

Direção:

  1. Sofia Coppola (O Estranho que Nós Amamos)
  2. Aki Kaurismaki (O Outro Lado da Esperança)
  3. Affonso Uchoa e João Dumans (Arábia)
  4. Adirley Queirós (Era uma Vez Brasília)
  5. Sean Baker (Projeto Flórida)

Além das Palavras é um filme duro, triste, e um dos trabalhos mais austeros de Terence Davies. O título original, A quiet passion (algo como “Uma paixão quieta/tranquila”), talvez seja uma melhor indicação da estranha força do filme. A atuação de Cynthia Nixon não só corresponde a esse vigor do filme como é também a força motora da sua desconsolada tristeza. Destaco também o trabalho de Florence Pugh, que, em Lady Macbeth, apresenta uma garota angustiada pela dinâmica doméstica entre as paredes da mansão de que, supostamente, é senhora.

Atriz:

  1. Cynthia Nixon (Além das Palavras)
  2. Florence Pugh (Lady Macbeth)
  3. Kim Min-Hee (Na Praia à Noite Sozinha)
  4. Luciana Paes (O Animal Cordial)
  5. Saoirse Ronan (Lady Bird)

Ator:

  1. Daniel Kaluuya (Corra!)
  2. Jonathan Groff (Mindhunter)
  3. Robert Pattinson (Bom Comportamento)
  4. Timothée Chalamet (Me Chame pelo Seu Nome)
  5. Jake Johnson (Apostando Tudo)

A personagem de Dunst foi a que me acompanhou por mais tempo depois das múltiplas vezes que assisti O Estranho que Nós Amamos. O seu desejo de sair daquele espaço não é livre de um ímpeto de crueldade e falta de solidariedade. Gosto do modo como Dunst olha, como ela perde o seu olhar, tira ele daquele espaço; e do modo como ela se abraça, como que para se garantir da própria presença. No caso de Projeto Flórida, é para mim Bria Vinaite que traz a personagem mais representativa do filme, de um universo cheio de afeto que se recusa a se comportar segundo às regras estabelecidas por outros.

Atriz Coadjuvante:

  1. Kirsten Dunst (O Estranho que Nós Amamos)
  2. Bria Vinaite (Projeto Flórida)
  3. Betty Gabriel (Corra!)
  4. Marjorie Estiano (As Boas Maneiras)
  5. Gwendoline Christie (Top of the Lake: China Girl)

Este ano, decidi levar em consideração as atuações de seriados tanto quanto as de filmes. Em parte, porque me senti mais livre com a presença da terceira temporada de Twin Peaks em diversas listas de melhores filmes do ano, incluindo a das revistas Cahiers du Cinema e Sight and Sound. Mas, ao mesmo tempo, a diferença entre os dois formatos (ficção seriada e cinema) são tão duras que não me senti confortável para misturar as coisas em nenhuma categoria fora estas. E o elenco da série Mindhunter é para mim, de fato, um dos mais impressionantes do ano. E, enquanto Jonathan Groff interpreta um fascista doce, Holt McCallany quebra a expectativa pelo policial veterano inabalável: a fragilidade de seu personagem é uma das coisas que mais me comove no todo da excelente primeira temporada da série.

  1. Holt McCallany (Mindhunter)
  2. Michael Stuhlbarg (Me Chame pelo Seu Nome)
  3. Armie Hammer (Me Chame pelo Seu Nome)
  4. Garrett Hedlund (Mudbound)
  5. Rob Morgan (Mudbound)

Corra! apresenta um excelente trabalho de texto e direção, mas sempre acho necessário destacar a composição admirável do filme pelo elenco. Cada um dos atores caminha perfeitamente entre a sátira, o horror e a experiência social dos personagens sem que o filme nunca ceda totalmente a uma dessas vertentes em detrimento das outras. Se Corra! é aclamado como um dos melhores filmes de gênero dos últimos anos, acredito que o elenco, tanto quanto Jordan Peele, é responsável pelo título.

Elenco:

  1. Corra!
  2. Mindhunter
  3. Mudbound
  4. Me Chame pelo Seu Nome
  5. O Estranho que Nós Amamos

O Outro Lado da Esperança encena a crise econômica e a crise de imigração na Europa a partir da construção de uma ludicidade visual e textual que está sempre dialogando com as apresentações dicursivas e ambientações do filme. Destaco também o roteiro de Arábia, que funde a narração em off do protagonista com a sofisticada construção ideológica do filme.

Roteiro:

  1. O Outro Lado da Esperança
  2. Arábia
  3. Corra!
  4. Na Praia à Noite Sozinha
  5. Lady Bird

A montagem de Baronesa é, para mim, o cerne criativo desse grande filme. É a montagem que constrói uma unidade ficcional a partir daquele universo, que faz um filme da experiência daqueles personagens, compondo uma das mais duras imagens da esperança.

Montagem:

  1. Baronesa
  2. Arábia
  3. Lady Bird
  4. Eu Não Sou Seu Negro
  5. Sala Verde

Arábia, pelo estatuto de igualdade no compartilhamento do espaço que a câmera estabelece com o personagem; Que o Verão Nunca Mais Volte, pelo celular que quer dar conta de uma experiência de mundo; A Ghost Story, pela rigorosa cartografia de uma casa; Me Chame pelo Seu Nome, pela afetuosa cartografia de uma relação; e O Estranho que Nós Amamos, pela representação de um Sul irrepresentável.

Fotografia:

  1. Arábia
  2. Que o Verão Nunca Mais Volte
  3. A Ghost Story
  4. Me Chame pelo Seu Nome
  5. O Estranho que Nós Amamos

O conflito de gerações que se dá a partir de uma oposição entre gêneros musicais pode ser um clichê do cinema americano — é essa, afinal, a trama de O Cantor de Jazz (dir. Alan Crosland, 1927), contestadamente o “primeiro filme falado” —, mas a unidade pela diversidade que se estabelece na belíssima última cena de Patti Cake$ me parece ressoar mais especificamente numa ansiedade contemporânea por “estar junto”.

Trilha Sonora:

  1. Patti Cake$
  2. O Outro Lado da Esperança
  3. Arábia
  4. Bom Comportamento
  5. Me Chame pelo Seu Nome

Se As Boas Maneiras é um filme que caminha entre gêneros (terror, aventura infantil, musical, para citar poucos), o trabalho de som do filme estabelece entre todos eles uma continuidade diegética, levando-nos para um espaço de fantasia e folclore urbano em que nenhum deles se distingue do outro.

Som:

  1. As Boas Maneiras
  2. O Estranho que Nós Amamos
  3. A Fábrica de Nada
  4. O Outro Lado da Esperança
  5. Eu Não Sou Seu Negro

Vencendo uma desconfiança inicial de que Mindhunter seria mais uma série que se fascina com a ideia dos serial killers como algo que extrapola uma suposta natureza humana, descobri, ao contrário, um trabalho mais interessado no fascismo inerente das instituições policiais e burocráticas, no jogo de poder envolvido nesta empreitada classificatória de destacar os psicopatas numa sociedade de narcisistas.

Série ou minissérie:

  1. Mindhunter
  2. Top of the Lake: China Girl
  3. The Marvelous Mrs. Maisel

Curta ou media-metragem:

  1. Deus (dir. Vinícius Silva)
  2. De Tanto Olhar o Céu Gastei Meus Olhos (dir. Nathália Tereza)
  3. A Passagem do Cometa (dir. Juliana Rojas)

Pela rememoração das diversas abordagens à questão racial pela cultura midiática estado-unidense, conduzida pelo texto de James Baldwin e interpretação de Samuel L. Jackson; pelo experimento com um dos gêneros audiovisuais mais fechados e resolvidos em si mesmo; pela visita a um amigo: estes são alguns dos meus documentários preferidos de 2017.

Documentário:

  1. Eu Não Sou Seu Negro (dir. Raoul Peck)
  2. Maria Bamford: Old Baby (dir. Jessica Yu)
  3. Visages Villages (dir. JR, Agnès Varda)

Em um ano fraco para o circuito de animações no cinema, The Story of O.J., videoclipe de Jay-Z, utiliza o cartoon para se apropriar de estereótipos raciais e resgatar a narrativa de uma experiência negra nos EUA em uma apresentação melancólica dos seus vários personagens.

Animação:

  1. The Story of O.J. (dir. Mark Romanek & Jay-Z)
  2. Batman and Harley Quinn (dir. Sam Liu)
  3. Viva – A Vida é uma Festa (dir. Lee Unkrich, Adrian Molina)

Videoclipe:

  1. Fetish (Selena Gomez, dirigido por Petra Collins)
  2. Boogie (Brockhampton, dirigido por Kevin Abstract)
  3. Boys (Charli XCX, dirigido por Charli XCX & Sarah McColgan)

Cenografia:

  1. A Ghost Story
  2. O Outro Lado da Esperança
  3. Lady Bird

Figurino/maquiagem:

  1. O Estranho que Nós Amamos
  2. Sala Verde
  3. Projeto Flórida

Production design:

  1. As Boas Maneiras
  2. Era uma Vez Brasíla
  3. O Estranho que Nós Amamos
  4. Projeto Flórida
  5. Nas Profundezas

Menção honrosa:

Leona Vingativa: pelo videoclipe Não Pode Esquecer o Guanto e pela lembrança de uma das mais interessantes experiências cinematográficas brasileiras da década de 2000 nos primeiros minutos de Leona Assassina Vingativa 4: Attrack em Paris.