22 de junho de 2018, 17h35

Após 100 dias, a pergunta segue sem resposta: “Quem matou Marielle e Anderson?”

Os assassinatos de Marielle Franco e Anderson Gomes continuam sem conclusão: apesar das investigações, a sociedade ainda não conhece os assassinos, os mandantes e a motivação

(Foto: Gibran Mendes/Fotos Públicas)

Cem dias e nenhuma conclusão. Os brutais assassinatos da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ) e do motorista Anderson Gomes, que estarreceram e comoveram o país, seguem sem definição, embora as investigações, conduzidas sob sigilo pela Delegacia de Homicídios da Polícia Civil do Rio de Janeiro, apontem para um crime político, cometido por milícias.

Marielle recebeu 46 mil votos para ser eleita vereadora no Rio de Janeiro. Dona de uma intensa militância política, dedicada, especialmente, às causas e demandas dos negros, LGBTs e outras formas de luta pelos direitos humanos, a mulher, nascida e criada na Maré, teve sua trajetória interrompida violentamente na noite de 14 de março deste ano, quando ela e Anderson foram alvejados por tiros no carro onde estavam.

“Já são 100 dias sem respostas sobre o assassinato de Marielle e Anderson. Apesar do esforço dos investigadores, ainda não há provas que permitam incriminar qualquer suspeito por esse ato bárbaro. Mais do que nunca estamos convencidos de que a morte de Marielle e Anderson foi um crime político, encomendado por gente poderosa com condições de pagar caro para promover um crime quase perfeito. Mas a verdade sempre vem à tona. Acreditamos que estamos cada vez mais perto da resposta para a pergunta que nos inquieta desde 14 de março: quem matou Marielle e Anderson?”, destaca Juliano Medeiros, presidente nacional do PSOL.

(Foto: Mídia NINJA)

Histórico

Os crimes chamaram a atenção do mundo. No dia 16, o ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, se reuniu com o interventor federal do Rio de Janeiro, general Braga Netto, e afirmou que iria acompanhar de perto as investigações, enquanto a Polícia Federal abriu inquérito, com o objetivo de investigar a origem da munição usada no atentado.

Uma das hipóteses dos investigadores é que os assassinos tenham usado uma submetralhadora HK MP-5, armamento de uso restrito e pouco utilizado, inclusive pelas polícias. As forças de segurança do Rio teriam 71 exemplares no total, mas em maio foi divulgado que cinco dessas armas teriam sido desviadas do arsenal da Polícia Civil em 2011.

No dia 18 de março, o Conselho Nacional de Direitos Humanos, com receio de que as ações violentas continuassem, pediu proteção especial para os familiares e amigos de Marielle. Nesse momento, a comoção já atingia o país todo. No dia 20, uma manifestação em homenagem a Marielle e Anderson, que também pediu resultados na investigação, reuniu milhares de pessoas no Centro do Rio de Janeiro.

Mensagem do Papa

A repercussão internacional foi tanta que o Papa Francisco telefonou para a família da vereadora, no dia 21 de março, e falou com Marinette, mãe de Marielle, manifestando solidariedade. Somente 15 dias após os assassinatos, o secretário de Segurança Pública do Rio, general Richard Nunes, admitiu que a morte da vereadora poderia estar ligada à sua atuação política.

A partir de abril, a Polícia Civil começou a colher depoimentos de vereadores em investigação. Jair Barbosa Tavares (PHS) é policial militar aposentado e foi citado na CPI da Milícias, em 2008, que teve intensa participação de Marielle. Também foram ouvidos como testemunhas os vereadores Renato Cinco e João Batista Oliveira de Araújo, o Babá, ambos do PSOL, e Ítalo Ciba, do Avante, em função de suas relações pessoais com ela.

No dia 9 de abril, o corpo de Carlos Alexandre Pereira Maria, de 37 anos, foi encontrado por policiais do 18º BM (Jacarepaguá) com marcas de tiros e dentro de um carro, na Zona Oeste do Rio. Alexandre era colaborador do vereador Marcello Siciliano (PHS), também ouvido no inquérito que apura os assassinatos de Marielle e Anderson.

Até aquela data, seis vereadores da Câmara Municipal do Rio já tinham prestado depoimento sobre o caso. Parte deles pertencia ao mesmo grupo político de Marielle e foram chamados para ajudar nas investigações, mas outros, eram adversários políticos da vítima.

No dia 14 de abril, Monica Benicio, companheira de Marielle, concedeu entrevista exclusiva à Fórum e disse: “Há alguém muito importante por trás desse crime”.

Anistia Internacional

No dia 13 de abril começaram as cobranças mais duras sobre as autoridades que investigam os assassinatos. A organização Anistia Internacional exigiu prioridade do Estado brasileiro na solução dos crimes. “A gente quer saber: quem matou e quem mandou matar. Não aceitamos que se pegue só o braço armado dessa operação. Queremos saber quais interesses, quais as razões e por quê. Queremos que todos sejam processados na forma da lei, queremos que isso cesse”, afirmou a diretora da Anistia no Brasil, Jurema Werneck.

No dia seguinte, um mês das mortes, foi celebrada uma missa na Igreja Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé, no Centro do Rio. O pai de Marielle, Antônio Francisco da Silva, disse que as homenagens e o apoio de amigos estavam ajudando a amenizar o sofrimento. Paralelamente, houve mobilização popular em 13 estados, pedindo justiça.

Raul Jungmann resolveu dar uma satisfação à sociedade e afirmou que havia a possibilidade de participação de milicianos no assassinato. “Quando você começa a investigar um caso desses você trabalha com todas as possibilidades: a passional, uma desavença, um crime político. Você trabalha com um enorme conjunto e vai fechando, criando um foco. Hoje o foco se concentra relacionado às milícias”, disse.

No início de maio, dia 2, a Câmara Municipal do Rio, em sessão extraordinária, aprovou cinco Projetos de Lei (PLs) de Marielle. Além disso, os parlamentares aprovaram o projeto de lei, de autoria das seis vereadoras, que passou a nomear a Tribuna do Palácio Pedro Ernesto com o nome de Marielle Franco.

Investigados

As investigações continuavam e, no dia 9 de maio, uma testemunha afirmou, em depoimento, que o vereador Marcello Siciliano (PHS) e o ex-PM Orlando Oliveira de Araújo – acusado de chefiar milícia – queriam que a vereadora fosse morta. À Divisão de Homicídios, o homem, que trabalhou para um dos mais violentos grupos paramilitares do Rio, procurou a polícia para contar, em troca de proteção, datas, horários e locais de reuniões entre Siciliano e Araújo. Siciliano declarou não conhecer Orlando Oliveira de Araújo, conhecido como Orlando Curicica. Ambos alegaram inocência.

Uma das linhas de investigação indica que o crime teria sido motivado pelo avanço de ações de Marielle em áreas de interesse de milícias. A atuação da vereadora sempre foi pautada pela defesa dos direitos humanos: denunciava abusos da Polícia Militar, atendia vítimas da milícia e também dava apoio a policiais, vítimas da violência no Rio e suas famílias.

Em junho, no dia 14, quando os crimes completaram três meses, a viúva de Anderson Gomes concedeu entrevista: “A vida nunca vai ser a mesma coisa. Eu mudei o local de trabalho para as coisas ficarem um pouco mais tranquilas e mudar um pouco a rotina. Ainda não consegui voltar para casa, mas pretendo”, desabafou Ágatha Reis.

(Foto: Reprodução/Facebook)

No último dia 19, um dos suspeitos de envolvimento nas mortes, Orlando Curicica, foi transferido da Penitenciária Laércio da Costa Pelegrino (Bangu I) para o Presídio Federal de Mossoró, no Rio Grande do Norte. A ação foi determinada pelo juízo da 5ª Vara Criminal do Rio de Janeiro, por solicitação do Ministério Público Estadual (MP). O MP alegou que a transferência é de “grande relevância para o interesse da segurança pública”.

No mesmo dia, Jungmann afirmou que os investigadores já sabem quem são os “prováveis mandantes e assassinos” e que o foco agora está na “construção de provas” contra os suspeitos. A sociedade brasileira e vários organismos internacionais ligados aos direitos humanos aguardam ansiosamente a conclusão definitiva do caso, para que os responsáveis possam ser punidos exemplarmente.