11 de janeiro de 2013, 15h33

Apreciadores da marvada

Andei me lembrando de umas histórias de apreciadores de cachaça da minha terra, que já andei contando no livro Santa Rita Velha Safada. Como pouca gente leu esse livro, acho que vale repetir aqui, juntando três delas.

1. Na minha infância, eu era um grande admirador de um grande poeta analfabeto, o Rosário, que declamava suas “décimas” (esse era o nome que dava aos poemas) em troca de doses de Levanta e Cai, a cachaça mais popular da cidade.

Um dia, ele entrou na venda do Luizinho, pediu uma cachaça, e o vendeiro disse que a cachaça tinha acabado. Na verdade, não queria vender ao Rosário, que já estava meio calibrado. Só que o poeta acreditou, fez uma cara muito triste e sapecou:

Cachaceiro entrou na venda,
sentiu mágoa e chorou,
quando o vendeiro disse
que a cachaça acabou.

Oh! Que notícia cruel!
Oh! Que notícia tirana!
Não sei pra que tanto engenho,
não sei pra que tanta cana!

2. Outro apreciador da Levanta e Cai era o Micuim. Num sábado à noite, bebeu bastante e dormiu na porta da casa de uma velha que odiava cachaceiros. No domingo de manhã, quando saía para ir à missa, ela deu de cara com o Micuim dormindo atravessado em frente à sua porta. Resolveu dar-lhe uma reprimenda e uns conselhos. Cutucou-o com o bico do sapato, ele acordou, e ela disse:

– Seo Micuim, você vive bêbado, parece que perdeu o gosto pela vida, não acredita em Deus, não acredita em nada…

Ele a interrompeu:

– Pera aí! Eu acredito em dois santos.

Ela se admirou e pensou que ele até podia ter salvação, perguntou em que santos ele acreditava. Ele fez uma cara séria e respondeu:

– São Risal, quando tô de ressaca, e São Duíche, quando com fome.

3. Por falar em “São Risal”, isso não existia por aquelas bandas. Apareceu no final da década de 1950. E vejam o que aconteceu na venda do Zé Fernandes.

Tinha um ou outro freguês sentado em latas de óleo ou caixões e ele quase cochilando atrás do balcão, esperando o tempo passar, quando Bastião Ponte entrou agitado, reclamando mais e mais alto que de costume:

– Olha, seu Zé, eu não aguento mais a Gioconda. É o dia inteiro “Bastião faz isso, Bastião faz aquilo”, não me dá sossego! Não aguento mais, eu quero é morrer pra descansar um pouco, é o único jeito! O senhor tem um veneno bom aí?

Gioconda era uma irmã dele, e ele vivia com ela, fazendo pequenos serviços.

– É verdade, Bastião. A tua vida é ruim mesmo, vou te arranjar um veneno que é batata, mata mesmo – respondeu o vendeiro.

Bastião não esperava isso. Pensou que ele ia começar com aquela conversa de “não faça isso, calma…” e lhe dar uma boa dose de pinga. Mas em vez disso, Zé Fernandes não só concordou com a sua vontade de se suicidar como até começou a procurar o veneno. Ele começou a ficar incomodado e falou com um freguês da venda:

– Eu vou me suicidar!

– Também… Com uma vida ruim como a tua, tem que se suicidar mesmo.

Quando ia falar com outro freguês, Zé Fernandes lhe mostrou o veneno, num envelope escrito “Sonrisal”:

– É um veneno novo, mata na hora!

Colocou o Sonrisal em meio copo d’água e ele começou a ferver. Bastião nunca tinha visto aquilo, um veneno que ferve no copo, e dirigiu-se a outro freguês:

– Vou morrer. O Zé Fernandes tá preparando um veneno pra mim!

– Isso mesmo! Só assim a Gioconda para de te encher o saco.

E ele foi de um em um, esperando um “deixa disso” pra dizer “tem razão” e se mandar rápido. Mas só recebeu estímulos para o suicídio. Já estava apavorado, quando Zé Fernandes chamou:

– Ô, Bastião, o veneno tá pronto. Vai tomar ou não vai?

– Mas esse veneno mata mesmo?

– Ora, se mata! Quero até pedir pra você beber depressa e colocar imediatamente o copo no balcão. Não quero que você caia morto com o meu copo na mão e ele quebre, vai me dar prejuízo.

Esta crônica é parte integrante da edição 116 de Fórum.