Manoel Herzog

27 de março de 2019, 06h00

As boas histórias estão de volta

O livro "Quatro Velhos", de Luiz Biajoni, me acendeu a certeza de que as boas histórias voltam a ser contadas, com singeleza, com humildade quase, como se fosse possível um mestre parecer humilde em sua grandiosidade

Foto: Divulgação

Por Manoel Herzog*

Ele é um escritor de meia idade, entre 40 e 50, em crise criativa, solitário e misantropo, nível universitário, vive nalgum núcleo urbano etc. Se dissermos que este é o personagem-base do romanceiro contemporâneo estamos incorrendo numa falácia suprema, mas é o que, parece, uma hegemonia editorial/acadêmica tem-nos imposto. Não falo aqui com dedo acusador e faço mesmo o mea culpa, meus próprios protagonistas, nos romances que arrisco, não vão além disso. Agora, coisa que reclama justiça é a grita de vários setores da sociedade que não se veem representados nessa estereotipação (que palavra horrível). Reflexo disso, a reação contrária: protagonista gay, marginal, mulher, negro, deficiente físico, operário, ativista político, tudo que contraponha.

Formas diversas de um individualismo que comanda a porra toda desde o século XX, desde Sartre e seu existencialismo, o egocentrismo em narrativa, o sequestro da pauta pelo indivíduo, pelo Ser perante o Nada, deu no saco, convenhamos. Com um prazer imenso tenho lido movimentos em sentido contrário nos prosadores atuais, desde o ótimo Desnorteio, de Paula Fábrio, que conta a história de irmãos indigentes, ao Quarenta Dias, de Maria Valéria Resende, outro livro que passeia por dramas coletivos a partir do olhar de uma narradora idealista. A crise do capitalismo parece nos jogar numa vala onde imperioso é dar as mãos, e isso reflete na arte, que se volta não mais ao indivíduo, mas ao coletivo, lato ou estrito senso.

É capaz que, do caldo de horror a que o Brasil parece estar condenado, surja uma coisa boa. Não se pode perder, nunca, a Esperança. Quando li, de uma assentada, ininterrupto, sem conseguir parar a sucessão de alegrias da leitura, o Quatro Velhos, do mano Luiz Biajoni, um veterano de trincheira literária, me acendeu a certeza de que as boas histórias voltam a ser contadas, com singeleza, com humildade quase, como se fosse possível um mestre parecer humilde em sua grandiosidade. Um livro interiorano, de gente simples, humana, que transborda amor e gigantismo, uma história de dores da maturidade compartilhadas com afeto. Verti aqui, confesso, uma lágrima agridoce, melancólica, carregada de alguma beleza. Sem afetação, sem exibicionismo, Biajoni conta uma história real, no plano real que só a grande Literatura consegue erigir, e nos transporta a um estado de certezas de que, apesar de tudo, a vida vale a pena. A história de quatro pessoas, dois casais, na terceira idade, que redescobrem alegrias de um viver porque, como dizia o Paulinho da Viola, a vida não é só isso que se vê, é um pouco mais.

Abaixo um trecho da obra:

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“Tinha sido assim no momento mais delicado de sua vida: quando Never decidiu deixá-lo. Foi logo depois de completarem dez anos de casados. Ela estava fria e distante, diferente de sempre. Ronnie tentava conversar, mas ela fugia. Até o dia em que ela contou que tinha se apaixonado por outro homem. A confissão foi de maneira definitiva: ela informava que estava deixando-o por outro. Era um solteirão que morava sozinho em um apartamento do prédio vizinho ao deles; se encontravam todas as manhãs durante as caminhadas que faziam por ali e, sim, ela já havia estado no apartamento dele, eles já tinham feito sexo, ela não queria mais Ronnie. Foi devastador. Ele entendeu.

Ela fez uma mala, ligou para o novo amor e disse que estava indo. E foi. Ronnie ficou sentado por dois dias no chão do apartamento, desnorteado, sem saber o que fazer — apenas chorando, bebendo e lamentando a péssima sorte. Então pensou como seria o contrário, se fosse ele quem tivesse dito a Never que estava saindo com outra e que estava indo embora: como ela reagiria? O diálogo e a aceitação seriam impossíveis — ela iria espernear, gritar, iria querer saber quem era a outra, iria tentar impedi-lo de ir de todas as maneiras, com toda as forças. Por que ele havia aceitado de forma tão calma? Por que ele era tão ridiculamente civilizado, tão amorfo, tão incrivelmente passivo?

Botou-se em pé, deixou o apartamento, o prédio, praticamente invadiu o prédio vizinho, tomou o elevador e rumou para o apartamento do amante desavisado — enquanto o porteiro interfonava e avisava da invasão. Chutou e esmurrou a porta até que o homem abrisse. Ele entrou procurando por Never, que estava no sofá, assustada.— Vamos embora para casa, Never. Eu te amo e você só está impressionada por esse sujeito. Não me deixe com cara de otário depois de tudo o que passamos juntos!

Ele falava alto e com convicção, apesar do choro convulsivo.

— Vamos agora, vamos comigo, por favor. Não merecemos isso, não posso viver sem você e eu tenho certeza que você sabe que me ama… Só está um pouco esquecida. Estendeu a mão e ficou com ela assim durante um tempo, até que Never fizesse o mesmo e saísse com ele — mesmo estando apenas com um baby-doll curto.

Desceram pelo elevador de mãos dadas, em silêncio. Andaram bons metros pela calçada, impressionando transeuntes. Entraram no prédio, atraindo olhares de antigos vizinhos. Entraram no elevador estranhamente vazio, sempre de mãos dadas. Chegaram ao apartamento, foram para o quarto, onde deitaram-se na cama, de mãos dadas, uma sensação inexorável de amor. E dormiram — certos de que tinham um ao outro, eternamente. Ronnie nunca havia traído Never — e ela nunca teve que fazer algo parecido para resgatá-lo de alguém. Mas em festas, restaurantes e eventos sociais, bastava que alguma interesseira desse um olhar enviesado para o marido ou que algum comentário malicioso colocasse em dúvida a fidelidade, a hombridade ou a honestidade de Ronnie — ou dela mesma — para que Never se transformasse, emitindo descomposturas, frases cabeludas, grosseiras, imediatas. Never não era de levar desaforo para casa. Nem de temer quem quer que fosse. Se fosse uma medrosa, não teria deixado toda a família, o sobrenome, a herança, para ficar com um sujeito inseguro, um homem quase sem qualidades, uma pessoa bastante normal para seus padrões.

O que Ronnie nem ninguém sabia era que Never gostava nele justamente dessa normalidade. Ela se achava muito inconstante e extremista, era sempre oito ou oitenta e precisava de alguém normal para equilibrá-la. Ela dizia que Ronnie era seu “36” — nem oito nem oitenta.

 

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Serviço: Quatro Velhos, romance, Luiz Biajoni, Editora Penalux, preço R$.40,00, – https://www.editorapenalux.com.br/loja/quatro-velhos

*Manoel Herzog, escritor brasileiro, nasceu em santos em 1964. Formado em Direito, depois do golpe, o único fórum onde tem prazer de entrar é nesta revista