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27 de agosto de 2018, 15h54

As elites do Vale do Silício e o socialismo burguês

"Há um interesse enorme no Brasil em reduzir a esquerda aos princípios morais e à algo que se parece com os Democratas nos EUA, rejeitando toda a história desse movimento político no país"

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Há um interesse enorme no Brasil em reduzir a esquerda aos princípios morais e à algo que se parece com os Democratas nos EUA, rejeitando toda a história desse movimento político no país. O banimento dos perfis de direita, por estes alimentarem as fakenews e o discurso de ódio, serviu para sustentar a ideia de que se trata de uma investida da esquerda contra os conservadores. Na CBN se lê: “As contas continuam ativas, mas o alcance aos seus seguidores diminuiu. Vale do Silício é conduzido por empresas com visão de esquerda”.1 No jornal El País destaca-se “segundo Mamãefalei, a origem de tudo está na ideologia esquerdista que, segundo ele, domina no Vale do Silício”.2

Contudo, trata-se de uma tremenda ilusão. Uma pesquisa pioneira desenvolvida por Greg Ferenstein, demonstra que as elites do Vale do Silício são liberais em questões sociais como “contrária à pena de morte e favorável ao direito da mulher a decidir pelo aborto, ao controle de armas e aos direitos gays”. São a favor inclusive de “taxar os ricos e oferecer serviço de saúde universal aos pobres”, além de “cosmopolita em suas atitudes – a favor do livre-comércio e de regras de imigração mais permissivas”. Mas em relação ao acesso aos meios de produção pelos desfavorecidos, ou pelo mero diálogo entre classe dominante e dominada, assemelham-se aos Republicanos: “A vasta maioria gostaria de ver os sindicatos terem menos influência – tanto no setor privado (76%) quanto no setor público (72%). Nesse sentido, as opiniões das elites tecnológicas sobre a regulamentação do governo e os trabalhadores lembram muito mais doadores e apoiadores republicanos do que democratas”.3 Os direitos trabalhistas não são de seu agrado.

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Com o discurso de missão social, essas gigantes do Vale do Silício almejam pagar cada vez menos impostos, através de ações judiciais que visam minimizar as contas fiscais.4 Defendem a taxação dos ricos, tanto que não seja a das suas fortunas. Querem o serviço universal de saúde, mas sem contribuírem economicamente para isso.

Mas, voltando às questões trabalhistas, vemos muito mais essas elites se interessarem pela uberização da mão de obra que por relações de trabalho que garantem uma estabilidade ao trabalhador. Aliás, a Uber tem esse mesmo “discursinho” de missão social vomitado pela Apple, Facebook e outras empresas. Eis o que diz Andrew Salzberg, diretor de transporte da Uber: “Em países como os Estados Unidos, a grande maioria dos percursos são feitos por pessoas que conduzem seu próprio carro, e isso tem muitas consequências. Não somente em termos do número de veículos que acabam sobrecarregando as cidades, mas também pelo impacto ambiental e pela quantidade de mortos no trânsito”.5

Marx e Engels chamariam isso de “socialismo conservador ou burguês”. De acordo com os autores do Manifesto Comunista “uma parte da burguesia deseja remediar os males sociais para garantir a existência da sociedade burguesa. Pertencem a essa categoria: economistas, filantropos, humanitários, os que pretendem melhorar a situação da classe operária, organizadores de beneficências, protetores dos animais…” Querem criar um mundo onde os trabalhadores não precisam se organizar como classe. “Querem a burguesia sem o proletariado”. Uma “sociedade moderna sem as lutas e os perigos que delas necessariamente decorrem”. Querem exigir do proletariado “que permaneça na sociedade atual, mas renuncie à odiosa representação que faz dela”.6

A aversão das elites do Vale do Silício aos sindicatos revive o que Marx e Engels escreveram no Manifesto, pois procura “fazer a classe operária perder o gosto por todo movimento revolucionário”. A conclusão que chegam os dois amigos fundadores da Liga dos Comunistas serve perfeitamente para combater esse discurso empresarial falaciosamente social: “Por transformação das condições materiais de existências, no entanto, esse socialismo não entende, de maneira alguma, a supressão das relações burguesas de produção – possível apenas por via revolucionária -, mas unicamente melhoramento administrativos realizados sobre o terreno daquelas mesmas relações de produção, que portanto são mudam em nada as relações entre capital e trabalho assalariado, mas que, no melhor dos casos, reduzem para a burguesia os custos de sua dominação e simplificam o seu orçamento nacional”.7

Marx e Engels criticam até mesmo a estrutura persuasiva desse “discursinho” barato que essas empresas proferem: “O socialismo burguês só atinge sua expressão adequada quando se torna simples figura de retórica”.8 E são de fato meras figuras de retórica usadas para convencer a sociedade de que estão prestando um serviço social, mas, na verdade, prezam pelo lucro. Dizem que tudo que fazem é em prol da sociedade, mas no fundo tudo não passa de estratégia para beneficiarem a si mesmos.”

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Portanto, não devemos confundir essa definição burguesa de esquerda com o comunismo. Este nunca será proferido por um patrão, pois os interesses deste sempre estarão em conflito com os interesses dos trabalhadores. As elites do Vale do Silício percebem que é muito mais lucrativo o discurso plural, a diversidade de estilos de vida, que a perspectiva conservadora que quer impor uma única forma de viver. Por isso, adotaram o socialismo burguês como retórica política.

As esquerdas precisam se manifestar perante essa pretensão midiática e direitista de definir o que é ser de esquerda. As elites possuem o controle sobre a violência simbólica pelo monopólio de definição do mundo social, principalmente por controlarem os principais meios de comunicação. Por isso, nunca é de mais manifestar-se, definir a partir de nossas próprias palavras o que somos. Resgatar a história de luta da esquerda e destacar as contradições internas do Brasil (que se diferem dos problemas internos dos EUA) seria o primeiro passo.

 

1 http://cbn.globoradio.globo.com/media/audio/208371/perfis-de-direita-estariam-sofrendo-censura-nas-re.htm

2 https://brasil.elpais.com/brasil/2018/05/18/actualidad/1526600912_648575.html

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3 https://www.cartacapital.com.br/revista/970/o-vale-do-silicio-nao-esta-interessado-em-direitos-trabalhistas

4 https://www.bbc.com/portuguese/geral-40931867

5 https://www.bbc.com/portuguese/geral-40931867

6 MARX, K, e ENGELS, F. Manifesto do partido comunista. São Paulo: Martin Claret, 2006. P. 75.

7 Id. p. 76.

8 Id.