15 de outubro de 2011, 11h12

As nações poderosas oferecem apenas migalhas

Poucos conheciam Vittorio Agnoletto quando ele surgiu em canais de TV de todo o mundo como porta-voz e uma das figuras de maior destaque do Fórum Social de Gênova

Por Glauco Faria

Demonstrando firmeza e coragem, ele não se intimidou ao denunciar os abusos da polícia italiana e a perseguição aos movimentos sociais. Mas não é de hoje que esse médico milanês, de 41 anos, especializado em Medicina do Trabalho, está na luta política.

Vittorio Agnoletto foi, durante boa parte da juventude, aguerrido líder estudantil. Mas foi em 1987, quando fundou a Liga Italiana da Luta contra Aids (Lila), que assumiu de vez sua veia militante em defesa da vida e dos direitos humanos. A Lila foi a primeira associação na Itália a coordenar as chamadas “políticas de redução de danos” entre prostitutas e dependentes de drogas. Além de ser uma das maiores lideranças da área médica na luta contra a exploração econômica da doença, Agnoletto é hoje uma das referências dos movimentos contra o neoliberalismo. Na entrevista a seguir, analisa os resultados do Fórum de Genôva, o autoritarismo do governo Berlusconni e a situação da Aids.

O saldo de Gênova
Os resultados de Gênova são dramáticos, mas ao mesmo tempo positivos. Dramáticos porque o Fórum foi associado à morte de Carlo Giuliani e também porque milhares de pessoas foram feridas pela polícia de Berlusconni (Silvio, primeiro ministro da Itália). Positivos, porque o movimento demonstrou ser muito forte e unido, apesar de a direita ter tentado nos dividir. Durante cinco dias, organizamos um fórum público semelhante ao de Porto Alegre, milhares de pessoas participaram e centenas de conferencistas vieram de todas as partes do mundo, falando sobre temas ligados à globalização, como a luta contra a fome e contra a pobreza no mundo. Infelizmente, em seguida ao início das discussões, houve os dias de confronto (20 e 21 de julho) e os jornais falaram quase apenas da violência contra as manifestações, e não dos debates ocorridos no fórum público. Aliás, esse é um ponto que devemos analisar seriamente: a tremenda violência por parte da polícia e seu desrespeito às leis e à Constituição italianas. A polícia permitiu que centenas de agitadores violentos – os chamados Black Bloc – chegassem armados ao centro de Gênova e destruíssem tudo, e depois deixou que essas pessoas partissem. Estranhamente, atacou, espancou e surrou os manifestantes pacifistas, que nada tinham a ver com o Black Bloc.

Ação do Black Bloc
O Black Bloc foi utilizado como instrumento para atacar uma manifestação pacífica e acusar seus participantes de serem todos violentos. A polícia inseriu, seguramente, seus homens nesse movimento. A própria atuação da polícia denuncia sua verdadeira intenção: o Black Bloc chega onde está havendo uma conferência, uma manifestação, e comete todo tipo de ato violento e a polícia não faz nada. Depois, o Black Bloc se retira do lugar e a polícia ataca indiscriminadamente os pacifistas, deixando que os verdadeiros autores partam sem nenhum problema.

Combate à Aids
Atualmente existem medicamentos que prolongam em até dezesseis anos a sobrevivência do indivíduo, desde o momento da infecção até seu desencadeamento. O problema é que esses remédios custam caro, pois o preço é estabelecido pelas multinacionais, que se unem e agem como grande monopólio. Elas podem agir dessa forma porque a Organização Mundial de Medicamentos garante a propriedade da patente do remédio por até vinte anos. Nós, da Lila, nos declaramos contra a Organização e pedimos que fosse feita uma revisão de seus regulamentos. Apoiamos países com postura semelhante, como a África do Sul, Índia e o Brasil, em seus combates contra esse absurdo. Entretanto, os grandes países não quiseram mudar as regras. Por isso, parece-nos que a decisão tomada pelo G-8 em Gênova, destinando uma quantia de dinheiro para a luta contra a Aids, foi insignificante. As nações poderosas ofereceram apenas migalhas, muito pouco, pouquíssimo, recusando mudar uma realidade que impede os países pobres de adquirir medicamentos. Mas temos de deixar claro que a luta não é apenas pelo acesso aos medicamentos. Em certos países africanos, por exemplo, não existe estrutura sanitária nem assistência e, conseqüentemente, apenas os remédios não vão melhorar muito a situação. É necessário que haja ação mundial de luta e, por isso, apoiamos a proposta de criar um fundo de assistência à Aids. Mas que não seja apenas aquilo que as nações ricas deram, que é claramente insuficiente.

Indústria farmacêutica e patentes
Se a indústria farmacêutica aceitasse baixar o preço dos medicamentos, não seria preciso produzi-los sem as patentes. Os preços altos estabelecidos pela indústria são o grande problema. O argumento utilizado é que eles são necessários para obter o dinheiro que financiará as pesquisas. Isso não é verdade. De 1999 a 2000, em um ano, a Glaxo Wellcome aumentou em 16% seus lucros. Houve crescimento absurdo em seu faturamento. Trinta por cento da renda das multinacionais farmacêuticas são utilizados para pressionar os governos e os médicos a prescreverem seus medicamentos, menos de 20% são destinados à pesquisa. A renda das multinacionais não depende em nada dos países pobres. Se esses países pudessem produzir seus próprios remédios, praticamente não iriam interferir nos lucros delas. Na Europa, segundo a Confindustria (a organização que regulamenta os padrões diretivos de trabalho), a indústria farmacêutica, dentro da União Européia, é o setor industrial que distribuiu mais dinheiro aos próprios acionistas. Eles não têm nenhum motivo concreto para impedir a produção de medicamentos nos países pobres.

Caráter propositivo do Fórum
Acredito que nós não podemos nos limitar a continuar perseguindo os vértices internacionais, como o G-8 e Fórum de Davos. Devemos decidir, como movimento, a nossa agenda, e não deixar que as instituições supranacionais a decidam por nós. Para que isso ocorra, é importante sublinhar o caráter propositivo do Fórum Social e não apenas de contestação. Em Gênova, por exemplo, não nos limitamos a atacar e a apontar os pontos negativos, mas também apresentamos propostas, como, por exemplo, o imposto sobre o PIB dos países ricos, que geraria renda a ser destinada aos países mais pobres, assim como o cancelamento da dívida dessas nações. Tenho certeza de que, na Europa Ocidental e em outros países, se conseguirmos explicar bem as nossas propostas, se formos bastante claros, podemos nos tornar maioria.

Era Berlusconi
O governo Berlusconi significa um retorno a forte autoritarismo. No meu caso específico, utilizou mecanismo de exclusão da comunidade científica que não era usado desde a época do fascismo. Com isso, não quero dizer que o governo Berlusconni é fascista. Mas é bom lembrar que ele governa junto com um partido que, até poucos anos atrás, baseava-se abertamente no fascismo. Não devemos nos esquecer de que o vice-primeiro-ministro, Gianfranco Finni, é secretário-geral da Aliança Nacional – partido que se chamava Movimento Social Italiano, herdeiro do fascismo – e, durante o Fórum de Gênova, participou conjuntamente das ações operativas das Forças Armadas. Isso, pela Constituição Italiana, não é aceitável, porque os políticos são uma coisa e, as Forças Armadas, outra. Tal acontecimento foi um grande escândalo no país. Nesse momento que passamos na Itália, dentro de um governo de direita, há Berlusconi de um lado, como líder do neoliberalismo, e, de outro, Finni, que é o líder da verdadeira e mais pura repressão. Em Gênova e em Nápoli, as providências legais estão sendo tomadas pela Liga do Fórum Social, do qual participam inúmeros advogados que estão defendendo as pessoas acusadas pela polícia. Estamos apresentando várias provas, denunciando a violência ocorrida naqueles dias. Três altos dirigentes da polícia italiana já foram afastados de seus cargos, mas o chefe da corporação e o ministro do Interior, participantes diretos, permanecem em seus postos até agora. Isso é uma vergonha, já que a responsabilidade principal pelos atos é de quem comanda.

Perseguição pessoal
O governo procurou demonstrar que o movimento do Fórum Social era de apenas um pequeno grupo de agitadores violentos, mas não conseguiu. Então, iniciou uma forte repressão, que não é apenas aquela ocorrida na Praça de Gênova. Eu, por exemplo, como médico e presidente da Liga Italiana para a Luta contra a Aids, era há oito anos membro da Comissão para a Luta contra as Drogas e também membro da Comissão para a Luta contra a Aids. Participava delas devido a méritos científicos, por ter realizado pesquisas no campo da Aids e publicado vários artigos em revistas especializadas. Contudo, fui afastado de minhas funções, em ambas as comissões, não por ser incompetente no plano profissional, mas simplesmente porque não compartilhava das posições políticas do governo. Essa é uma coisa gravíssima, que na Itália aconteceu apenas durante os vinte anos de fascismo, quando todos os pesquisadores deviam jurar estar de acordo com o governo.

Repressão contra os movimentos sociais
Devemos evitar qualquer crítica feita aos atos de solidariedade ao povo americano. Nós não somos antiamericanos, mas sim contra o governo dos EUA e o poder mundial centralizado naquele país. Acho que esses atentados podem, em um futuro próximo, estimular reação norte-americana para atingir qualquer alvo antagônico, independentemente de ser ou não responsável pelos atentados. E temo que isso leve os governos neoliberais do mundo a restringirem ainda mais os espaços democráticos. Por exemplo, um importante comentarista italiano, um jornalista influente na Itália, ontem mesmo declarou que existe mais de um culpado por tudo o que ocorreu, insinuando que há um elo de ligação entre o antiamericanismo dos movimentos antiglobalização e aquele atentado. Acredito que essa seja uma declaração gravíssima e que pode contribuir para aumentar o clima de repressão.

Boa vontade com o terrorismo
Acho que isso é um erro, creio que devemos condenar intensamente o atentado ocorrido na América. E claro que se uma parte da esquerda não condena esses atentados facilita a repressão e motiva a direita a justificá-la. Não há acordo com o terrorismo. Leva apenas à estagnação dos espaços democráticos e funciona somente como agressão aos movimentos de massa, que pregam a democracia e a paz.

(Tradução Silvia Massimini)