03 de julho de 2018, 19h51

As sete virtudes capitais

Charles Carmo escreve: “Maurício chegara à maturidade com a calmaria intacta. Embora fosse jornalista, podia facilmente se passar por diplomata”

II – A CALMA

A vida sempre lhe pareceu ter um propósito. Se algo não deu certo, atingiu-se de qualquer forma os desígnios do criador. Não era para acontecer. Por outro lado, em caso de sucesso, confirmava-se a vontade do grande arquiteto. Disso resultava a sua tranquilidade. A contrariedade, repetia, é tão inútil quanto os livros de autoajuda. Quem planeja é Deus. Ao homem cabe edificar a obra, o que lhe exigia estudo e trabalho. E tudo se arranjava, seguindo o divino desenho de nossa existência.

Por isso aquela parcimônia nos gestos e sua aversão aos conflitos. Os queixumes eram evitados, limitando-se a um “puxa-vida” insosso, quando muito um “isso não está correto”. Aos onze anos de idade, na presença de sua mãe, assistiu uma discussão de trânsito. Um homem, transbordando sua cólera, sugeriu a seu oponente que fizesse coisas inenarráveis com um canavial. Decidiu ali. Jamais falaria um palavrão.

Não que fosse santo, mas era a consubstanciação da pacatez. Não há quem tenha presenciado um único gesto seu de arrebatamento ou furor, o que, convenhamos, não se pode dizer nem mesmo do próprio Cristo.

Maurício chegara à maturidade com a calmaria intacta. Embora fosse jornalista, podia facilmente se passar por diplomata.

E assim, em um domingo qualquer, dirigiu-se ao banco. Era dia de jogo no Barradão e começara cedo os preparativos para a jornada futebolística. À sua frente, na fila do banco, um casal parecia duelar com o caixa eletrônico. Maurício, cuja única coisa que pensava naquele momento era a final do campeonato baiano, aguardava sereno, com os olhos vagos.

Subitamente o corpulento desconhecido virou-se para trás e falou, com cruel superioridade:

– O senhor quer chegar mais para trás?

Maurício demorou a entender que o homem falava com ele. Na dúvida, perguntou.

– Como, senhor?

Foi o suficiente. Uma cólera abrupta se apoderou do sujeito. De repente, sem nenhum aviso prévio, aquele corpo sem pescoço começou a desferir toda sorte de acusações e impropérios. Reivindicou a privacidade pretensamente violada. Aqui, disse ele, está a minha senha. Minha senha, ouviu? Respeite minha privacidade!

Maurício raciocinou rápido.

– Seu saldo tá mais vermelho que minha camisa, daí seu faniquito.

Não obstante, ele não disse isso. Só conseguiu falar:

– Não está correto, senhor. Eu não quero saber sua senha.

Dissesse isso ao menos nervoso e talvez o assunto tivesse se resolvido naquele mesmo instante, mas não. Deu-se o oposto. A negativa cordial e o pronome de tratamento respeitoso de alguma forma puseram combustível na fogueira onde ardiam as últimas reservas de racionalidade do homenzarrão da fila.

Chovia palavrões. O troglodita parecia conhecer todas as expressões ofensivas já criadas de Moisés à pós-modernidade, seja lá o que isso signifique.

Maurício permanecia com sua serenidade pétrea, enquanto ouvia toda sorte de impropérios.

Finalmente, quando os ânimos pareciam arrefecidos, o homem se aproximou e sem lhe oferecer possibilidade de defesa, fulminou junto ao seu ouvido:

– Você é vice, rapaz. Vice!

Foi como uma barragem a desmoronar.

Maurício sentiu a palpitação acelerar. Sua boca ficou seca, suas mãos trêmulas. Aquelas palavras ressoavam em sua cabeça, como o som de uma concha, uma microfonia na alma.  “Vice, você é vice”.

Ele, que durante sua vida foi indiferente às provocações, experimentava o ódio sincero e o desejo de vingança. Sentiu-se vivo como nunca. Maurício apertou a caneta com força, planejando alojá-la na jugular de seu inimigo. Inimigo. Até mesmo aquela palavra era uma novidade. Queria matar e banhar o chão com o sangue de seu inimigo. Inimigo – repetia para si mesmo, com mórbida satisfação.

O que se quer frequentemente não é feito, e foi assim com Maurício. Não matou. Saiu da fila e dirigiu-se a outra, com bovina resignação.

Os dias se passaram e não guardou dos xingamentos nenhuma mágoa, mas aquelas últimas palavras não desapareciam de sua mente.

– Você é vice, rapaz. Vice!

Essa lembrança era sempre acompanhada da mesma visão: uma caneta esferográfica alojada na jugular do sujeito.

– Isso não está certo – remoía, em silêncio obsequioso.

Dois meses depois, foi encontrado já frio, na cama. Morreu sereno, como em vida, aos 39 anos de ira contida.