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09 de dezembro de 2018, 14h20

As três cabeças de Cérbero

Raphael Silva Fagundes: O governo Bolsonaro será diferente das direitas europeias e de Trump, pois aqui se assumiu o poder defendendo a política de austeridade. Esse pode ser o caminho pelo qual uma mobilização de esquerda pode ser bem-sucedida

Foto: Divulgação

Cérbero é o cão tricéfalo que guarda as portas do inferno na mitologia grega. Sua missão é impedir que os mortos saiam do submundo e, qualquer um mortal que ouse passar pelas portas que guarda, será por essa fera devorado.

Se para Ciro Gomes, a união de Guedes, Bolsonaro e Moro é filho de jabuti com macaco grego, por não enxergar uma seguridade econômica para os anos que virão, prefiro pensar nestas figuras como um imenso Cérbero preso em uma coleira conduzida por Trump.

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O objetivo é enterrar os últimos resquícios de um Estado de bem-estar social e implementar um liberalismo liderado pelos EUA. Mas por que e como?

Mesmo com a “trégua” de três meses entre Estados Unidos e China, as relações daquele país com as potências asiáticas não são muito agradáveis. Os chineses resolveram falar com os EUA de igual para igual e estão articulando, para se proteger geopoliticamente, um mercado intracontinental com a Índia e a Rússia: o plano “made in China 2025” e a Parceria Econômica Regional Abrangente (RCEP) para enfrentar uma possível desaceleração da economia caso as relações com os EUA sejam desconsideradas. Um mercado interno que pode aumentar já que os EUA resolveram também taxar seus aliados históricos, como Coreia do Sul e Japão.

Contudo, a chegada de Bolsonaro ao poder tem que ver diretamente com essa conjuntura. O presidente cansou de dizer que não é muito simpático aos negócios chineses, o que nos leva a crer que haverá um enfraquecimento com o Brics. Contribui para esse cenário o fato de Rússia e EUA não serem tão amigos assim, e o Brasil já deixou claro de quem será lacaio.

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Os EUA usarão o Brasil como um quintal bilateral e irá irradiar esse conceito por toda a América Latina. Mas somente com o extermínio de Maduro que, por sua vez, acabou de conseguir 6 bilhões de dólares com a Rússia, é que o trabalho estará concluído. Vemos o presidente eleito, Jair Bolsonaro, peitar a França, confrontando os tratados ambientais, seguindo os passos do líder norte-americano.

Mas esse projeto econômico deve ficar nas sombras. Um projeto que quer afundar a economia brasileira e torná-la novamente dependente dos EUA. E as três cabeças que guardam este projeto de inferno tem o objetivo de fazer tudo parecer correto dando a ele uma cara legítima e popular.

A cabeça de Bolsonaro representa o sentimento do povão, simbolizando, por sua vez, o ódio à esquerda. Ele também tem a função retórica de fazer com que tudo que é ruim pareça bom, pois as pessoas depositaram sua confiança nele. Todos os projetos absurdos, como prender a mãe que passa Aids para o filho, retirar a estabilidade do funcionalismo público, acabar com o Ministério do Trabalho etc., podem se tornar aceitáveis. A figura militar do capitão reformado representa a instituição que o povo mais confia.

A cabeça de Moro faz parecer que tudo está sendo realizado democraticamente e que não existe interesses obscuros por trás de tudo, já que prendeu grandes nomes da política. Ele, por sua vez, tornando-se ministro mostra que a “justiça” continuará sendo feita, prendendo Lulas e deixando soltos Aécios.

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Até o jogo para se criar o bem e o mal na Justiça foi perfeito. Moro representa o bem, aquele que prende, Gilmar Mendes representa o mal, aquele que solta. Sem o mau juiz, o bom não existiria. Só que, coincidentemente, o do bem assume o caso dos petistas e o do mal os dos tucanos.

A pior das cabeças é a de Paulo Guedes. Este traz a solução econômica de privatizar. Depois que o modelo estatal foi associado ao PT por Bolsonaro e trancafiado no inferno por Moro, os fins, o “para que tudo isso foi feito”, será realizado por Guedes.

Se os corruptos foram presos, ou melhor, se aqueles que usavam a máquina do Estado, as estatais, para enriquecer foram presos, por que seria necessário privatizar? Não é possível recompor essas empresas de forma justa e honesta, já que os corruptos foram presos? Nada está sendo feito para salvar o Brasil, mas sim como uma oportunidade de implantar um modelo de gestão, que vinha sendo aplicado pelo próprio PT, mas que precisa agora de novos representantes para parecer que se está inovando. Um choque liberal de consequências drásticas não poderia ser provocado por aqueles que estão com a imagem desgastada.

O Cérbero tornou-se um guardião de um inferno em que o Hades é o presidente Donald Trump, que não se importa com as consequências que irá gerar para os povos, mas pensa apenas nas empresas de que é dono as quais vêm sendo ameaçadas pelo poderio chinês que cresce a cada ano.

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Temer, durante a reunião do G20, tentou manter a ideia de que Bolsonaro irá receber o Brics com muito prazer no ano que vem, mas tudo indica que as relações com a China não andarão de vento em poupa, pelo menos se levarmos em conta as declarações do presidente em campanha.

Uma tendência à direita espreita o mundo europeu. O aumento da violência na Espanha, o modelo globalista entregue ao grande capital de Macron e o enfraquecimento econômico do Reino Unido em contraposição ao crescimento italiano (país que possui grande influência da extrema direita), pode levar ao apogeu dessa guinada para a direita por lá, fechando o ciclo para o mercado multilateral e o compromisso com os problemas ambientais e de solidariedade internacional. Onde tudo isso irá nos levar? Para o retorno do sentimento de superioridade nacional? Esse inferno é conhecido pela história e não faz muito tempo.

O governo Bolsonaro será diferente das direitas europeias e de Trump, pois aqui se assumiu o poder defendendo a política de austeridade. Esse pode ser o caminho pelo qual uma mobilização de esquerda pode ser bem-sucedida, primeiramente tornando público os efeitos dessa política (em uma árdua batalha contra o investimento ideológico que virá), para, em seguida, mobilizar o povo. A radicalização da crítica é o caminho para provocar a crise, principalmente quando estamos lidando com um governo que antes de existir na prática já demonstra fragilidades internas.

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