Raphael Silva Fagundes

17 de maio de 2019, 06h00

As vantagens de ser idiota

Raphael Silva Fagundes: “A vantagem de ser idiota da maneira que Bolsonaro execra, aquela manifestada pelos professores e estudantes, é a de construir um Brasil que pensa em seu povo”

Foto: Marcos Corrêa/PR

“Nada no mundo é mais perigoso que a ignorância sincera e a estupidez conscienciosa.”
(Martin Luther King Jr)

O “imbecil” para Bolsonaro

O ministro da Justiça não sabe dizer cônjuge; repete seguidas vezes o erro, “conje”. O ministro da Educação confunde o nome do escritor Kafka com um prato árabe, depois mostra ao vivo que não sabe fazer porcentagem. Diariamente é exibida a ignorância sociológica intencional do presidente ao dizer que não há racismo no Brasil e a do ministro do Meio Ambiente que diz não saber quem foi Chico Mendes.

A lista iria se estender demais se expuséssemos a “ignorância sincera” de Damares, sem falar em Olavo de Carvalho, o guru intelectual que quer provar que filosofia é um amontoado de palavrões e ofensas. Por isso, vamos parar por aqui.

Temo que um dia um dos meus alunos diga: “Tá vendo professor, o moço não sabe nem fazer conta e se tornou ministro”. E, no fim, aumentar o seu desinteresse pela escola. Um outro pode falar: “Ah lá, o moço nem sabe falar cônjuge e é rico, pra que eu vou estudar e treinar redação?”.

Acho que há dois motivos para essa “estupidez conscienciosa”. Um é chamar o povo de burro. Finge-se a ignorância para fingir humildade criando um vínculo de identidade. Uma das máscaras da política é fingir simpatizar com o sentimento dos mais pobres, e, embora estes tenham o conhecimento sociológico do seu espaço que os ajudam a sobreviver, o governo prefere destacar a ignorância relativa das classes populares. O outro seria o culto à inépcia, formando trabalhadores meio idiotas (1), perfeitos para a produção capitalista e, por tabela, conter a contestação antissistêmica. Uma coisa é certa, tudo é de propósito. A burguesia colocou idiotas populistas no poder para imbecilizar o povo por meio do exemplo.

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Cortar recursos é intervir na economia

O governo não quer investir em universidades porque seu modelo de economia política não exige trabalhadores qualificados. Essa função seria das nações desenvolvidas. Enquanto a Alemanha aumenta seus investimentos em educação, aqui eles são cortados. Os norte-americanos investem fortemente em sociologia para desenvolver novas estratégias de combate militar e para aperfeiçoar a arte da publicidade (2).

Aos brasileiros, portanto, ficará reservada, em abundância, a função de apertar parafusos. Um emprego honesto e digno, porém, será ocupado por falta de opção e não pela liberdade de exercer tal profissão. Tudo é parte do interesse de uma burguesia que exige uma classe trabalhadora sem cérebro e que sirva apenas ao capital.

Como disse Marx uma vez: “O capitalista considera a existência de uma classe trabalhadora dotada de habilidade entre as condições de produção que lhe pertencem: vê nela a existência real de seu capital variável” (3).

A burguesia radicalizou seu controle sobre o Estado e decidiu que não quer mais dar a mínima brecha para que possamos escolher o que sonhamos, somos obrigados a viver para ela, a servir a seus caprichos suntuosos.

Tivemos presidentes eruditos que agiam de forma erudita e não investiram na educação. Sarney, FHC, Temer… Contudo, estes foram menos cruéis em certo aspecto, pois não buscaram nos convencer que ser burro é algo positivo.

Clama-se por mercado livre, mas o governo intervém diretamente na economia quando investe ou não em outros setores. O não investimento na educação, ao lado de uma cultura que valoriza a ignorância, forma uma mão de obra barata que produz uma mercadoria barata, forçando o país a se submeter aos produtos sofisticados (tecnologia, medicamentos etc.) que vêm de fora.

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Enquanto o governo dos EUA, em seu conflito com a China, intervém na economia para desenvolver ainda mais seu mercado, o governo brasileiro busca intervir para afundar sua economia em termos relativos, pois irá gerar empregos, contudo ficaremos com uma carência de cérebro para produzir mercadorias de alto custo no mercado e para ocupar cargos altos em empresas (hoje estatais que serão futuramente privatizadas).

Os idiotas inteligentes

Os governantes passaram a ser sinceros com as palavras, revelando o que pensam sobre as classes populares. Não é um fenômeno apenas brasileiro. Na França, Macron revelou sua visão do povo francês: trabalhadores “analfabetos”, destinatários de contribuições sociais que custam “uma grana alta”, “preguiçosos”, “cínicos”, “extremistas”, “pessoas que não sabem nada”.

Em outra situação o presidente da França define o povo como “aqueles que se queixam em vez de tomarem conta de si mesmos e assumirem responsabilidades, aqueles que, com muita frequência, não são nada” (4).

No Brasil, a burguesia vem revelando a sua visão sobre o povo de forma semelhante. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, disse, recentemente, que qualquer um pode trabalhar até os 80 anos. Moro comenta sobre os 80 tiros em um pai de família que “esses fatos podem acontecer”. A ministra da Agricultura faz piada e declara que “brasileiro não passa muita fome porque tem muita manga”.

Agora foi a vez do presidente da República, ao chamar os manifestantes em defesa da educação, contra os cortes no setor, de “imbecis” e de “idiotas úteis”. O deputado pelo PSL de Goiás, Delegado Waldir, disse que os participantes do movimento são “baderneiros” e “fumadores de maconha”.

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Existem dois tipos de idiota. Em seu sentido verdadeiro, o termo vem de “idiotes”, que designava “pessoa privada, simples cidadão”, isto é, aquele que não participava da coisa pública. Já para Bolsonaro, o termo significa o contrário, já que deixou claro que não quer que a juventude se politize. Quer que ela apenas trabalhe sustentando, assim, sua vida privada.

Dos dois tipos de idiota, o povo parece estar escolhendo ser o que Bolsonaro repudia, os idiotas inteligentes. Já os idiotas ignorantes, modelo que os próprios componentes do governo simulam para assim imbecilizar seus seguidores por imitação, parecem estar recebendo resistência por parte da população, que não quer se transformar nesse ser desfigurado politicamente.

A “vantagem” de ser um idiota da maneira que propõe Bolsonaro é viver sem pensar, conceber a vida da forma que ela é dada, o que pode ser vantajoso para os seres limitados. A vantagem de ser idiota da maneira que Bolsonaro execra, aquela manifestada pelos professores e estudantes de quarta-feira (15), é a de construir um Brasil que pensa em seu povo, em sua natureza e que quer crescer para se tornar independente, não um mero capacho dos EUA.

(1) www.revistaforum.com.br/escolas-para-formar-individuos-meio-idiotas/

(2) https://diplomatique.org.br/retrato-do-intelectual-como-soldado/

(3) MARX, K. O Capital: crítica da economia política: livro 1, v. 2. Trad: Reginaldo Sant’ana. 30 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2012. P. 669.

(4) https://diplomatique.org.br/a-filosofia-do-desprezo/

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.