13 de julho de 2015, 13h03

Até o diabo tem o direito de ser ouvido

Creio que todos se lembram da repercussão que teve no Brasil a entrevista coletiva da presidenta Dilma às vésperas de seu discurso na ONU no ano passado. Naquela ocasião, discutia-se as ações do Estado Islâmico no Oriente Médio quando então Dilma questionou os jornalistas: “Vocês acreditam que bombardear o Isis (Estado Islâmico) resolve o problema? Porque, se resolvesse, eu acho que estaria resolvido no Iraque”, e continuou mencionando a necessidade do diálogo. Apesar do conteúdo da fala da presidente não destoar da linha diplomática brasileira, que sempre se pautou por condenar o uso da força e apoiar a negociação como...

Creio que todos se lembram da repercussão que teve no Brasil a entrevista coletiva da presidenta Dilma às vésperas de seu discurso na ONU no ano passado. Naquela ocasião, discutia-se as ações do Estado Islâmico no Oriente Médio quando então Dilma questionou os jornalistas: “Vocês acreditam que bombardear o Isis (Estado Islâmico) resolve o problema? Porque, se resolvesse, eu acho que estaria resolvido no Iraque”, e continuou mencionando a necessidade do diálogo.

Apesar do conteúdo da fala da presidente não destoar da linha diplomática brasileira, que sempre se pautou por condenar o uso da força e apoiar a negociação como forma de resolução dos conflitos, provocou ampla indignação da grande mídia no Brasil. Sua fala foi desqualificada de diversas formas: “ingênua”, “apoiadora de terroristas”, “irresponsável”. Como pode alguém ser favorável ao diálogo com “fanáticos islâmicos” já que “nem à força esse tipo de fanáticos se dobra”, pontificou um experiente jornalista da Folha de São Paulo. No mesmo jornal, um diplomata de reconhecida experiência internacional condenou as “banalidades piedosas” de nossa diplomacia em relação a esses “fanáticos” e “psicopatas”.

Na ocasião escrevi um artigo ironizando essas criticas, lembrando que dialogar não significa, necessariamente, estabelecer qualquer tipo de identificação com o inimigo e que há várias formas de diálogo com outros “terrorismos” que, infelizmente, acontecem frequentemente na historia das relações internacionais, como os que já foram praticados por potências internacionais.

Pois bem, volto a esse assunto porque o colunista do Washington Post, Fareed Zakaria, vê com bons olhos o recente encontro que aconteceu no Afeganistão entre membros do governo afegão e militantes do Taleban na presença de observadores internacionais (inclusive do alto escalão do governo americano). Zakaria, que está num campo ideológico muito distante de ser considerado de esquerda ou “petralha”, infere que a guerra no Afeganistão, uma das mais longas da historia dos EUA (15 anos), só poderá terminar algum dia não com uma nova ocupação militar ou com bombardeios de drones, mas em fóruns como esse.

Em abono à sua tese, ancora-se em Jonathan Powell, ex-chefe de gabinete de Tony Blair (isso mesmo, o “Bush inglês”) que escreveu recentemente um livro, intitulado Terrorists at the Table: Why Negotiating is the Only Way to Peace (Terroristas à mesa: Porque negociar é o único meio para a paz, em português). Powell destaca que conflitos como o do Afeganistão somente poderão acabar algum dia por meio de negociações e não pela vitória militar. Atenção, Powell não é um pacifista, também não apoia o terrorismo, não é petralha, e tem experiências traumáticas em conflitos armados. Seu pai, um militar, foi ferido pelo Exército Republicano Irlandês (IRA). Seu irmão ficou na lista dos ameaçados de morte pelo grupo durante anos.

Mas, provavelmente dez anos de experiência na assessoria de um governo que apostava exclusivamente na força militar no Oriente Médio o fez admitir que o problema do terrorismo é fundamentalmente de ordem política e só poderá ser resolvido pela negociação. E assim conduziu as negociações com IRA (apesar de ser inapropriado qualificar IRA como terrorista). Powell cita muitos exemplos passados de organizações terroristas consideradas demasiadamente violentas para conversar, como o caso do movimento dos Mau Mau do Quênia que, segundo o governo britânico, tratava-se de uma “conspiração que tinha como base a perversão total do espírito humano”, seres “sub-humanos” que “só poderiam se redimir com a morte”. Algo parecido com o que jornalistas e diplomatas disseram aqui. Mas, no final das contas, depois de muitas mortes, o governo britânico teve que negociar.

Powell lembra também que o general David Petraeus, que não é petralha, admitiu que os EUA esperaram demais para conversar com pessoas que “tinham sangue americano nas mãos”.

Certa feita li um texto do mestre Oliveiros Ferreira no qual constava uma frase de que nunca me esquecerei, e que inclusive coloquei como epígrafe de minha tese de doutorado sobre os EUA: etiam diabolus audiatur (até o diabo tem o direito de ser ouvido).