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07 de dezembro de 2012, 14h13

Ativistas brasileiros e tunisianos discutem a construção da cidadania planetária

Evento que integra a programação da ONG Brasil 2012 debateu também o papel das organizações da sociedade civil no Brasil e na Tunísia

Evento que integra a programação da ONG Brasil 2012 debateu também o papel das organizações da sociedade civil no Brasil e na Tunísia

Por Felipe Rousselet

Seminário debateu a importância de organizações da sociedade civil no Brasil e na Tunísia (Foto: Felipe Rousselet / Revista Fórum)

Nesta sexta-feira (7), foi realizado o 1° Fórum Brasileiro de Redes, Organizações e Ativistas de Defesa de Direitos, evento que integra a programação da ONG Brasil 2012, no Expo Center norte, zona norte de São Paulo.

A primeira mesa do Fórum, intitulada “O papel das organizações da sociedade civil na construção da cidadania planetária”, teve a presença de Fátima Mello, diretora da ONG FASE (Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional) e uma das organizadoras da Cúpula dos Povos; do professor tunisiano Habib Ayeb, docente da Universidade de Paris, e de Alaa Talbi, membro do Fórum Tunisiano de Direitos Econômicos e Sociais.

A discussão foi focada no balanço dos resultados da Cúpula dos Povos, evento que aconteceu paralelamente à Rio+20, na revolução tunisiana e nas articulações entre diversos movimentos sociais de todo mundo, visando principalmente ações propositivas no âmbito do Fórum Social Mundial 2013, que será realizado na Tunísia.

Fátima Melo destacou que o que levou à construção do processo do Fórum Social Mundial no Brasil foi o histórico de lutas do país. “Passamos décadas com uma agenda negativa que nos unia. Nos anos 60 e 70, era a luta contra a ditadura e, depois, ao longo dos anos 90, fizemos importantes frentes de luta contra o neoliberalismo e isso reforça nossa unidade na resistência. Fizemos uma campanha massiva na América Latina contra a Alca, que conseguimos derrotar. Isso que nos permitiu criar o ambiente que possibilitou criar processos como o Fórum Social Mundial no Brasil. Ele não teria sido possível sem esse histórico anterior”, afirmou.

Para Mello, o desafio central das organizações da sociedade civil hoje no Brasil e na América Latina é o fato de que os programas sociais, que incluem milhões de pessoas que antes eram marginalizada, estão sendo financiados pelo neodesenvolvimentismo. “A Cúpula dos Povos foi realizada em meio a este dilema dos movimentos sociais: valorizar o imenso ganho social da inclusão desses milhões pelo consumo, e o problema é este, é pelo consumo. Essa é uma agenda que bloqueia a possibilidade de criar um piso mínimo entre os movimentos”, comentou.

Já o professor Habib Ayeb, trouxe para o debate uma breve análise sobre a revolução ocorrida,em 2011 na Tunísia, país que sediará o próximo Fórum Social Mundial. Ayeb focou a sua fala na crítica a forma com que a revolução foi retratada pela imprensa internacional. “Chamaram todo um processo de “Revolução do Jasmim”, mas onde a revolução começou, o jasmim não cresce. É uma forma de marginalização do resto do país e daqueles que iniciaram a revolução.  Houve uma ruptura geográfica a partir de uma escolha política, o ditador marginalizou toda uma região e isso levou a revolução”, afirmou. “Escutamos falar de greves no sudoeste do país, mas não vimos o acúmulo das lutas sociais.  Trabalhadores das regiões mineradoras, no sudoeste, fizeram uma greve muito grande, em 2008, que se prolongou apesar da repressão. Estes são os protagonistas deste processo que culminou no dia 14 de janeiro. O Facebook, tão comentado, foi somente um instrumento para o processo”, esclareceu Ayeb.

Alaa Talbi falou sobre a atuação dos movimentos sociais tunisianos após a revolução (Foto: Felipe Rousselet / Revista Fórum)

O ativista tunisiano Alaa Talbi destacou a continuidade das lutas dos movimentos sociais após a revolução. “A esquerda tunisiana organizou as eleições e a direita venceu. Por um lado, os islamistas tem um programa de governo extremamente neoliberal e isso ameaça a população marginalizada e a própria revolução. Por outro, eles tentam de todas as formas impor antigos códigos de conduta, que privam a população de seus direitos. Porém, os movimentos sociais resistiram e estão resistindo. Afirmamos que estamos em 2012 e não aceitamos mais estes códigos”, disse Talbi.

Por fim, Talibi destacou a importância da união de movimentos sociais durante o Fórum Social Mundial da Tunísia. “Nós queremos essa troca de experiência com a América Latina, e, especialmente, com o Brasil, que tem esta experiência de lutas mencionada pela Fátima. A crise está afetando a todos e se queremos lutar teremos que estar todos juntos.”, afirmou. “Os desempregados, os pobres e a população marginalizada devem ser os atores deste Fórum, e não apenas espectadores”, completou Talbi.