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09 de dezembro de 2018, 18h59

Ato em memória de Stuart Angel se torna palco de resistência no Rio

Família recebe foto desconhecida do militante assassinado pela ditadura, de seu tempo de clandestinidade. “Essa luta não termina, não esquecemos porque as feridas são muito profundas”, diz Hildegard Angel

Foto: Jotha R. Kayber Por Maurício Thuswohl, da RBA Há coisas que o tempo não apaga, como a dor pela perda de um irmão. Ou os ideais de liberdade, democracia e justiça social que moldam toda uma vida de lutas. Esses dois sentimentos se fizeram presentes de forma emocionante na manhã deste sábado (8), durante a cerimônia realizada no Rio de Janeiro em homenagem a Stuart Angel – ex-militante do MR-8 assassinado em 1971 pela ditadura civil-militar. Apesar da chuva, cerca de cem pessoas compareceram ao ato realizado na rua, ao lado do busto de Stuart, obra do artista Edgard...

Foto: Jotha R. Kayber

Por Maurício Thuswohl, da RBA

Há coisas que o tempo não apaga, como a dor pela perda de um irmão. Ou os ideais de liberdade, democracia e justiça social que moldam toda uma vida de lutas. Esses dois sentimentos se fizeram presentes de forma emocionante na manhã deste sábado (8), durante a cerimônia realizada no Rio de Janeiro em homenagem a Stuart Angel – ex-militante do MR-8 assassinado em 1971 pela ditadura civil-militar.

Apesar da chuva, cerca de cem pessoas compareceram ao ato realizado na rua, ao lado do busto de Stuart, obra do artista Edgard Duvivier instalada no bairro da Urca. A cerimônia marcou o recebimento pela família Angel de uma fotografia – até então desconhecida – na qual Stuart aparece disfarçado para a emissão de um documento falso que seria usado na clandestinidade.

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Em meio a lágrimas e gritos de “Stuart presente!”, a foto foi entregue à jornalista Hildegard Angel pelo mecânico aposentado Sebastião Braz, que acolheu o militante em sua casa nos dias que antecederam sua prisão e morte.

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A importância de lembrar e reafirmar a luta e os ideais de Stuart no atual momento político que vive o Brasil deu o tom das intervenções durante o ato: “Esta luta não termina nunca, nós não podemos esquecer e não esquecemos porque as feridas são muito profundas. Esse sofrimento abrange não somente a família direta do Stuart, mas também todas as famílias correlatas e os amigos. Essa é uma cicatriz que a gente carrega, mas carrega com orgulho porque o Brasil tem heróis. Por isso, ser irmã do Stuart sempre me envaideceu”, disse Hildegard.

O ato teve a participação de Antônio Francisco da Silva, pai da vereadora Marielle Franco, assassinada em março deste ano em um crime político ainda não esclarecido. A placa que traz a vereadora como nome de rua, que se tornou símbolo de resistência após ser atacada por simpatizantes do presidente eleito Jair Bolsonaro, foi colocada ao lado do busto de Stuart.

A participação de Chico Andrade, antigo militante da Aliança Libertadora Nacional (ALN) que sobreviveu às torturas nos porões da ditadura, foi uma das mais emocionantes: “Relembrar o Stuart é sempre um momento de resistência, de afirmação da cidadania, da democracia e da liberdade. Essa foi a nossa luta”, disse.

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Andrade ressaltou a importância do resgate das memórias da ditadura no atual contexto brasileiro: “Neste momento que estamos vivendo no país temos que ficar de olho e batalhando, pois a situação está ficando muito difícil. É muito importante relembrar para não deixar voltar. A minha luta, a luta do Stuart, continua. Ela passa de geração para geração”.

Hildegard lamentou o discurso adotado por Bolsonaro e seus simpatizantes durante a última campanha eleitoral: “Existe uma tentativa de reescrever a história, de reinterpretá-la, de modificá-la. Querem criar uma história do Brasil de acordo com a conveniência de cada governo que estiver no poder, mas a história do país é única. Ela não pode sofrer esse tipo de deformação. Nós estamos aqui para relembrar”, disse.

A presença ostensiva de duas viaturas da Polícia Militar durante o ato também foi comentada pela jornalista: “Estamos vendo uma demonstração dos novos tempos. Nós já fizemos vários eventos aqui em datas comemorativas e hoje, pela primeira vez, tem polícia. Esse é o novo Brasil, e não sei por quanto tempo a gente vai poder fazer publicamente eventos como esse sem sofrer nenhuma retaliação”.

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Esbanjando vitalidade aos 83 anos, Sebastião Braz também deu seu recado após entregar a foto na qual Stuart, que era louro, aparece de cabelos pretos e bigode: “Na democracia, é normal perdermos as eleições. O que não pode é, nas eleições, perdermos a democracia”, disse.

O ato foi encerrado aos gritos de “viva” para Stuart, sua mãe Zuzu Angel, Marielle e outros militantes de ontem e de hoje que foram assassinados em consequência de sua luta por um Brasil melhor e mais justo.

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