Milos Morpha

31 de março de 2015, 13h30

Babilônia: subversão e subversão limitada

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(Divulgação)

Em 1930, um ato de autorregulação dos grandes estúdios americanos em Hollywood estabeleceu o que ficou popularmente conhecido como Código Hays. Basicamente, o Código estabelecia oficialmente o que era e o que não era permitido dentro das representações visuais e narrativas feitas por Hollywood. Ele foi vencido no fim dos anos 1960 por uma séria crise criativa e pela desconsideração que encontrava em muitos dos cineastas.

Quando a novela Babilônia foi ao ar na segunda-feira 16 de março, muita gente se manifestou horrorizada contra o casal gay de idosas interpretado por Fernanda Montenegro e Nathália Timberg. Aliada a essa rejeição e como contra-argumentação a ela, algumas amoralidades representadas na novela foram também colocadas em questão. É verdade que Babilônia, como outras novelas de Gilberto Braga, tem uma média de personagens corruptos ou suscetíveis à corrupção acima do que é comum nas outras tramas do horário. Os textos de Braga tendem a sugerir que a corrupção, na classe média e classe média alta, está enraizada, é como esses personagens vivem e ganham dinheiro e é tão naturalizado que eles já nem a percebem como corrupção. Só quem é capaz de reconhecê-la é o lado oposto da moeda, o da classe trabalhadora.

Esse discurso do mau rico/bom pobre não é tão raro assim por si só, mas acontece que Braga costuma ser bastante agressivo na sua representação. Afinal, todos se lembram da Odete Roitman de Beatriz Segall, que não sei se era uma representação tão perfeita da arrogância da classe média alta brasileira então quanto é hoje. Babilônia, desde o primeiro capítulo, tem sido particularmente carregada de vilanias não punidas, e daí vem também boa parte de suas críticas.

Quem questiona que a novela é uma afronta à moral pelo casal de lésbicas e quem responde que o foco da crítica deveria estar nas “verdadeiras amoralidades” partem de um mesmo ponto, a mesma ideologia do “só devemos mostrar o que é correto” que fundou o Código Hays. Ora, este mesmo estabelecia tanto que a criminalidade não deveria ser estimulada com um protagonismo dos bandidos (que deveriam sempre ser punidos no final) como também determinou proibida a representação da relação afetiva homossexual.

Talvez não seja surpreendente percebermos que a televisão brasileira ainda vive uma versão não institucionalizada do Código Hays. As regras, até muito pouco tempo, eram praticamente as mesmas. O crescimento do movimento LGBT forçou uma representação mais responsável da minoria. Mas Babilônia provocou um incômodo à parte, não apenas porque o beijo se deu entre duas idosas, mas também porque ignorou um processo de construção narrativa por que todos os outros casais gays da Globo tiveram que passar para estabelecer uma aceitação prévia da sexualidade dos personagens.

Mas e então? Babilônia está furando o Código com vilões que tem boa relação com a mãe e lésbicas idosas que não estão muito preocupadas em explicar a constituição de sua família? Sim e não. A subversão nesse caso é possível, mas terrivelmente limitada. Babilônia ainda é parte da Rede Globo, uma instituição bastante conservadora politicamente, mas que, aliada do Golpe, exibiu novelas de Dias Gomes na Ditadura Militar.

Não sugiro nessa relação entre a empresa e seus artistas qualquer sinal de “liberdade de expressão”, pois não resulta numa evidência real. É simplesmente interessante para uma indústria que produz cultura ter seu próprio conjunto de subversivos debaixo do braço, sob o seu controle, mas produzindo para ela. Há perspectivas de respeitabilidade e credibilidade histórica em jogo. Mas advogo a favor da subversão limitada. Quando conduzida com inteligência e coragem, costuma resultar em obras bem interessantes, eloquentes com o mínimo.

Na velha Hollywood do Código Hays, Henry Fonda, o ator, fez de alguns filmes específicos um ato de negociação com o estúdio em que trabalhava. Ele teve que aceitar fazer os mais convencionais dos faroestes para ter projetos como Consciências Mortas, que associa a ideologia do Oeste americano àquela do nazismo, e Vinhas da Ira, um filme marxista hollywoodiano, aprovados. Billy Wilder e Alfred Hitchcock continuadamente expunham as fragilidades e a hipocrisia do Hays em seus filmes. Terei contestadores, mas, como vejo, foi Wilder quem jogou a pedra final, o filme que tornou o Código insustentável a partir de então: Se Meu Apartamento Falasse (1961).

Por isso confio meu respeito temporário à Babilônia.Além da representação gay fantástica (realmente única no que temos visto na nossa televisão até agora), é muito fácil perceber outros passos tomados pela novela. Babilônia traz uma disputa de classes radical, com uma periferia grande e nada caricaturesca contra o poder estabelecido de uma falsa meritocracia. Mais importante: os personagens reconhecem o embate, declarado desde o primeiro capítulo. Prometo que não procuro exageros quando comparo alguns personagens de Babilônia aos de Victor Hugo em Os Miseráveis. E eu não sei se fico mais encantado com a Mme. Thénardier de Adriana Esteves ou o Marius Pontmercy de Thiago Fragoso.

Ainda assim, é preciso estar atento às arestas. Várias vezes fui tentado a argumentar a favor de Babilônia dentro da Rede Globo usando o humor esquerdista dOs Simpsons e de Seth McFarlane como parte da conservadora FOX como comparação. Mas não podemos ser ingênuos de acreditar que o show business da Globo está igualmente desassociado da sua ideologia empresarial-jornalística.

Da mesma forma, também deveríamos limitar o nosso cinismo. Algumas estrelas do Rio de Janeiro negro e empoderado de Babilônia, incluindo a protagonista Camila Pitanga e a cantora de funk Ludmilla, que teve participação artística na novela, declararam seu apoio ao movimento Jovem Negro Vivo. Representatividade é uma luta política.