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21 de dezembro de 2017, 17h23

Baleado na cabeça pela polícia civil, jovem é obrigado a prestar depoimento sem roupa e sem advogado

Ricardo Benassi, de 21 anos, foi abordado por policiais na região central de São Paulo e seu carro foi alvo de ao menos 10 disparos, sendo que um atingiu sua cabeça. A Polícia Civil suspeita que ele faça parte de uma quadrilha e, poucos dias após sua cirurgia, o retirou do hospital apenas de avental para prestar depoimento e, na sequência, o prendeu. Mãe do garoto, que não consegue fazer contato com ele, garante: “não faz parte de quadrilha alguma” Por Ivan Longo Há dois dias que Renata Benassi, grávida de 7 meses, não consegue contato algum com seu filho,...

Ricardo Benassi, de 21 anos, foi abordado por policiais na região central de São Paulo e seu carro foi alvo de ao menos 10 disparos, sendo que um atingiu sua cabeça. A Polícia Civil suspeita que ele faça parte de uma quadrilha e, poucos dias após sua cirurgia, o retirou do hospital apenas de avental para prestar depoimento e, na sequência, o prendeu. Mãe do garoto, que não consegue fazer contato com ele, garante: “não faz parte de quadrilha alguma”

Por Ivan Longo

Há dois dias que Renata Benassi, grávida de 7 meses, não consegue contato algum com seu filho, Ricardo Benassi, de 21 anos, que foi alvejado com um tiro na cabeça disparado por um policial em São Paulo. Ele foi abordado no último dia 8 de dezembro quando passava de carro pela Rua da Consolação, região central da capital paulista, por carros da Polícia  Civil não identificados.

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De acordo com o boletim de ocorrência, a polícia procurava por suspeitos em um automóvel C4 branco que, naquele dia, estaria efetuando assaltos na região da rua 25 de Março, também no centro da capital. O carro em questão foi localizado pelos policiais na Rua da Consolação, parado em um semáforo ao lado do carro de Ricardo, um i30, que estava ainda com outro passageiro. A polícia alega que os motoristas e passageiros dos dois carros conversavam quando foram abordados. Os homens que estavam dentro do C4 conseguiram fugir, mas Ricardo e o passageiro, que estavam no i30, teriam colidido, resistido a prisão e, de acordo com a polícia, efetuado disparos. Os policiais, então, teriam revidado e alvejaram o carro de Ricardo com pelo menos 10 disparos, sendo que um atingiu a sua cabeça.

Internação e falta de informação

A mãe só foi saber, pelo hospital Santa Casa de Misericórdia, não pela polícia, que seu filho estava internado e que havia acabado de passar por uma cirurgia. Impedida de ver Ricardo, Renata conseguiu uma autorização judicial para visitá-lo. Assim o fez e foi acompanhando sua gradativa melhora até a última terça-feira (19), quando o jovem foi transferido pelos policiais para prestar depoimento no Deic (Departamento Estadual de Investigações sobre o Crime Organizado).

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Renata contou à Fórum que só soube que seu filho havia sido transferido para o Deic por volta das 18h daquele dia através de uma ligação de policiais solicitando medicamentos e roupas do rapaz. Por volta das 15h, contou ela, Ricardo ainda estava internado.

“No hospital ele estava com muita dor e, por volta das 15h, o tempo da visita acabou. Eu estava dentro da Santa Casa, a namorada dele estava lá também. Depois de 20 minutos da visita ele não estava mais lá. A gente achou estranho porque ele não estava podendo andar”, contou Renata. Ela disse ainda que logo quando viu que o filho não estava mais no quarto em que havia sido internado, procurou por informações na recepção, mas ninguém sabia dizer para onde Ricardo havia sido levado.

Somente por volta das 17h50, quase três horas depois, que Renata recebeu a ligação de um policial informando que seu filho estava no Deic. No local, segundo o que contou à Fórum, foi impedida de ver o filho, que prestou depoimento sem a presença de um advogado. Ela pode vê-lo apenas através de um vidro que dividia a sala onde foi colocado. De acordo com a mãe, ele estava vestindo apenas o avental do hospital, apesar de ter tentado levar roupas ao rapaz enquanto estava internado.

Mãe questiona arma encontrada e resistência

Renata questionou tanto a Santa Casa de Misericórdia quando os policias o motivo pelo qual o filho não estava vestindo roupas e também o por que ele não foi transferido para um hospital penitenciário, já que estava se recuperando de uma cirurgia e, além disso, estava em tratamento de uma tuberculose. Segundo ela, não houve respostas de nenhuma das partes. Desde então Renata não consegue fazer contato com o filho que, segundo a Polícia Civil, foi transferido para o Centro de Detenção Provisória (CDC) de Pinheiros na manhã desta quarta-feira (20).

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Ricardo responderá por associação criminosa, resistência e receptação. Segundo a Polícia Civil, ele compunha uma quadrilha que executava assaltos e, quando foi abordado, desembarcou do carro e efetuou disparos. A polícia alega ainda que foi encontrada uma pistola em seu veículo. Renata, no entanto, diz ter certeza que seu filho não atirou em ninguém, que não fazia parte de quadrilha alguma e que não portava arma. Isso porque o jovem já havia sido preso por roubo e cumprido pena de dois anos e, no último ano, vinha trabalhando em um lava rápido e vendendo sanduíches naturais na porta de uma universidade para ajudar a mãe com sua gravidez. De acordo com a ouvidoria da Polícia Civil, o rapaz teria dito aos policias que planejava um furto, mas que não fazia parte da quadrilha e que a arma encontrada não era sua – ela teria sido plantada pelos próprios policiais.

Renata questiona toda a narrativa da polícia. “Eu, sinceramente, e não é porque é meu filho, não acredito que ele tenha envolvimento com quadrilha. Até por que a polícia fala que a quadrilha estava atuando na 25 de março. Acontece que a gente mora na avenida 9 de julho, muito próximo. Se meu filho estivesse fugindo, ele não estaria descendo a Consolação. O Ricardo estava indo para casa. Quanto a arma, acredito que não seja dele mesmo. Ele já tem passagem, sabe que isso o complicaria. E sobre descer do carro atirando: como meu filho teria saído do carro se o carro foi alvo de 10 tiros? Não teria sobrevivido. Sobre planejar furto, para mim foi uma surpresa. Ele me ajudava, estou em gravidez de risco. Essa foi a informação que passaram, mas ele não me falou nada disso. Não tive acesso ao depoimento”.

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A Defensoria Pública, de acordo com Renata, informou que Ricardo continuará detido no CDP de Pinheiros até dia 28, quando deve passar por uma consulta de acompanhamento do pós-cirúrgico. Até lá, não são permitidas visitas e a mãe, enquanto isso, segue buscando por informações e pela ajuda de advogados.

Outro lado

Por meio de nota, a secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) informou que Ricardo recebeu alta hospitalar e que prestou depoimento sem advogado pois os policiais teriam aguardado “por mais de quatro horas a presença de um advogado do suspeito, o que não ocorreu” – contrariando o que diz Renata, que só soube que o filho estava no Deic por volta das 18h e, quando chegou ao local perguntando se poderia chamar um advogado, às 18h30, o filho já havia prestado depoimento.

“Cabe esclarecer que as investigações do departamento apontaram para o envolvimento de Ricardo com uma quadrilha presa no dia 8 de dezembro na região da 25 de março por roubos no Morumbi e Campos Elíseos. Além disso, quando foi preso, o suspeito estava em um veículo e trocou tiros com os policiais do Deic após reagir a uma abordagem. As investigações continuam”, continuou a SSP na nota.

Fórum procurou ainda a Santa Casa de Misericórdia de São Paulo para obter um posicionamento sobre a transferência do jovem para o Deic, as circunstâncias em que foi removido, o motivo pelo qual o hospital não permitiu que a mãe levasse roupas ao jovem e ainda se ele realmente estava em condições de deixar a internação, já que a mãe alega que ele mal podia andar e também pelo fato de Ricardo estar passando por tratamento de tuberculose. O hospital, até a publicação desta matéria, não deu retorno.

 

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