Blog do Mouzar

18 de junho de 2013, 15h04

Barbas de molho

A história é velha, citada muitas vezes, “a gota d’água”…

Numa época havia até uma espécie de disputa em que duas ou mais pessoas punham água até quase a borda de um copo e depois cada um ia colocando, com um conta-gotas, uma gota a mais. É interessante ver que a partir de um certo ponto parece que vai se formando uma “barriga” de água acima do topo do copo. Cada gota d’água colocada em seguida parece que vai ser a última, que vai transbordar, mas não acontecesse isso.

Até que enfim uma gota transborda, mas não ela sozinha. Traz consigo toda a água excedente que formava aquela “barriga” acima do limite do copo. Quem colocou a gota d’água transbordante, perde.

Pois é, na sociedade acontece isso também. Só que não hão apenas um perdedor.

Os poderosos (governos em todos os níveis, capitalistas, políticos em geral, magistrados…) vão colocando gotas d’água de exploração, cinismo, injustiça e miséria, e demora a transbordar, mas um dia transborda, e aí não será o transbordo só da última sacanagem que fizeram. Vai copo abaixo a revolta contra tudo o que vinha sendo feito e até mais. E há o que alguns chamam de “estouro da boiada”. Ninguém segura.

Basta lembrar que toda a tal “Primavera Árabe” começou com uma coisa que seria vista como corriqueira num país de governo fundamentalista, repressivo, ditatorial. Um camelô que não aguentava mais ser achacado pela polícia ateou fogo ao próprio corpo. Neste tempo de mídias sociais capazes de espalhar para o mundo, em minutos, imagens, notícias, ideias e opiniões, a imagem do camelô ganhou o mundo, e a revolta ganhou as praças.

Gotas d’água não faltam por aqui. Corrupção, abuso de poder (no executivo, no legislativo e talvez mais ainda no judiciário), violência, exploração, sobra de dinheiro para a corrupção e falta para os serviços básicos de atendimento à população…

R$ 0,20 de aumento da passagem de ônibus não pareceria motivo para protestos tão veementes, mas será que a causa real de adesão a esses protestos seria esse aumento?

E aí vem a velha cantilena da mídia, de que tem outras formas de protestar sem parar o trânsito na Avenida Paulista, lembrando como ela faz sempre que a região é cheia de hospitais e que as ambulâncias não conseguem chegar a eles (o que se esquece nas comemorações de conquistas futebolísticas e na Parada Gay, por exemplo). Mas há quanto tempo a população reclama do péssimo serviço de transporte coletivo em São Paulo? Há quanto tempo aparecem ônibus transbordando, metrôs insuficientes, trens insuportáveis? E a população que, depois de demorar um tempão para entrar num ônibus superlotado, ficar quase sem respirar no aperto dele, pagar, e depois descer e continuar o trajeto a pé porque o trânsito não anda? Todos os dias há imagens e matérias sobre isso, e os governos tomaram providência? E todos os dias a população reclama, protesta, mas o que aconteceu nesse tempo todo? Vale a ideia de que deve-se protestar sem incomodar os outros, sem escancarar a insatisfação atrapalhando o trânsito?

Ora, a gota d’água tem que acontecer. Aí, barbas de molho, governos. A coisa pode parar de um momento para outro, mas pode também evoluir para muito mais. Bem, no caso a polícia deu sua contribuição, abusando da violência – conforme determinaram que ela fizesse.

Quanto à gota d’água dessa adesão aos protestos, acredito que tem um pouco a ver com a Copa das Confederações e a Copa do Mundo. Não há dinheiro para solucionar – entre outras coisas – o transporte coletivo, mas há dinheiro para gastar bilhões fazendo estádios com custos superfaturados, em que o que custaria muito de repente custou o triplo do previsto, que já era demais, e entregar tudo ao domínio da Fifa. Isso é demais!

Aliás, há uma sensação geral de que o Brasil voltou a ser colônia do imperialismo internacional. A Fifa é o Império da vez. O Brasil gasta o dinheiro que não tem para transporte, saúde e educação (entre outras coisas) fazendo estádios do jeito que a Fifa manda e que no final a Fifa vai explorar, vender publicidade, cerveja e não sei que mais. O custo é nosso, o lucro é dela. Tudo feito de maneira obediente, servil. E com muita corrupção.

Não dá! Para muito gente é a hora do basta, a gota d’água.

Claro que há outras coisas. Mas, acredito, esta é uma delas.

E muita gente deve estar torcendo para essa explosão se esvaziar rapidamente, sem chegar ao Congresso Nacional que Lula dizia ter mais de trezentos picaretas (a coisa aumentou, pois muitos dos que antes pareciam corretos e sérios tornaram-se picaretas também), às assembleias legislativas e câmaras municipais, a todo o poder executivo nos níveis nacional, estadual e municipal e a todo o poder judiciário, sem contar a polícia, os empresários (que se passam por povo, mas estão sempre entre os que levam vantagem na geléia geral da corrupção e do autoritarismo), a mídia manipuladora…

Na Argentina, no fim de 2001, aconteceu algo semelhante, e surgiu o movimento “Que se vayan todos”, que pode ser traduzido por “Fora todos!”, quando o povo argentino não aguentava mais a bandalheira geral dos poderosos. Foi um chega pra lá que não culminou com fuzilamentos sumários nem nada disso (que seriam até justificáveis), mas tirou do poder muita gente metida a besta.

Ah, claro que os responsáveis vão dizer, sempre, que os culpados são os outros. Basta ver uma declaração do vereador paulistano Andrea Matarazzo: “Os ônibus da capital de São Paulo têm o preço de tarifa de padrão alemão e oferecem ao cidadão qualidade cubana”. Pura verdade. Mas o tucano Andrea Matarazzo parece querer dizer que não tem nada a ver com isso, só que seu partido governou ou participou do governo nos últimos oito anos, e ele foi até secretário de governo do último prefeito antes do atual, e nesse período o número de usuários de ônibus quase dobrou, enquanto o número desses veículos diminuiu. Piorou demais, justamente na gestão em que ele participou diretamente e com grande responsabilidade.

Isso, claro, não diminui a responsabilidade e a falta de visão de políticos de todos os partidos, tapando os olhos para os problemas do povo, esbanjando dinheiro de forma corrupta em certas coisas supérfluas ou não, enquanto o povo se sufoca num transporte coletivo horroroso, mora cada vez pior e pagando mais, tem que pagar plano de saúde porque a saúde pública não é boa, tem filhos estudando em escolas precárias… Governar, no Brasil, exige comprar políticos, faz muito tempo que é assim, mas agora as informações não dependem só da grande mídia (que por sinal não divulga a corrupção quando ela lhe convém ou o governo é seu chegado).

É… Barbas de molho! O “fora todos” brasileiro pode ser mais radical do que o argentino. E nessas hora a coisa costuma extrapolar, cometendo injustiças contra quem não tem culpa. Como dizia um amigo, quando a miséria e a injustiça vão crescendo cotidianamente, com a crença dos poderosos de que o povo nunca reage, um dia explode. E aí, quem está descalço mata um sujeito quase igual a ele, só que tem dois pares de sapato. Tomara que não cheguemos a isso, mas pelo menos que cheguemos a um ponto que o descalço saiba quem é o culpado por ele não ter sapatos, e sua vingança seja justa.

PS,: Os empresários de ônibus sempre dizem que o preço é baixo, não dá para cobrir os custos. Mas veja se há algum deles mal de vida. Há alguns anos um empresário de transporte coletivo municipal em São Paulo, do tipo que sempre diz que essa atividade não dá lucro, teve dinheiro para montar uma baita empresa de aviação, a Gol. É preciso dinheiro pra chuchu pra comprar um único avião. De onde ele tirou tanta grana?