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29 de Abril de 2018, 13h15

Bastidores da prisão de Lula, parte 2: “Nos foi oferecida uma embaixada, mas nós não aceitamos…”

No domingo passado lançamos a primeira parte desta reportagem sobre os bastidores da prisão e da resistência de Lula no Sindicato. Segue a segunda, com novas entrevistas e histórias.

Lula no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC antes de ser preso, no dia 7 de abril (Foto: Mídia Ninja)

O ex-prefeito de São Bernardo Luiz Marinho é apontado por fontes desta reportagem como uma das pessoas que mais buscou alternativas e consensos no período de resistência no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Até por essa sua característica conciliadora foi a ele que Lula confiou a missão de conversar com ministros do Supremo para que as ADCs 43 e 44 fossem votadas de forma mais célere.

Leia também: Bastidores da prisão e da resistência de Lula – parte 1

Marinho avalia que a estratégia do PT de questionar o judiciário “talvez tenha passado do ponto” e que neste tipo de processo “quanto mais a gente fala mais atrapalha”. E por isso defende que o momento é de recuar um pouco, “porque esse conflito criou um sentido de corpo no judiciário” que está prejudicando a defesa do presidente Lula. “E eu acho que existe a possibilidade de reverter isso. Se não acreditasse nisso eu iria para casa”, pontua.

Nesta mesma entrevista onde o atual candidato do PT ao governo de São Paulo defende esta tese ele revelou ao repórter que o presidente Lula recebeu proposta de asilo político. “Nos foi oferecida uma embaixada, mas nós não aceitamos…”. Qual, pergunta o repórter. “Essas coisas não se falam…”, responde. Em off, insiste o repórter. “Não falo em off”, encerra.

A última frase revela um pouco do perfil de Marinho. Sua formação no mundo sindical, onde um dos atributos mais importantes é ser duro mas negociador e conciliador, faz com que tome muito cuidado para tratar de temas partidários e de questões polêmicas. Mas nesta mesma entrevista se permitiu avançar um pouco na discussão sobre a polêmica que se estabeleceu em relação às críticas feitas pelo senador Lindbergh acerca do fato de o PT e os movimentos não terem insistido mais na resistência ao mandado de prisão de Lula.

“O povo brasileiro não tem vocação para enfrentamentos de rua. Por isso nossa aposta sempre foi no processo democrático. E não dava para ser diferente naquele momento”, registra. E acrescenta que Lula sempre dizia que não ia fazer como o Saddam Hussein, expor o seu povo a uma guerra para se defender. Não ia se suicidar como o Getúlio. E nem ia fugir como um covarde.

Em relação às declarações de Lindbergh ele diz que de fato o senador tinha opiniões diferentes, “mas não tem essa de ser mais macho ou menos macho, mais mulher ou menos mulher, mais bravo ou menos bravo”.

E como vários dos entrevistados, confirma que quem decidia tudo era o Lula. “E num dado momento quando houve a ameaça de prisão preventiva ele preferiu caminhar para um acordo com a PF.” Até porque, acrescenta: “Qual a multidão que a gente tinha lá embaixo para fazer o enfrentamento?”

Episódio Lindbergh
A polêmica que se estabeleceu após a prisão de Lula com uma entrevista concedida pelo senador Lindbergh ao jornalista Paulo Henrique Amorim já arrefeceu um pouco, mas deixou cicatrizes. Ela rendeu bate-bocas ainda no Sindicato e também em lista de whatsapps de dirigentes do PT. Sua fala responsabilizando parte da direção do partido e os advogados, entre eles o ex-ministro da Justiça José Eduardo Cardozo, por não ter havido mais resistência, foram consideradas imaturas e oportunistas por vários dos que foram ouvidos nesta reportagem. “A forma mais delicada que as pessoas se utilizavam para se referir a ele era moleque”, afirma um assessor parlamentar da bancada do PT. A reportagem procurou o senador Lindbergh e enviou as seguintes perguntas para a sua assessoria:

1) Muitas pessoas que estiveram na negociação da apresentação do Lula à PF se incomodaram com as críticas públicas que o senador fez, em especial numa entrevista ao Paulo Henrique Amorim. O senador continua achando que houve um erro de direção na condução daquele processo?
2) Considera que os advogados erraram na avaliação do que significava se entregar à PF?
3) Depois de passados quase 20 dias daquele processo, qual avaliação política que o senador faz do futuro político de Lula e do PT?

O senador preferiu não respondê-las.

Um ex-dirigente do PT que é próximo de Lindbergh relata que “ele de fato poderia ter sido menos duro ao expor as divergência de forma pública”, mas afirma que “no mérito” ele tem razão.

Segundo esta fonte eram 14h da sexta-feira quando José Eduardo Cardozo, ex-ministro da Justiça, disse que tinha sido procurado pela Polícia Federal. “Naquele momento ele afirmou que se o Lula não se entregasse podia configurar resistência a ordem de prisão e que isso poderia resultar em prisão preventiva nos dois processos que ainda corriam com o Moro.” A reunião se tornou uma confusão, porque consultados os advogados que lá estavam, incluindo os do Lula, confirmaram que existia este risco. “A Gleisi foi a primeira a se insurgir. Ela teve uma reação bastante dura. Depois o Lindbergh fez o mesmo. E o Boulos idem. Ali se iniciou a divisão de posições”, relata. E as pessoas foram sendo convencidas de que não valia a pena correr o risco de ter a prisão preventiva decretada, segundo a mesma fonte. “É claro que o Lula decidiu tudo, mas não dá pra dizer que essa pressão não o influenciou. Ele sempre vai escutando todo mundo e depois decide. O Lula sempre foi assim”, defende.

Ato em frente ao Sindicato dos Metalúrgicos no sábado, 7 de abril (Foto: Mídia Ninja)

Discurso final
Desde sexta que já se negociava a apresentação de Lula no sábado, mas entre os que defendiam que a resistência se alongasse ainda havia esperança. “Mas foi fatal ver a quantidade de pessoas que haviam no entorno do Sindicato ao amanhecer. Eram umas 400, 500. Mesmo às 14h do sábado quantas pessoas haviam lá, 2 mil, 3 mil”, pergunta um dirigente do PSoL que esteve no local e que participou de várias reuniões pra decidir a estratégia da resistência.
“Esse discurso de que a gente tinha que resistir mais é um tentativa de criar uma narrativa meio heroica para algumas pessoas”, afirma o deputado Paulo Pimenta.

Naquela manhã de sábado, Lula percebeu que o correto era seguir no acordo que havia sido construído no dia anterior de se entregar até às 17h. “Sábado cedo ele olhou pela janela e viu que não dava para resistir. Ele não queria banho de sangue”, relata Wadih Damous.

E aí foi ajustando a fala que faria no percurso da missa. Atribui-se ao ex-ministro Paulo Vannuchi a sugestão de que ele incorporasse a imagem do sonho no discurso, fazendo uma referência explícita ao histórico I have a Dream, de Martin Luther King. Também teria sido Vannuchi o autor da frase “eu sou uma ideia”. O repórter enviou mensagem ao ex-ministro pra conversar sobre o assunto, mas ele não respondeu.

“Estamos protagonizando fatos históricos e precisamos agir com essa grandeza nesses momentos”, afirma Walter Sorrentino, da direção nacional do PCdoB. Ele considera que foi muito ruim aquele momento final no Sindicato, quando Lula foi impedido por uma parte dos manifestantes de deixar a entidade de carro. Mas que no resto tudo caminhou como o planejado. Sorrentino avalia que a instabilidade ainda vai continuar e que a crise ainda vai demorar a decantar. Mas que o futuro está aberto e o campo progressista precisa conversar e ampliar suas pontes, sem que haja vetos. “Ao contrário, precisamos criar uma grande frente democrática. Precisamos achar, como na época da ditadura, pessoas que se juntem a nós como o Teotônio Vilela, o Gofredo da Silva Teles, como um Sobral Pinto”, defende.