Blog do Rovai

16 de janeiro de 2019, 11h34

A ida do PCdoB para Maia e o futuro do campo progressista

O que de pior pode acontecer neste momento é apostar que a divisão do que restou da esquerda e da centro esquerda pode nos levar a um destino melhor.

O PCdoB anunciou ontem seu alinhamento à candidatura de Rodrigo Maia juntando-se ao PDT de Ciro Gomes e deixando PT, PSB e PSoL numa posição mais frágil em relação a um braço de ferro que poderia ser realizado com a direita programática, do tipo DEM, que defende todas as privatizações e reformas, e a extrema direita oportunista e enlouquecida, representada por Bolsonaro, seu PSL e agregados.

A decisão do PCdoB não surpreende, muito pelo contrário. Desde o ano passado o partido está dividido em relação à sua análise de conjuntura e as decisões a serem tomadas. O apoio a Haddad foi fechado numa reunião altamente dividida e o atual líder da bancada na Câmara, Orlando Silva, foi embora antes de a decisão ser anunciada.
Ele defendia o apoio a Ciro, mas se isso não se concretizasse preferia manter a candidatura de Manuela do que se juntar ao PT.

A análise de Orlando e da nova geração do PCdoB é a de que o partido não pode ser mais linha auxiliar do PT que é extremamente hegemonista. Orlando também tem grande proximidade pessoal com Rodrigo Maia e já foi um dos seus articuladores na primeira tentativa à presidência da Câmara.

O racha do PCdoB foi explicitado num artigo duro, com destinatário claro, publicado por José Reinaldo Carvalho em vários sites. Carvalho é dirigente comunista histórico. E muito respeitado dentro e fora do partido. O título do seu artigo era “Esquerda com Maia, uma aliança extravagante”.

Entre outras coisas, Carvalho escreveu: “O cenário dos últimos dias mostra que estão em curso intensos entendimentos e pressões para que a esquerda ou pelo menos parte desta apoie a reeleição de Maia. Será extravagante a formação de um bloco de forças que tenha por vértice no parlamento um presidente da Câmara comprometido com a estabilidade e o êxito do governo de extrema direita”.

E ainda disse que quando se iniciou a pressão para que o campo progressista apoiasse Maia, o discurso era de que isso era importante para derrotar Bolsonaro. Mas que depois que o demista fechou com o PSL, o discurso mudou, como se nada tivesse sido dito antes.

Antes do PCdoB, o PDT já tinha aderido a Maia com o PSL e com tudo.

No PT, vários deputados também defendem a mesma linha de Orlando Silva. Consideram que o maior erro é o isolamento. Uma nota de ontem na coluna de Lauro Jardim registrou que Maia tem mais votos que Gleisi Hoffmann, presidenta do partido que é contra o apoio a Maia.

Não é reportagem e muito menos trabalho sério. É típico folclore do jornalismo de notas. O blogueiro apurou com várias fontes que hoje na bancada do PT, no limite, 1/3 defendem Maia.

Não é apenas Gleisi Hoffmann que está nesta posição de que se deve buscar uma alternativa a chapa Maia-Bolsonaro, mas também o líder da bancada, Paulo Pimenta. Além disso, quase a totalidade das lideranças populares da base do partido e dos dirigentes tem posição semelhante a de Gleisi e Pimenta. Definitivamente eles não são minoria ou estão isolados.

Em off, um deputado petista disse ao blogue que isso é tão verdadeiro que mesmo quem defende Maia tem medo de se expor pelo alto custo político que isso pode implicar.

Mas qual o motivo deste racha e o que ele pode implicar? Há muitas análises na praça hoje sobre o que será o governo Bolsonaro e por isso há muitas táticas e estratégias à disposição. Uma delas é a de que o governo Bolsonaro vai fazer água rapidamente e que por isso o presidente da Câmara tem que ser alguém com traquejo político capaz de superar isso de forma institucional. Ciro tem apostado nisso.

Há uma outra que considera que o governo Bolsonaro tem mais fôlego e que as reformas e perseguições só serão impedidas com pressão popular e rua. A maior parte do PT, PSoL e movimentos sociais aposta nisso.

Há ainda uma terceira percepção, que seria a de alguns líderes do PCdoB de que Bolsonaro vai instalar o governo do fim do mundo para o campo popular e as esquerdas. E que por isso não o campo progressista tem que fazer alianças à direita e ao centro. Por isso à opção Rodrigo Maia seria o sapo da vez. Ontem, no seu artigo escrito para defender o apoio ao demista, Orlando lembro de Guimarães Rosa: “o sapo não pula por boniteza, mas por precisão”.

O fato concreto é que no atual momento essas diferentes visões da conjuntura levaram a um racha. Ele ainda não é tão significativo. A situação política pode fazer com que o campo progressista se aglutine de novo. Mas é algo para ficar atento. O que de pior pode acontecer neste momento é apostar que a divisão do que restou da esquerda e da centro esquerda pode nos levar a um destino melhor.