Blog do Rovai

20 de abril de 2016, 20h35

Dilma parece saber que não há chances de vir a ser condenada…

A frase que a presidenta já disse em outras vezes e repetiu hoje, de que está do lado certo da história, parece ser sua vitamina para a luta.

Fraca, abatida, desanimada e se sentindo derrotada por uma grande armação contra a qual não tem como lutar. Essa caracterização não tem nada a ver com a presidenta que recebeu hoje blogueiros e blogueiras para uma entrevista de duas horas. Dilma estava o oposto. Animada, de bom humor e fazendo questão de repetir por diversas vezes que “vai lutar em todas as trincheiras necessárias para defender seu mandato”.

A Dilma de hoje, por incrível que pareça, era uma mulher mais solta e energizada do que das duas entrevistas anteriores com este formato. A primeira, no meio da eleição de 2014. E a segunda, no primeiro semestre de 2015. Naquelas ocasiões, Dilma parecia mais presa à faixa presidencial e às idiossincrasias do cargo. Desta vez, não que  tenha deixado os cuidados de presidenta, mas parecia se sentir mais liberada para avançar um pouco nas declarações, deixando de lado certas formalidades.

Curiosamente a conversa começou da mesma forma que das vezes anteriores. Iniciou-se pelo clima seco de Brasília, mas rapidamente foi para a situação de reservatórios e chegou na situação das hidroelétricas, dos rios e das bacias. Esse tema parece ser o favorito da presidenta, independente do que esteja ocorrendo.

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No áudio disponibilizado na íntegra no post anterior, o leitor pode verificar por quanto tempo Dilma tratou deste assunto antes da entrevista propriamente dita se iniciar.

Aliás, ela aproveitou este momento para tirar duas casquinhas dos tucanos Fernando Henrique Cardoso e Geraldo Alckmin. Em relação ao primeiro, disse que no seu governo excepcional (claramente de forma irônica) teve racionamento. E por isso a imprensa queria de todo jeito que no dela também tivesse. O que não ocorreu. E também disse que ficava impressionada como a mídia tratava de forma generosa a crise de abastecimento em São Paulo. Em São Paulo, segundo ela, era um problema climático, já no resto do Brasil decorrência de má gestão.

Nas duas horas de duração da entrevista, Dilma se negou a falar apenas sobre se iria denunciar o golpe na ONU e sobre qualquer possibilidade de futuro que não fosse a de lutar para garantir seu mandato, repetindo que o que está em jogo não é o cargo, mas a democracia.

Em dois momentos Dilma não economizou adjetivos a Eduardo Cunha. Tratou-o como o conspirador mor e como o pecado original do processo de impeachment.

Aliás, Dilma parece entender Cunha como o personagem maior deste processo que denomina de golpe e que pode lhe vitimar.

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Mas na pergunta que fiz buscando que ela abordasse mais o assunto, Dilma lembrou do escritor Jacob Gorender, com quem teve relação de amizade na prisão, e de análises que ele fazia sobre como a realidade ia se desenvolvendo naqueles dias da década de 70.

Gorender, segundo Dilma,  dizia que a ditadura não tinha o controle de tudo, que não sabia de tudo. E ela acha um pouco a mesma coisa dos seus algozes atuais.

A presidenta considera que num primeiro momento a movimentação golpista era coordenada a partir do PSDB junto com o presidente da Câmara, Eduardo Cunha. E só quando Aécio começou a aparecer nas delações e a perder pontos nas pesquisas eleitorais é que Temer passou a ser considerado como opção. Dilma não parece crer que o seu vice fosse desde sempre o capitão do golpe.

A partir de uma pergunta da jornalista Laura Capriglione, a presidenta também sinalizou que vai ouvir os movimentos sociais no período de resistência caso o Senado autorize o processo do impeachment. E que não vai agir sozinha e nem buscar querer dar as cartas.

Fazer análises subjetivas de entrevistas não é exatamente um bom método, mas como estou disponibilizando o áudio da íntegra para que o leitor possa tirar suas conclusões, arriscaria dizer ao mesmo tempo que Dilma parece ter a exata dimensão do que está vivendo, ela não parece acreditar que ao final sofrerá o impeachment.

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E que mesmo se em algum momento isso vier a acontecer, ela dá a impressão de que tal fato não será capaz de lhe abater.

A frase que a presidenta já disse em outras vezes e repetiu hoje, de que está do lado certo da história, parece ser sua vitamina para a luta.

Hoje, Dilma relembrou histórias da ditadura, principalmente na hora que lhe perguntaram sobre a intervenção de Jair Bolsonaro (PP-RJ) na hora do voto de domingo, e em todo o momento dava a impressão de que ela sabia que naquele período histórico também estava do lado certo . E que o futuro seria diferente.

Isso parece estar acontecendo com ela de novo. Dilma sabe que pode vir a ser vítima de uma grande injustiça, mas não se sentirá derrotada. Parece ter plena convicção de que não há chances de ser condenada, porque em última instância, a história a absolverá.

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