Blog do Rovai

11 de janeiro de 2015, 11h38

Isso vale para Marta, mas não só para ela…

O que Marta não diz é que ela é muito mais parte do problema do que da solução no que parece criticar

marta suplicyMarta Suplicy é uma pessoa controversa e difícil, mas não deveria ser politicamente julgada por isso. Sua entrevista de hoje é recheada de armadilhas e sinaliza para uma saída ruidosa do PT, mas o partido deveria tratá-la como uma oportunidade para algumas reflexões.

Marta não é diferente de boa parte dos políticos. Ela se move muito mais em função dos seus interesses pessoais do que do projeto coletivo.

Marta também é tão vaidosa quanto a maioria deles. É tão arrogante quanto a maioria deles. Sabe fazer intrigas quanto a maioria deles. Gosta tanto de poder como a maioria deles, até porque é ele que permite exercer um lado autoritário que alimenta a alma da maior parte deles.

Marta não é uma espécie rara na política. Ao contrário, é um pouco a essência da vida pública no país.

A diferença é que ao contrário da maioria dos seus pares, Marta é mais transparente. Fala em público aquilo que homens que se se julgam mais espertos preferem confidenciar a jornalistas em off no cafezinho do Congresso.

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O excesso de vaidade e de transparência foi o seu principal adversário na reeleição à prefeitura de São Paulo. Naquele pleito, Marta perdeu para ela mesma. Seu governo era muito bem avaliado e seu adversário só amargava derrotas antes de superá-la.

Na entrevista a Eliane Catanhede publicada no Estado de S. Paulo de hoje (a entrevistadora também diz muito sobre a entrevista) Marta vai pra cima do PT como poucos dirigentes importantes o fizeram na história do partido. E Marta tem razão quando diz que o partido está em risco. O PT pode de fato, senão morrer, torna-se um projeto bem menor do que é ou já foi.

Mas o que Marta não diz é que ela é muito mais parte do problema do que da solução no que parece criticar.

Marta foi prefeita da maior cidade do Brasil e quando teve a oportunidade de oxigenar o partido e criar uma nova referência de relação com ele a partir do governo, não fez diferente do que aqueles que hoje critica. Marta foi exageradamente pragmática, sufocou adversários internos, priorizou relacionamentos com setores da direita em algumas áreas e não apostou em novas lideranças. Marta usou a máquina da prefeitura como um trator do ponto de vista das disputas internas.

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Isso não significa que seu governo tenha sido um desastre. Muito pelo contrário, ela fez uma administração histórica em São Paulo e suas marcas (como os CEUs e os corredores) terão relevância por muitos e muitos anos.

A questão é que Marta hoje não tem poder e não pode exercê-lo do ponto de vista interno na mesma intensidade de quando era prefeita. Hoje são outros que movem o partido e suas estruturas a partir da força que detém em governos ou parlamentos.

O PT se tornou um partido muito sucetível à força dos seus prefeitos, governadores, ministros e parlamentares. E muito menos permeável às demandas dos movimentos sociais do que em outros momentos.

Essa é a crise do PT e que já foi identificada por Lula e outros dirigentes. É isso que pode senão matar o partido, diminui-lo e torná-lo insignificante.

Por isso a entrevista de Marta deveria ser tratada como um ponto de inflexão pela militância e dirigentes. Não é o momento para agir com o fígado e sair por aí xingando-a ou acusando-a disso ou daquilo. É hora de aproveitar para pensar o que leva personalidades políticas importantes a se acharem donos de um projeto e se comportarem como se não devessem nada a ninguém.

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Isso vale para Marta, mas não só para ela.

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