Blog do Rovai

16 de março de 2016, 12h28

1° ministro: Lula não aceitou ser ministro de Dilma, mas o chefe de governo

Lula está assumindo num momento de alto risco. Se a situação melhorar para um regular, já pode se aposentar tranquilo. Mas se for engolido pela tsunami...

 

Lula é o novo ministro da Casa Civil da presidenta Dilma.

Há pelo menos uma semana o ex-ministro Gilberto Carvalho ficou em reuniões no Palácio do Planalto tratando do assunto.

Na direção do PT havia muito gente contra. A volta de Lula ao governo estava longe de ser unanimidade entre os líderes da legenda.

Muito pelo contrário, havia uma boa parte que já entendia que o governo havia acabado e que Lula deveria se preservar para 2018.

Mas entre deputados e ministros quase todos faziam pressão para Lula ser ministro.

Entre os prefeitos e vereadores do partido idem.

Líderes da base aliada diziam que essa era a única chance de o governo Dilma tentar (vejam bem, tentar) ir até 2018.

Na militância do PT e nos movimento sociais Lula ainda é mito. E o entendimento é que na hora do aperto só ele salva. E a pressão foi imensa nas bases para que  aceitasse o desafio.

No intimo, quem conviveu com Lula e debateu o assunto, não via entusiasmo nele para aceitar o cargo.

Mas Lula não teve opção.

O governo esfarelou nos últimos meses e já não havia quem o defendesse se algo de muito radical não viesse a ser feito.

E Lula poderia perder todo o capital político que acumulou na sua trajetória se o país viesse a entrar em colapso.

Mais do que isso, ainda seria cobrado por não ter ajudado na hora em que o bicho pegou.

Foi isso que levou Lula a voltar ao Planalto na condição de ministro.

Para aceitar, porém, foram muitas as condições.

Lula não entra como ministro da Casa Civil, mas como primeiro ministro.

Ele não vai cuidar de defender Dilma do impeachment. Ele vai governar.

Nos próximos dias é que vai se saber como e com quem, mas já se pode afirmar que a Reforma da Previdência não será tema para agora. E que Lula vai priorizar a retomada do crescimento.

É quase certo que o presidente já condicionou sua volta a usar uma parte das reservar em dólar, algo próximo a 100 bilhões, para retomar obras paradas do PAC.

Prefeitos, principalmente, estão desesperados porque muita coisa necessária está juntando lixo e água empoçada nas cidades por falta de verbas.

Lula costuma dizer que o mais caro é obra parada. E que não há maior corrupção do que deixar um investimento pela metade.

Com essa injeção de recursos a construção civil poderia voltar a crescer e a expectativa é que isso gerará empregos. A aposta é que o Brasil sairá do atoleiro e dará uma navegada econômica ainda neste ano.

Lula também aposta em acordos de grandes investimentos com os chineses.

E por isso pretende trazer de volta o seu fiel escudeiro, Celso Amorim, para o ministério das Relações Exteriores. Ele quer um ministro que priorize as relações Sul-Sul. E que tenha voz firme e forte fora do Brasil.

A volta de Lula foi bastante discutida com o PMDB.

Renan Calheiros sinalizou que era o caminho para não haver impeachment.

Os russos, com quem o jogo não foi combinado, são os procuradores da Lava Jato e o juiz Sérgio Moro. E, claro, a Rede Globo.

As investigações não cessarão porque Lula chegou ao governo. E a divulgação de vazamentos também não.

A narrativa da Lava Jato, porém, pode perder fôlego. Porque muita coisa já foi revelada e muita coisa está espirrando em líderes da oposição e do PMDB.

Aécio, por exemplo, já está carimbado como o delatado-mor. Foi apontado como parte de esquemas por cinco pessoas diferentes. E agora reapareceu a denúncia da lista de Furnas e de uma conta de sua mãe em Liechtenstein.

E vez ou outra senadores do PMDB entram na roda.

Delcídio, por exemplo, falou de vários deles na delação divulgada ontem.

Se Lula conseguir fazer o governo chegar nas Olimpíadas um pouco melhor, o impeachment pode perder força.

Porque depois de agosto o Congresso praticamente ficará vazio com a entrada no calendário das eleições municipais.

Lula está assumindo num momento de alto risco.

Se a situação melhorar para um regular, já pode se aposentar tranquilo.

Mas se for engolido pela tsunami, ficará com um biografia menor.

E por isso só aceitou a tarefa por falta de opção.

A oposição vai dizer que Lula só tomou esse rumo para fugir de Moro. Mas isso não contou. Muito pelo contrário. Se fosse por isso, Lula ficaria em São Bernardo junto com Marisa e seus filhos.

O que mais lhe fez relutar na ida para o governo foi isso, o fato de parecer que estava fugindo do juiz paranaense.

Quem acompanha julgamentos no STF desde o mensalão sabe que eles costumam ser mais duros do que nas instâncias inferiores. Não foi por outro motivo que Eduardo Azeredo (PSDB-MG) renunciou ao seu mandato. Quis ser julgado lá na primeira instância.

Neste caso do julgamento, Lula não tem nada a ganhar.

Se é que tem algo a ganhar em qualquer outra coisa nesta sua ida para o ministério.

Mas na política o cálculo não pode ser o de só ir “na boa”. Só entrar para ganhar.

Em política, assumir riscos é que diferencia os agentes públicos.

Lula está arriscando quase tudo nessa sua nova missão.