Blog do Rovai

07 de julho de 2014, 21h39

A não punição esportiva a Zuñiga dá mais combustível ao discurso da violência

Os que justificam a agressão contra Neymar, acabam se associando, mesmo que sem a menor intenção, aos justiceiros de Facebook que atacam Zuñiga

Foto EBCO lamentável episódio que tirou Neymar dos últimos dois jogos do Brasil na Copa do Mundo ultrapassou as quatro linhas, como costumam dizer os cronistas esportivos. O debate ganhou as redes sociais e há gente aproveitando-o para todo tipo de abordagem. Há quem, buscando cinco minutos de fama, decidiu escrever texto dizendo que Neymar merece estar fora da Copa. Ou seja, louvando a agressão. Passando por outros que de maneira bizarra atacaram a Colômbia, a família de Zuñiga e sua negritude.

Mas há outra categoria de debatedores que não se dá conta de como suas posições podem alimentar outro tipo de violência. A negação da agressão ou a sua desqualificação também produzem efeitos.

O fato objetivo é que Zuñiga cometeu duas faltas duras em pouco menos de 10 minutos. Pisou no joelho de Hulk, o que poderia ter lhe causado uma fratura grave, e depois deu um joelhaço na espinha de Neymar. E tirou-o da Copa.

Fazer de conta que isso não aconteceu e dizer que tudo é exploração de Galvão, da Globo ou do Felipão não contribui para tirar a discussão do pântano em que alguns setores a colocaram.

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O caso Neymar e Zuñiga despertou muitas paixões na rede porque além de estar num contexto de paixões futebolísticas, também transforma a todos em juristas, juízes e até em justiceiros. É um daqueles momentos catárticos em que a sociedade se sente chamada a dar sua opinião. E o faz de forma dura e contudente.

Foi assim no caso da menina Isabela Nardoni e da Escola Base. De repente, todos tinham opiniões, podiam dar detalhes da história e sabiam de alguma coisa que ninguém sabia. Porque, claro, tinham ouvido de alguém que sabia mais do que qualquer um.

Neste caso esse roteiro se repete. Com um detalhe a mais. Brasileiro tem certeza que entende muito de futebol e sabe mais do que qualquer um. Por isso desfila números e estatísticas, relembra episódios do passado e ataca quem dele pensa diferente com a frase lapidar “você nunca deve er jogado futebol”. É o argumento auge. Empregado por qualquer sujeito que tenha sido o maior perna de pau do planeta.

Mas isso tudo não quer dizer nada neste caso. Cláudio Abramo, um dos maiores jornalistas da história da imprensa brasileira, assina um livro cujo título é A Regra do Jogo. Ele faz uma reflexão do exercício do jornalismo. E num dado momento diz que a ética do jornalista deveria ser igual a do marceneiro.

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“Sou jornalista, mas gosto mesmo é de marcenaria. Gosto de fazer móveis, cadeiras, e minha ética como marceneiro é igual à minha ética como jornalista – não tenho duas.”

Talvez valesse a pena pensar dessa forma para o ato de Zuñiga. Quem busca uma série de subterfúgios para minorá-lo, dizendo que isso faz parte do contexto do futebol ou do jogo, também contribui para que se perca completamente o sentido de um regramento mínimo que não nos deixe sempre à merce de justiceiros de ocasião.

Os justiceiros não querem punição e não querem saber de regras que estabeleçam uma convivência com contornos institucionais. Eles querem eliminação e sangue. Por isso os que fazem de tudo para não haver nenhum limite a certas ações acabam se associando, mesmo que sem a menor intenção, aos seus objetivos.

A não punição esportiva ao Zuñiga, tanto pelo árbrito quanto pela Fifa, dá mais combustível ao discurso da violência. E o justiceiros de Facebook agradecem.

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