Blog do Rovai

31 de julho de 2018, 12h33

No Roda Viva, Bolsonaro mostrou qual é a senha para derrotá-lo

O Roda Viva serviu para mostrar entre outras coisas que é mais fácil desmontar Bolsonaro com perguntas mais simples, do que buscando um embate sério sobre história do Brasil. Ou mesmo sobre economia.

Há certos momentos em que para se fazer análise política é preciso se despir dos parâmetros que usamos para compreender o mundo. Em que é preciso pensar com a cabeça do outro, do cidadão médio, do tão propalado senso comum.

Em 2014, num debate de segundo turno entre Dilma e Aécio realizado num dia à tarde pelo SBT/UOL o candidato tucano foi para cima da sua adversária. As pesquisas internas dos partidos o mostravam já à frente de Dilma. Ele poderia ter administrado o jogo, mas preferiu mostrar quem mandava naquela ‘bagaça’.

Quando Dilma, o provocou sobre ter sido flagrado dirigindo alcoolizado, ele teve um surto e a chamou de leviana.
Se tivesse soltado a palavra apenas uma vez, neste momento, talvez o impacto seria menor. Mas como a palavra ecoou fundo no estúdio, o mineirinho achou que estava arrasando. E resolveu repeti-la por inúmeras vezes no evento. Cada uma delas com a cara mais brava.

Nesta tarde eu assistia ao debate com várias pessoas mais próximas à candidatura de Dilma num espaço na rua Consolação em São Paulo. Ao final do encontro, muita gente achou que a presidenta havia ido mal e Aécio tinha ganhado a eleição ali.

O fato de Dilma não ter rebatido o leviana com a mesma força incomodara a militância petista, mas o dia seguinte mostrou que isso foi a sua força. Dilma havia lutado Aikido com Aécio.

A maior parte das pessoas que assistiam ao debate naquela tarde eram aposentados, gente simples, mulheres que trabalham em casa, etc. O clássico público das tardes do SBT. Ou então o grupo mais militante, que acompanhava pelo UOL. No segundo grupo, ficou tudo igual. No primeiro, o leviana bateu fundo.

As pesquisas de trackings do dia seguinte já apontavam diminuição de vantagem de Aécio para Dilma. E ele perdia votos exatamente entre as mulheres. João Santana percebeu isso e acelerou o discurso de que Aécio tratava de forma violenta as mulheres. Na rede, o caso de uma agressão à sua atual esposa denunciada por Juca Kfouri voltou à tona. E dali pra diante o tucano só despencou entre o eleitorado feminino.

Ao final, as denúncias da Lava Jato ainda o fizeram recuperar uma parte dos votos, mas nem isso foi suficiente. Aécio se torrou com uma palavra, leviana.

Bolsonaro falou uma enormidade de absurdos durante o Roda Viva desta segunda (30) sobre escravidão, cotas, tortura, ditadura etc. É muito provável que o seu eleitor médio tenha dado de ombros para isso tudo. Ele acha que o cabra é sincero e fala o que pensa. E que mesmo discordando dele aqui e ali gosta de sua honestidade.

Mas em dois momentos ele pode ter perdido a mão. O primeiro na história de como combater a mortalidade infantil. Ali ele mostrou que não tem a menor compreensão do que é defender a vida nem de um bebê. Disse sem expressão de carinho que o problema é cuidar dos prematuros e que as mães precisam tratar da saúde bucal e fazer exames de urina para melhorar a saúde das crianças. Isso é uma bomba se bem explorada. Toda mulher adulta sabe quais são os desafios da gestação, por mais simples que seja. E se ele já estava mal entre o eleitorado feminino isso tende a piorar a sua situação se bem explorado.

Também em relação ao cidadão do campo, quando defendeu que ele trabalhe mais do que o que vive na cidade. “Acho que no campo a CLT tinha que ser diferente. O homem do campo não pode parar no carnaval, sábado domingo e feriado. A planta vai estragar, ele tem que colher. E fica oneroso demais o homem do campo observar essas folgas nessas datas, como existe na área urbana.”

O PSDB deve começar a fazer isso o quanto antes, porque a estratégia tucana para este começo de campanha é a de demolir Bolsonaro.

Isso no mínimo vai segurar seu crescimento. Ele pode perder votos e ganhar ao mesmo tempo, o que deve lhe deixar no mesmo patamar. Porque, por incrível que pareça, na classe média alta e média muita gente vai concordar com ele. Hoje em algumas salas de executivos o papo deve ser de que pelo menos ele falou umas verdades, mandando que os negros comecem a estudar desde cedo ao invés de querer vaga de cotas depois na universidade. E algumas madames também devem estar dizendo que ele está certo. Que ela tinha uma empregada que não tinha um dente na boca e quando foi ter filho ele nasceu doente.

O Roda Viva serviu para mostrar entre outras coisas que é mais fácil desmontar Bolsonaro com perguntas mais simples, do que buscando um embate sério sobre história do Brasil. Ou mesmo sobre economia. Coisas simples, como qual a proposta dele para a jornada de trabalho, o trabalho infantil etc, podem complicá-lo mais. Quem é de São Paulo deve se recordar que Celso Russomanno perdeu a eleição de 2012 por conta de uma proposta estapafúrdia para cobrar preços diferentes de passagem para quem morasse mais longe. Sua base, morava mais longe e era mais pobre. E se revoltou com aquilo e o abandonou. Toda a campanha moralista anterior havia sido inócua. Esse ataque, no entanto, não, foi certeiro.

Por isso não é exagero falar que a bancada de jornalistas de ontem em geral ensinou como não se deve lidar com Bolsonaro, porque preferiu ficar nos pontos mais polêmicos de sua trajetória.

É até compreensível que tenha sido assim, mas isso não lhe tira votos. Ao contrário, reforça sua imagem de homem sincero e corajoso. Até porque se era para confrontá-lo em relação ao debate da ditadura, por exemplo, havia que se fazer isso com um pouco mais de energia. Tendo se preparado a partir de leituras de falas dele com dados para desmontá-lo. Coisa que não se viu. A não ser em raros momentos, como, por exemplo, o em que Bernardo Mello Franco deu uma aula sobre José Gregori para o candidato que o chamou de torturador.

Bolsonaro tortura a verdade, mas será derrotado por ela. Pelas verdades escondidas que irá revelar em novos encontros. E não pelas mentiras que profere e que são escrotas, mas que têm muitos seguidores.