Blog do Rovai

21 de outubro de 2016, 10h47

O exílio de Lula a ele pertence…

A Lava Jato é uma operação seletiva. Até o nevoeiro que interdita com frequência o aeroporto de Curitiba sabe disso. Mas para quem ainda tinha alguma dúvida, basta ver a foto da prisão de Cunha e as de Palocci, Zé Dirceu, Vaccari, João e Mônica Santana e outros mais. Exceção de Cunha, todos os outros foram presos de algemas, devem ter sido obrigados a ficar de cabeça baixa e, para não perder a piada, não tiveram a sorte de ser acompanhados pelo Bonitão da PF.

A verdade é que nem Cunha deveria ter sido preso. E que o tratamento a ele dado deveria ser estendido aos outros. E não ao contrário.

Mas não deixa de ser sintomático que o homem que liderou o impeachment de Dilma seja tratado de forma tão mais respeitosa. Sendo ele talvez o único contra o qual as provas de corrupção sejam de robustez inegável.

Cunha não foi preso por porque apareceram iniciais do tipo EC em algumas conversas de whatsapp. Ele foi preso porque bancos da Suíça entregaram extratos de movimentações milionárias em contas que mantinha naquele país e que foram usadas para desviar recursos públicos.

Mas o que Cunha tem a ver com Lula?

Absolutamente nada. Contra o ex-presidente da República não há nada provado. Como disseram os próprios Procuradores que o acusam, há apenas convicções.

Mas então por que Lula não deveria desconsiderar o exílio, como já defendeu este blogueiro em outro texto? Porque a Lava Jato não é uma operação judicial séria, como tem defendido este blogueiro desde o tempo que o José Eduardo Cardoso e a própria Dilma a consideravam algo republicano.

A Lava Jato prendeu o Cunha porque não tinha mais como fazer diferente. E não poderia ir pra cima de alguém como Lula, por exemplo, sob o qual não há um prova de crime sequer, sem antes levar o bandido mor da República em cana.

Mas e as delações contra Aécio? Cadê os vazamentos sobre o que se apurou delas, tão comuns quando envolvem petistas? E os 23 milhões do Serra? Quem é o careca? E o Santo? Até quando Marcelo Odebrechet vai ter de ficar negociando a sua delação? Até o momento em que aceitar livrar todos os tucanos e incriminar o Lula? A Odebrechet também vai ter de arrumar crimes para blogues? É isso mesmo, produção? Ou os passarinhos que gorjeiam por aqui são todos uns enganadores de blogueiros?

A república de Curitiba tem agido de maneira absurdamente seletiva e injusta. Mesmo advogados liberais e próximos ao PSDB se assustam com o que está acontecendo. Eles falam sem muita cerimônia que nos acordos de delação fica claro que só há um objetivo: Lula e o PT. E que a mera citação de outros personagens costuma atrapalhar os acordos.

Mas o que isso tem a ver com o fato de Lula passar a considerar o exílio?

Nada e tudo.

Alguns interlocutores próximos do ex-presidente me procuraram nos últimos dias para dizer em letras garrafais que não há a menor chance de ele se exilar. Usam, inclusive, o termo fugir do país. E se referiram ao meu texto defendendo essa possibilidade como algo que não contribui para que o ex-presidente seja tratado de forma correta e justa.

Não sou blogueiro para fazer média. E acho que apesar de Lula ter todo o direito de decidir sozinho sobre o seu destino isso não exclui o direito de se pensar diferente dele sobre os rumos a tomar.

Ele acha que não será preso porque contra ele não há prova alguma.

Concordo com a segunda parte, mas tenho dúvida em relação à primeira.

Não me parece que estejamos vivendo um momento tão republicano onde provas sejam tão necessárias assim.

E não me parece nada justo que Lula se submeta a humilhação de ser preso sem provas depois de ter feito o melhor governo da história do país, que não tem como ser comparado com qualquer outro pela imensa distância da transformação que foi realizada em apenas 8 anos.

E não me parece melhor um Lula preso de maneira absurda e ilegal a um Lula exilado e denunciando o arbítrio no país que levou a ser destaque internacional por conta, entre outras coisas, do maior programa de inclusão social do mundo nos últimos tempos.

Mas quem sou eu para decidir sobre a vida de Lula?

Pica de nicas.

E ele tem mandado avisar aos quatros cantos e em letras garrafais que não aceita sair daqui como bandido. É essa a interpretação dele dos fatos.

Que prefere ser preso injustamente do que deixar o país sem ser julgado.

E pelo pouco que conheço do ex-presidente, sei que é isso mesmo o que pensa.

Na verdade nunca tive dúvida de que essa seria sua decisão.

Lula tem um jeito de fazer política e de encarar a vida que passa por aspectos às vezes ignorado por quem não tem sua história pessoal.

Para Lula, o exílio é fugir.

Para Lula, calar-se é covardia.

Para Lula, a justiça tarda mais não falha.

Lula tem convicções, mas não tem provas, convenhamos, de que as coisas vão se assentar. E que o tsunami que fabricaram contra ele será contido pelo tempo, o senhor da razão.

As pesquisas de opinião para a presidência da República já começam a mostrar que Lula é muito maior do que os catadores de denúncias contra ele imaginavam.

O PT foi quase demolido nessas eleições. Mas Lula continua vivo. Bem vivo. E pode não só voltar a presidência em 2018, se vier a ser candidato, como pode reinventar o PT.

E é aí que o bicho pega. Eles deixaram isso acontecer? Com provas ou sem provas isso será permitido se as coisas não mudarem profundamente no país nos próximos meses?

De qualquer forma, fica o dito. A quem interessar possa, posso garantir que não há a menor possibilidade de Lula buscar asilo político em alguma embaixada. E que ele ficou puto com os textos, e talvez autores, que defenderam essa tese. Porque considera a hipótese inaceitável para a sua biografia.

É um jeito de ver o mundo.

É o jeito de Lula.