Blog do Rovai

04 de abril de 2018, 12h08

Uma junta militar-jurídico-parlamentar pode ser a próxima cartada do golpe

Lula seria preso, Temer derrubado e uma junta composta por Rodrigo Maia (Congresso), Carmem Lúcia (Judiciário) e um militar assumiriam o controle do país.

O tweet do comandante das Forças Armadas, o general Villas Boas, lido ao fim do Jornal Nacional, numa encenação pior do que em novela mexicana por parte do “ator” Willian Bonner, caiu como uma bomba e está levando a múltiplas interpretações. Este blogueiro vem dizendo há muito tempo que um golpe não é, um golpe vai sendo. E entende esta mensagem do general dentro deste contexto.

A prisão de Lula é necessária para que o golpe complete um dos seus ciclos fundamentais, a de iniciar o processo de caça às lideranças sociais, aos movimentos, aos intelectuais, aos operários, aos blogueiros e a todos que se insurgirem ou enfrentarem a “nova ordem” estabelecida.

Temer já se mostrou incompetente para ser o ator principal desta nova fase e a reação de Gilmar Mendes, que pretende livrar Lula impedindo-o de ser candidato a presidente, não satisfaz o novo campo político formado por amplos setores das Forças Armadas, do MP e do Judiciário e de um campo, que já foi maior mas ainda é representativo, da política.

Esses setores se preocupam com o óbvio. Mesmo fora da eleição, Lula livre significa permitir que boa parte do seu capital político possa ser transferido para um outro candidato, que iria para o segundo turno e, possivelmente, contra Bolsonaro.

Lula preso, mesmo que numa solitária, poderia também levar alguém para o segundo turno. E fazê-lo ganhar a eleição.

Ou seja, para essa gente a terceira fase do golpe precisa de um algo mais.

O cenário que vou desenhar aqui pode, evidentemente, não ser cumprido. Jogo é jogado e sempre há disputa. Tanto porque os setores populares estão em ação, mesmo que de forma mais tímida do que o desejável, como também porque Temer e outros atores políticos têm muita dúvida sobre o que pode vir a sair disso.

Mas o cenário que a Globo, principal arquiteta da operação, parece desejar é a de uma grave crise, que seria também resultado da prisão de Lula e que levaria algumas instituições a entrarem em ação para contê-la. E o tweet de Villas Boas parece indicar isso. Que as Forças Armadas aceitam a solução de garantir a prisão de Lula, mas não só. De derrubar Temer e fazer ascender uma junta (sempre uma junta) composta por Rodrigo Maia (Congresso), Carmem Lúcia (Judiciário) e alguém das Forças Armadas (aí é que o bicho pega, porque não necessariamente essa pessoa seria o Villas Boas).

Essa junta se colocaria como meta organizar o país para as eleições de outubro, mas o jogo recomeçaria. E as eleições de outubro poderiam ser canceladas para 2020 por falta de condições institucionais para tanto.

Para fora, o discurso seria de que é um junta civil, com a participação de um militar porque o momento exige uma certa imposição da ordem. A participação do Congresso e do judiciário, além da batucada a favor da Globo e da mídia, impediria o país de sofrer sanções internacionais.

É um cenário de alto risco e por isso ainda não se tornou consensual. Mas é o que sai dos rabiscos de uma série de ações semeadas aos poucos. E nelas incluo a intervenção militar no Rio de Janeiro e o assassinato de Marielle.

O descalabro e a falta de garantias básicas são fundamentais para que o pânico se instale e a sociedade civil, em especial a de classe média, aceite qualquer solução para poder dormir melhor. Em condições normais de temperatura e pressão, isso seria inaceitável. Mas não será na conversa que essa operação vai ser apresentada como saída. Será no “aço” e na “espada”. Se é que me entendem. Mas eu, sinceramente, espero duas coisas.

A primeira é a de estar errado em relação a possibilidade deste cenário. Este é o meu desejo maior. A de que a loucura do outro lado tenha limites.

Mas não podemos apenas desejar. É necessário antecipar os lances do lado de lá. Citando Sun Tzu: “Se você conhece o inimigo e conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas. Se você se conhece, mas não conhece o inimigo, para cada vitória ganha sofrerá também uma derrota. Se você não conhece nem o inimigo nem a si mesmo, perderá todas as batalhas.”

Não me parece que haja cenário descartável neste momento. E , sim, estamos disputando cem batalhas ao mesmo tempo.