Blog do Rovai

22 de fevereiro de 2011, 06h49

Vladimir Safatle e o lacerdismo cultural

Acordei em meio ao som das rezas difundidas em alto falante as 5h da manhã do Egito e não consegui mais dormir por conta do barulho das buzinas. Como já disse aos amigos, estou no Cairo. E no centro da cidade, perto da Praça Tarhir.

Aproveitei a internet razoável do hotel onde estou e cujo proprietário, um jovem de 24 anos, é um nerd internético que participou dos movimentos via facebook que derrubaram Mubarak, e fui ler jornais brasileiros.

Encontrei esse belo artigo do Vladimir Safatle que merece ser lido. É uma excelente reflexão sobre um certo comportamento midiático, mas também me fez pensar sobre a polêmica da propriedade intelectual e do Creative Commons, quando alguns assumiram posições absolutamente conservadoras em nome de uma visão “nacionalista” e de “esquerda” .

Segue o texto, publicado hoje na Folha. Ainda hoje volto com notícias do Egito e dos países árabes:

Carlos Lacerda entrou para a história do Brasil como aquele que procurou rebaixar o debate político nacional ao nível da rinha de galo. Sempre municiado de uma frase bombástica, de um complô iminente contra os valores da família brasileira perpetrado por esquerdistas com a faca nos dentes, Lacerda representava o pensamento conservador nacional em sua face mais paranoica.
Podemos dizer isso porque havia um pouco dos delírios paranoicos clássicos em seus discursos: perseguição de quem vê infiltração comunista por todos os poros, megalomania de quem acha que qualquer autocrítica é uma traição, pensamento binário de quem divide o mundo entre amigos e inimigos. Isso sem falar na redução caricata do pensamento crítico à denúncia, ao desmascaramento dos pretensos interesses de poder por trás dos discursos edificantes.
Bem, Lacerda morreu, mas seu espírito continua vivo em alguns setores da imprensa nacional. Tais setores desenvolveram uma variante que poderíamos chamar de “lacerdismo cultural”. Ela consiste em tentar conquistar os “corações e mentes” da opinião pública transplantando a lógica da estigmatização política para o campo das ideias e da cultura. Assim, os debates atingem seu nível mais raso.
Pois não se trata mais de debater, mas de esconjurar, de preferência utilizando termos que servem para expulsar o oponente do interior do universo do discurso, como “terrorista”, “inimigo dos valores ocidentais” e, o mais vazio de todos, “irracionalista”.
Para tanto, eles precisam dar a impressão de existir um grande complô que vai de Michel Foucault ao Hamas, passando pelo “politicamente correto”, pelo “relativismo pós-moderno” e pela consciência dos problemas da desigualdade de classe no Brasil.
Todos juntos para destruir os valores da liberdade individual e da democracia liberal.
Como boa parte desses arautos da razão e do pensamento vieram de uma juventude em grupos de extrema-esquerda, seu ressentimento dirige-se, na verdade, contra aquilo que eles foram no passado. No entanto eles apenas inverteram os sinais, usando o mesmo tipo de pensamento binário e totalizante, agora na luta contra os “vampiros da civilização ocidental”.
Não passa pela cabeça deles que suas crenças de juventude não eram esquerdistas, mas simplesmente autoritárias, fruto do desejo de uma explicação simplória e totalizante de mundo. Elas continuam assim. Que tais crenças encontrem guarida em certos grupos de extrema-esquerda, bem eis um problema que muitos denunciaram há mais de um século. Por fim, deve-se dizer que tal tendência não passará tão cedo. Pois ela repete uma guinada histérico-conservadora que parece assolar nosso mundo em crise.

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