25 de maio de 2011, 10h24

Biblioteca Latino-Americana — Ariel (1900), de José Enrique Rodó

José Enrique Rodó

Ariel, do uruguaio José Enrique Rodó, talvez seja o texto mais influente de toda a história do aparato educacional latino-americano. Na primeira metade do século XX, dificilmente se encontrará, na América Hispânica, prática pedagógica na área de ciências humanas intocada, de alguma forma, pelo breve opúsculo de Rodó. Dirigido à “juventude” da América, o título tem como mote A Tempestade, de Shakespeare. O escravo de Próspero, Calibán, seria o personagem preso aos interesses materiais, enquanto Ariel seria a figura espiritual, capaz de ir além dos interesses pragmáticos. A operação central do texto de Rodó é associar aquele ao materialismo anglo-saxão e este à vocação “cultural” da América Latina.

O conceito de cultura é chave em Ariel, e é compreendido de uma forma bem particular. Trata-se de uma concepção aristocrática de cultura como esfera do belo, da experiência estética e da atividade intelectual desinteressada. Para Rodó, os povos anglo-saxões teriam se enclausurado num materialismo estreito, num cálculo pragmático e instrumental. Os povos latino-americanos estariam em condições de contrapor a isso a herança genuína das civilizações clássicas. Rodó desenvolve um conceito aurático de cultura, ligado à “experiência verdadeira” da arte, por oposição à brutalidade massificada do cotidiano capitalista.

Há, portanto, uma crítica ao capitalismo em Rodó, mas ela é feita de um ponto de vista aristocratizante e culturalista. Rodó tem horror à “multidão” e à “vulgaridade”. Seu grande adversário é o utilitarismo, que ele via encarnado nos Estados Unidos. O texto é uma nítida reação à modernização, uma tentativa de determinar um novo espaço para o intelectual “desinteressado” e “estético”, em meio à massificação moderna. Daí os insistentes chamados de Rodó a uma existência total, na qual o indivíduo fosse um exemplar não mutilado da humanidade, em que nenhuma faculdade do espírito ficasse obliterada. Reitera-se, sistematicamente, a crítica conservadora à divisão do trabalho. Contra a “mísera sorte do operário”, Rodó evoca uma Grécia que “fundou sua concepção de vida no concerto de todas as faculdades humanas”.

Uma das máximas de Ariel–“quem distingue o feio do belo distingue o mal do bem”–denota uma clara escolha por Schiller, para quem a educação estética é um estímulo a todas as faculdades humanas, sobre Kant, que separava radicalmente a ética da estética, conferindo a esta uma autonomia absoluta. O que Rodó chama de “racional”, em Ariel, seria a possibilidade de recomposição dos trabalhos manual e intelectual, separados pela sobre-especialização moderna. Essa seria a verdadeira cultura, que permitiria ao indivíduo uma existência genuinamente “desinteressada”.

Como não poderia deixar de ser, Rodó mantém uma relação de profunda suspeita com a democracia. Ela reforçaria o “desconhecimento das desigualdades humanas” e a “substituição da fé no heroísmo” , em troca de uma “concepção mecânica de governo”. A crítica ao utilitarismo norte-americano passa também por aí: a “desorganização” e “caos” da democracia utilitarista nos levaria à “brutalidade abominável do número”. A importação dos padrões estadunidenses representaria, para Rodó, uma ameaça aos povos, à “originalidade insubstituível do seu espírito”.

Mesmo que claramente anti-democrático, Ariel também inspirou, durante décadas, uma linguagem anti-imperialista na América Latina. Ao contrário do que possa se pensar, a crítica ao imperialismo não passou sempre e necessariamente pelo vocabulário marxista. Publicado num momento em que os EUA acabavam de impor uma derrota militar à Espanha no Caribe e consolidavam uma política de invasões e interferências nos países latino-americanos, Ariel expressou, de forma meio tortuosa, uma resistência anti-imperial. O texto inspirou uma tendência poderosa no pensamento latino-americano, o arielismo, e constituiu a base de praticamente todas as Faculdades de Letras (e também de outras disciplinas) fundadas naquele momento na América Hispânica. Lido hoje, parece muito mais velho do que realmente é–os textos do cubano José Martí sobre “Nossa América”, por exemplo, anteriores a Ariel em uma ou duas décadas, nos parecem muito mais contemporâneos. Mas respingos de arielismo persistem em incontáveis comarcas do pensamento latino-americano e seus ecos se fazem ouvir em muitos usos atuais, por exemplo, do termo “cultura”. É um livro básico, inicial, para se entender a história da universidade latino-americana.

Para ler Ariel, de José Enrique Rodó, na íntegra, em edição da Biblioteca Ayacucho, clique aqui.

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A Biblioteca Latino-Americana da revista Fórum é uma coleção de introduções às principais obras do pensamento de nossos vizinhos, um acervo de referência sobre os grandes clássicos latino-americanos. A cargo de Idelber Avelar, a Biblioteca incluirá breves resenhas, compreensíveis para o leitor não-especializado, de textos clássicos de historiografia, teoria política, literatura e outras áreas. Quando possível, ofereceremos também o link à própria obra e a outros estudos disponíveis sobre ela.
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