A Revolução Russa brasileira é a maior do mundo

Formamos uma esquerda - com múltiplas nuances - nos últimos 40 anos acostumada a realizar atos de massa

Por Gilberto Maringoni

Atrasado, atrasado, quero aqui fazer uma constatação e duas homenagens.

A CONSTATAÇÃO
É bem possível que as comemorações dos cem anos da Revolução Russa no Brasil, no terreno da disputa e divulgação de ideias, não tenham paralelo em país algum. Nem na Rússia.

Formamos uma esquerda – com múltiplas nuances – nos últimos quarenta anos acostumada a realizar atos de massa. Talvez tenha a ver com as dimensões do país, apesar de todos os problemas enfrentados, de nossas insuficiências e ilusões. E de nossas derrotas.

Foi no Brasil que Noam Chomsky, o linguista norteamericano, se dirigiu à maior plateia de sua vida, no ginásio do Gigantinho, no Fórum Social Mundial de 2003, em Porto Alegre. Quando chegou para intervir, espantou-se com as 25 mil pessoas que o aguardavam: “Nos Estados Unidos quando falo para cem dou vivas para o sucesso”, exaltou para os organizadores.

Essa tradição de plateias abarrotadas marcaram palestras de intelectuais às vezes pouco palatáveis, como István Mészáros, José Saramago, Milton Santos, Eduardo Galeano e muitos outros.

Pois assim está se dando com a Revolução de Outubro. Há eventos para todos os públicos, em capitais e cidades do interior, em universidades e associações da periferia. Em conversa com alguns intelectuais e ativistas que vieram nas últimas semanas para comemorações em São Paulo, todos relatam que nada semelhante está sendo realizado em seus países. (E atenção: estamos em refluxo, amargando a tratorada de um golpe cruel).

DESTACO DOIS EVENTOS
São os seminários, realizados em São Paulo, dos quais tive a felicidade de participar. Em ambos, a presença de grandes especialistas brasileiros e internacionais e de um vasto leque de profissionais e ativistas.

O primeiro foi “1917: o ano que abalou o mundo”, promovido pela Boitempo Editorial e pelo SESC, com quatro dias de palestras, debates, minicurso e festival de cinema. Os mil lugares do Teatro Paulo Autran, no SESC Pinheiros, estiveram lotados todo o tempo e as exposições seguem com grande audiência no Youtube.

O segundo foi o seminário “Cem anos que abalaram o mundo”, realizado na FFLCH-USP, que se estendeu por cinco dias e exatas cem mesas de debates. Praticamente todos os grandes temas referentes à Revolução foram tocados, com auditórios lotados de participantes. A organização foi quase autogestionária. Quem chegasse com uma boa ideia tinha sua sugestão logo acatada.

FAÇO DUAS HOMENAGENS
Dezenas e dezenas de pessoas se esfalfaram meses a fio para que os tonitroantes acontecimentos acontecessem (!). Mas quero – entre tantos e tantas – destacar duas personalidades que comandaram esses feitos.

A PRIMEIRA É Ivana Jinkings, diretora da Boitempo. A editora, no ar há vinte anos – a duríssimas penas -, se esmera em um diferencial: publicar obras essenciais do pensamento crítico e da esquerda em edições lindas e caprichadas. Não é por remar contra a corrente que a esquerda tem de apresentar produtos feios ou mal ajambrados. É necessário refinamento, apuro estético, traduções nos trinques, capas e projetos gráficos de arrepiar, além da escolha de títulos imprescindíveis.

Ivana – filha de livreiro comunista paraense – faz seguidos gols nessa peleja. E promove eventos, cursos, atrações, debates, um blog com o que há de melhor entre a canhota nativa e segue adiante. Baixou dois dias no hospital antes do evento. É uma legítima sucessora do valente Enio Silveira (1925-96), o histórico editor – também comuna – da Civilização Brasileira, entre os anos 1950-90.

A SEGUNDA É Osvaldo Coggiola, argentino de Córdoba, professor titular de História Contemporânea na FFLCH-USP, ativo militante e formador de gerações de historiadores.

Por sua inquietude e rebeldia, Cogiolla foi expulso da Universidade em 1976, no auge da ditadura argentina, e exilou-se na França, onde concluiu sua formação. Dono de uma impressionante capacidade de trabalho, é autor de quase duas dezenas de livros e inúmeros artigos.

O que mais caracteriza esse argentino turrão e – falsamente – mal humorado é seu intenso ativismo e capacidade de realizar coisas práticas. Há quase dez anos, no mês de outubro, promove e organiza seminários sobre temas variados da cena contemporânea. Chama a todos, quem concorda e quem discorda dele, num raro exemplo de generosidade intelectual

A ambos – Ivana e Cogiolla – minha admiração. A esquerda brasileira é imensamente devedora da atividade incansável desses dois!

De minha parte, serei eternamente grato.