Tem sentido ter saudade de outros tempos?

Havia um prazer que os jovens de hoje podem achar bobo e inacreditável ao receber uma carta, e também ao ver as fotos que a gente tirou e não sabia como tinham ficado.

Havia um prazer que os jovens de hoje podem achar bobo e inacreditável ao receber uma carta, e também ao ver as fotos que a gente tirou e não sabia como tinham ficado.

Por Mouzar Benedito*

Quando era estudante, eu via velhos saudosistas, falando dos “bons tempos”, e pensava: nunca vou ser assim. Se chegar a ficar velho, vou acompanhar o tempo, me atualizar permanentemente…

Bom… Motivos para ter saudade do passado não são muitos. Nos que seriam meus “bons tempos”, não se podia, por exemplo, levar namorada (ou namorado) para dormir em casa, com a gente, na mesma cama… Pouca gente tinha televisão. Poucos tinham acesso a telefone e, conforme o lugar onde moravam, a geladeira, fogão a gás e outras trivialidades de hoje em dia. Automóvel era para pouquíssimos. Sem contar que não havia internet. E a partir de 1964 teve a ditadura para complicar mais.

Mas algumas coisas ultrapassadas, até “atrasadas”, viraram boas lembranças. Exemplos? O litoral norte paulista não tinha estradas e o acesso a suas praias era difícil, mas chegando lá era uma maravilha: pouquíssima gente, água limpíssima, nenhuma preocupação com segurança. Acampava-se em qualquer lugar sem grandes preocupações. Quando conheci certos lugares, como Canoa Quebrada, o encanto era total, não tinha nada a ver com o que são hoje em dia.

Falando em despreocupação com a segurança, até o início dos anos 1970 eu tinha insônia e adquiri um hábito que gostava muito: caminhar pelas ruas vazias do centro de São Paulo, durante a madrugada. Quando via alguém vindo em sentido contrário, pensava: “Que bom, alguém pra conversar”.

E o prazer de receber cartas e cartões postais? Certo: hoje alguém que está do outro lado do mundo se comunica em segundos com você, mandando textos e fotos. Falando em fotos, os telefones celulares substituíram as velhas máquinas com muitas “vantagens”: tendo o aparelho, fotografa-se aos montes, as fotos não custam nada, e você vê o resultado imediatamente. Mas acreditem: havia um prazer que os jovens de hoje podem achar bobo e inacreditável ao receber uma carta, e também ao ver as fotos que a gente tirou e não sabia como tinham ficado. E não eram tantas, porque custava um pouco. Entregava-se os rolos de filmes a uma casa especializada e ia-se buscar dias depois.

Então temos agora a rapidez das comunicações, o acesso a quase tudo, a liberdade sexual, a facilidade para viajar a quase toda parte do mundo, os telefones celulares que quase todas as pessoas têm, os computadores, a internet, o Google… Muitas coisas eram impensáveis para adolescentes da minha geração. Então, motivos para saudosismo, se existem, são poucos.

Porém, como diz um velho ditado, quem procura acha. E procurei, lembrando de umas coisas dos meus tempos de adolescente e pouco mais.

Meu primeiro livro, “Santa Rita Velha safada”, de causos, escrito em 1982 (eu já não era criança: tinha 35 anos de idade) e publicado em 1987, teve a tiragem de 3 mil exemplares numa época em que o Brasil tinha uns 140 milhões de habitantes. Havia muitos anos, desde quando o Brasil tinha bem menos de 100 milhões de habitantes, que as tiragens de livros de autores comuns eram de 3 mil exemplares. Em 1992, o Brasil tinha 154,1 milhões de habitantes, e foi naquele ano que publiquei o meu segundo livro, romance chamado “Pobres, porém perversos”. A tiragem aumentou? Não! Diminuiu. Foi de 2 mil exemplares. Meu terceiro livro, de causos e frases, chamado “Memória Vagabunda”, foi publicado em 1998. A população brasileira já era de quase 170 milhões. E a tiragem baixou mais ainda; foi de 1,5 mil exemplares. E assim foi indo, não só comigo: enquanto a população aumenta, diminui a tiragem dos livros.

Meus livros continuaram tendo 1.500 exemplares, mas as tiragens “normais” de livros de autores não famosos passaram a ser de mil exemplares, depois 500 exemplares, e agora, com 210 milhões de habitantes, o Brasil não tem mais nem tiragem de livros de autores “comuns”… Publica-se “sob demanda”. Conforme o caso, 200 exemplares, ou 100 ou 50 ou 2. Eu mesmo publiquei livros virtuais. Não teve jeito de evitar. Basta dar uma olhada no catálogo da Amazon (Kindle). Está lá meu romance “Chegou a tua vez, moleque!”, só tem publicação virtual, o e-book. Outros dois, o romance “Alzheimer, impeachment” e a reedição do “Santa Rita Velha safada”, têm em e-book ou impressão sob demanda. Tomara que pelo menos um pouco de gente se interesse por eles.

Agora lembro a profissão de jornalista: todo jornal tinha um boteco ao lado, que funcionava a noite toda. Fechava-se o jornal lá pelas duas da madrugada e todo mundo (ou quase) ia pro boteco beber e conversar. Velhos e novos jornalistas trocavam conhecimentos e opiniões, regando a conversa com cerveja ou outras bebidas. E dessas conversas surgiam ótimas pautas que resultavam em boas matérias. No caso da imprensa alternativa, na década de 1970, era melhor ainda: éramos apaixonados pelos jornais que fazíamos.

Lembro-me do “Versus”. Numa época, a gráfica mais acessível para nós, em termos de preços, era a do jornal São Paulo Shimbum, na Baixada do Glicério. E para ficar mais barato ainda, era impresso de madrugada, quando a gráfica ficava ociosa. Avisavam para nós, por exemplo, que a partir das 3h da manhã, começariam a aparecer “na esteira” os primeiros jornais impressos. Meia hora antes, quase todos jornalistas do “Versus” estávamos na gráfica, esperando ansiosamente para ver o jornal impresso. E quando aparecia o jornal chegando na tal esteira que vinha do maquinário de impressão, todos queríamos ser o primeiro a pegar um exemplar, ver, admirar, cheirar… Tudo com uma baita alegria.

Eis aí alguns saudosismos meus. E lembrei-me de outras coisas que para as novas gerações podem parecer bestas. Listo a seguir.

  1. Cachaça era bebida de pobre, inclusive em São Paulo e no Rio.
  2. Tinha cinema em quase tudo quanto era lugar. Quando eu era moleque, Nova Resende (MG), minha terra, com 2 mil habitantes na área urbana, tinha um cinema em que passava filmes todos os dias, com direito a seriado na quinta-feira e “matinê” nas tardes de domingo.
  3. O Rio de Janeiro era conhecido como “Cidade Maravilhosa”.
  4. Em São Paulo, o jornal “O Estado de S. Paulo” tinha um caderno volumoso de oferta de empregos. Aos domingos, eram uns três ou quatro cadernos com dezenas e dezenas de páginas oferecendo milhares de empregos, e os empregadores precisando oferecer atrativos para que trabalhadores optassem por eles, anunciavam aos candidatos a emprego que davam alguns aumentos anuais de salário, além dos relativos às negociações com os sindicatos.
  5. As notícias policiais nos jornais estavam só nas páginas da editoria de polícia. Agora, parece que não precisa mais de editoria de política, internacional, de esportes de cultura… Cabe tudo numa editoria de polícia.
  6. Os melhores jogadores de futebol do Brasil jogavam em times brasileiros. A gente via os grandes craques jogando aqui, não pela televisão.
  7. Jogador de futebol era Pelé, Garrincha, Didi, Vavá, Pepe, Zizinho… E não Renato Augusto, Phillipe Coutinho, Rodrigo Caio, Bruno Henrique, Kleber Não Sei Quê… Nada contra esses nomes (ainda mais para quem se chama Mouzar Benedito), mas acho que apelidos simples ficam mais interessantes nas escalações de times de futebol. Problema meu, né?
  8. Gilmar, ah, Gilmar! Este era um nome que a gente admirava: goleiro bicampeão do mundo, pela seleção brasileira, e também bicampeão de times pelo Santos
  9. E mais: não tinha torcidas organizadas. Os torcedores de times adversários ficavam misturados, e em vez de brigas e mortes, o que havia eram gozações, brincadeiras.
  10. A música era agradável aos ouvidos.
  11. Pagode era baile de roça, música caipira era caipira mesmo (sertanejo universitário? Arghh!), samba era samba mesmo, axé era uma saudação entre pessoas de religiões de origem africana…
  12. A cada ano uma nova marchinha de carnaval (ou samba) fazia grande sucesso.
  13. Nos bailes, dançava-se de rosto colado.
  14. Bicicleta era bicicleta, e não bike.
  15. Não havia skatistas fazendo barulho nas praças e expulsando os outros frequentadores.
  16. Favela era morada de pobre, mas com um certo romantismo… Tinham até músicas louvando as favelas. E havia muito menos favelas, e em poucas cidades. Que eu me lembre, quase não havia favelas em cidades do interior. Quando mudei para São Paulo (1963), tinha só umas três ou quatro aqui (havia cortiços, sim, um problema também). O Rio de Janeiro tinha muitas, Recife tinha seus mocambos (favelas à beira de mangues, principalmente) e Santos tinha algumas.
  17. As emissoras de rádio transmitiam músicas, programas humorísticos e notícias, não tinham pastores gritando e pedindo dinheiro.
  18. Viajava-se de trem… Em alguns lugares, de barco (no litoral havia navegação de cabotagem, levando passageiros em linhas regulares). Morram de inveja, jovens: as viagens que eu fiz pelo rio São Francisco e em trens lerdos, vagarosos, Brasil adentro, vocês nunca farão.
  19. Viajei muito de carona também, em caminhões, principalmente para o Nordeste (inclusive no Sertão). Os caminhoneiros não tinham medo de dar carona, e os caroneiros não tinham medo deles também.
  20. As pessoas conversavam cara a cara, não via aplicativos de celulares.
  21. Tucano era só uma ave…
  22. Temer era só um verbo.
  23. Não existia lava-jato (para lavar carros rapidamente nem para nada).
  24. Eu nem sabia que alguém poderia se chamar Geddel.
  25. Curitiba era conhecida só como capital do Paraná.
  26. Brasília era a “capital da esperança”.

 *Mouzar Benedito, mineiro de Nova Resende, é geógrafo, jornalista e também sócio fundador da Sociedade dos Observadores de Saci (Sosaci)

 Foto: Commons