O áudio do diretor da Globo e o esquema Doria de campanha

Doria organizou um grupo de empresários que bancam desde jatinhos até movimentos que agem no submundo das redes digitais para fabricar notícias falsas Doria estudou a campa

O prefeito de São Paulo João Doria está em plena campanha para a presidência da República. Nenhuma novidade. Afinal desde que ganhou a eleição em São Paulo ele só trabalha mirando o Palácio do Planalto. Até porque Doria sabe que sua gestão a frente da prefeitura de São Paulo tem prazo de validade. Se ele ficar os quatro anos, o resultado será tão pífio que não conseguirá se eleger a mais nada.

Mas a campanha de Doria rumo ao Planalto não é tão visível quanto parece. Ela é um iceberg. Só uma pequena ponta é visível para o analista comum. Há um mundo de ações subterrâneas que visam tanto desgastar adversários quanto promover o prefeito e que não parecem ter ligação direta com ele. Mas que são parte da operação de guerra de sua candidatura.

Nesta semana, por exemplo, circulou um áudio atribuído a um diretor do Fantástico, Luis Nascimento, que teria pedido demissão da Globo porque a direção “teria orientado os seus programas jornalísticos a tratarem de forma caluniosa o presidente Michel Temer, o prefeito de São Paulo, João Doria, e os integrantes da força-tarefa da Operação Lava Jato.”

A voz, que, evidentemente não é de Luis Nascimento, ainda diz que o logo da Globo ganharia novos tons de vermelho, numa demonstração do seu alinhamento com a esquerda.

O áudio foi espalhado de maneira profissional por perfis fakes e pessoas ligadas a movimentos como o MBL, que está fechado com Doria na luta interna que ele realiza hoje no PSDB contra Alckmin.

Só há um beneficiado com o áudio, Doria. Temer é carta fora do baralho. E a Lava Jato não está procurando querela com a Globo.

O prefeito teria ficado incomodado com a forma como a Radio CBN tem tratado algumas questões municipais, como a questão dos buracos de rua e quebra de semáforos. E também teria anotado a placa de Alckmin numa reportagem da Folha com criticas severas à sua gestão.

Por isso teria acionado a fórmula Trump de combate com o boato de que a imprensa estaria se reaproximando de Lula e da esquerda.

Ao mesmo tempo que este boato que lhe vitimizava e lhe favorecia era espalhado, Doria fazia estripulias com empresários no Nordeste onde aparece xingando Lula de canalha, mentiroso, cara de pau, safado e outros adjetivos nada nobres. Essas palestras são organizadas pelo Lide, sua empresa. E os convidados são espalhados em mesas repletas de salamaleques. Com uma produtora de vídeo profissional trabalhando 24 horas por dia com ele, ele vai fabricando vídeos memes de todos os lugares do mundo que viaja e vai espalhando nas redes. Neste vídeo de Fortaleza é possível ver como funciona o esquema Doria.

No esquema Doria, estão alguns sites como O Antagonista, que hoje, por exemplo, divulgou uma pesquisa do Instituto Paraná onde o prefeito é considerado como melhor candidato para enfrentar Lula do que Alckmin. Aliás, Instituto Paraná, que durante a disputa de 2014 fez várias pesquisas apontando a vitória de Aécio contra Dilma. E que agora estranhamente e há muito tempo mostra sempre Doria muito à frente de Alckmin.

 

Doria ainda conta com a sempre tão jornalística Isto É, que deu uma capa ao prefeito e uma longa matéria de mais de uma dezena de páginas para dizer que ele dorme quatro horas por noite e que escova os dentes no lavabo para não perder tempo. A capa da Isto é, como esta Fórum mostrou, era copia de uma Esquire com Bill Clinton.

Em algumas rádios, o esquema Doria também está funcionando a todo o vapor. Comentaristas babam elogios a ele, críticas contundentes a Lula e o PT e tratam Alckmin como um político de bom coração, mas que não é o melhor nome para o momento.

Mas como Doria consegue operar uma campanha assim com tantos tentáculos? Gente bem informada garante que ele organizou um grupo de empresários que bancam todas essas ações de variadas formas. Desde aqueles que emprestam jatinhos, como apurou o Joaquim Carvalho, do DCM, como outros que têm bancado movimentos que agem no submundo das redes digitais para fabricar notícias falsas.

Doria estudou a campanha de Trump e hoje tem um artilharia de boatos e ataques baixos que não pode ser atribuída a ele de forma direta, mas que faz o jogo que lhe interessa. Ele não tem mais como não ser candidato. Essa máquina não foi montada para disputar uma prévia. Se Doria não conseguir se viabilizar no PSDB, ele sai do partido e se lança pelo Novo ou até pelo PMDB ou DEM. Sua campanha é hoje a mais articulada de todas.

E o áudio do suposto diretor do Fantástico não é apenas um detalhe.

Foto: LEON RODRIGUES/SECOM

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