Lula exclusivo para a Fórum: Esses setores elitistas deveriam pedir a Deus pra eu voltar

Lula: "Tem uma coisa que eu respeito: o voto popular. Quem tiver interesse, quem tiver proposta, vamos pra rua. Quem o povo votar a gente respeita."

Depois de 20 dias numa caravana pelo Nordeste que mexeu com os brios da militância petista e mostrou o quanto o partido mantém boa parte da sua força, mas que também revelou o quanto Lula ainda tem como conquistar aliados se for candidato a presidente, afinal oito dos nove governadores da região o trataram com toda a deferência de um grande líder, Lula concedeu essa entrevista à Fórum.
Foi um papo rápido, afinal realizado num quarto de hotel pouco antes do seu último ato em São Luis e depois de milhares de selfies e abraços, mas que mostra o líder das pesquisas para 2018 dando algumas senhas de como está calibrando seu discurso para primeiro garantir primeiro o seu direito à disputa e depois a vitória nas eleições. É o Lula da esperança que começa a ser construído. O Lula que já fez, que tem a receita para recolocar o país nos trilhos e que tem compromisso com o povo. Você tanto pode assistir ao vídeo como ler a transcrição abaixo.

Fórum – Eu estou aqui com o ex-presidente Lula, no último dia de caravana, realizada durante 20 dias, desde Salvador até São Luiz. Daqui, o Lula vai para o último ato deste evento, junto com o governador Flávio Dino.
Pra começar esta conversa, queria perguntar o seguinte: essa caravana mudou sua perspectiva política. Eu sei que você sempre tem um comportamento otimista em relação às lutas que participa, mas ela me parece que teve um efeito especial. Pelo menos, com todas aquelas pessoas que te acompanharam dizem isso. Eu queria saber de você…

Lula – Olha, a caravana confirmou um pouco aquilo que eu esperava e um pouco o que eu tinha quase que certeza, mas tinha que testar. Ou seja, que é a afinidade do povo brasileiro com as conquistas que obteve no tempo que nós governamos o país. Ou seja, há algumas verdades que, por mais que os meios de comunicação tradicionais queiram mentir, queiram esconder, está enraizado na cabeça do povo brasileiro, que foram as políticas de inclusão social que eles conquistaram. Ou seja, obviamente que para um cara que mora na Avenida Copacabana, na Avenida Atlântica ou na Avenida Boa Viagem, na melhor avenida de Salvador, ou de São Paulo, essas pessoas não tem noção do que foi um programa PA, um programa de compra de alimentos, o pessoal não tem noção do que foi o programa Luz para Todos, porque nunca tiveram problemas nesse sentido. Não sabem o que é um candieiro, não sabem o que é o Bolsa Família para pessoa pobre. Essas pessoas não sabem o valor do Minha Casa Minha Vida. Então, isso foi uma coisa prazerosa, porque isso está incutido na cabeça das pessoas, as pessoas sabem e são agradecidas por isso. Agora, a coisa mais fantástica é a questão da educação, a questão dos investimentos nas escolas técnicas, na melhoria do ensino fundamental, o Prouni, o Fies, o Reuni. Ou seja, é uma coisa que marcou profundamente a vida da juventude e isso me deixa muito feliz.

Fórum – Você encontrou muitas pessoas que viraram doutoras? Eu vi muitas faixas “Virei doutor com o Fies”.
Lula – Encontrei muitas pessoas. As coias que as pessoas mais agradecem foi a oportunidade de virarem doutores nesse país. Essa é uma coisa que me cala profundamente.

Fórum – Falando em doutores, nos últimos tempos, eu li muitos artigos de alguns intelectuais, discutindo o pós-Lula. Como será o pós-Lula? O que a esquerda vai fazer? Como isso bate pra você? Você conversa sobre isso com seus companheiros?
Lula – Deixa eu te dizer uma coisa: eu sou o resultado do crescimento da consciência política da sociedade brasileira. Na medida em que a sociedade foi avançando, desde 1982, quando nós fundamos o PT, desde que eu fui candidato pela primeira vez, a sociedade foi evoluindo, evoluindo, evoluindo, mas só veio aflorar mesmo em 2002, quando ela tomou coragem e me elegeu presidente da República. Eu tenho um profundo respeito, como é que alguém sai de casa para votar e vota num cara como eu, que não tem diploma universitário, que teoricamente não tem experiência para governar o país. Então, quando o povo toma essa atitude, ele meu deu um voto de confiança. Agora, eu tenho de retribuir, fazendo as coisas que ele quer que sejam feitas. E eu fiz, aquilo que eu achava que o povo queria que fosse feito. Graças a Deus, o povo subiu um degrauzinho na escada da ascensão social. Eles agora estão caindo, porque a política do atual governo golpista é pra tirar as conquistas do povo brasileiro. E eu tenho que fomentar a esperança de que a gente pode voltar a subir o degrau que eles estão perdendo e subir mais um até. É possível. Aliás, vou te dizer uma coisa: a economia brasileira só vai voltar a crescer quando esse povo ascender socialmente outra vez.

Fórum – Presidente, do ponto de vista das articulações para lhe tirar da vida pública, o senhor disse uma frase, e a presidente Dilma também tem dito, o golpe não se completa se eles não tentarem de todo jeito lhe tirar da vida política. O senhor está fazendo um embate público com isso, do ponto de vista desta caravana. Ela é claramente um recado: olha eu estou indo para o povo, estou dialogando e estou querendo mostrar um Brasil que não concorda com isso.
Lula – Uma coisa pra ficar claro para a sociedade brasileira. Eu já ouvi alguém dizer que o Lula está fazendo campanha com a caravana. A pergunta que eu faço é a seguinte: quando a Rede Globo de Televisão faz 20 horas de Jornal Nacional contra mim, ela não está fazendo política contra mim? Não está fazendo campanha contra mim? Quando as revistas publicam, todas juntas, 63 capas de revistas contra mim, elas não estão fazendo campanha contra mim, tentando desmontar minha imagem perante a sociedade? Quando milhares de radialistas ou milhares de outros caras de televisão ou matérias de jornais, me destratam, me ofendem pessoalmente, tentam criar uma imagem negativa, eles estão fazendo campanha de destruição contra mim. Agora, quando eu saio pra rua pra falar bem do que nós fizemos é campanha? Não! Acho engraçado quando um canal de televisão te ofende, fala mal, ele não pediu o direito a um juiz para fazer aquilo. Quando você é ofendido tem que entrar com um pedido de direito de resposta. Se a imprensa não der de livre e espontânea vontade, você entra na Justiça e, na maioria das vezes, você não ganha. Ou seja, pra falar mal, não precisa pedir em juízo, mas pra se defender precisa. Então, essa política de dois pesos e duas medidas, no fundo, no fundo está equivocada e é contra ela que eu me insurjo. Eu vou pra rua conversar com meu povo, porque eu tenho que conversar com esse povo.

Fórum – Você acha, presidente Lula, que podem tentar uma última cartada, com um presidencialismo-parlamentarista ou com o parlamentarismo puro, já que as últimas notícias e a confusão do Janot com ministros do Supremo deixaram a conjuntura ainda pior.
Lula – Eu fico preocupado porque eu acho que eles estão numa enrascada, porque quando você conta uma mentira, e essa é a desgraça da primeira mentira, passa a vida inteira justificando ela, mentindo outras vezes. O que está acontecendo, a discórdia no meio do Ministério Público, a discórdia na Operação Lava Jato, as contradições que acontecem todo o dia, é excesso de abuso e de desrespeito ao direito individual de defesa. Ou seja, todo o ser humano é inocente até provem o contrário. Você colocar alguém em prisão perpétua para exigir de alguém uma culpabilidade, não faz parte do direito de defesa que nós deveríamos ter no Brasil. Eu estou convencido que o melhor meio que eles teriam para tentar acabar comigo, para tentar evitar que eu voltasse a ser presidente seria disputar a eleição democraticamente comigo. Aliás, acho que esses setores elitistas, que se opõem a mim, todos deveriam estar pedindo a Deus para que eu voltasse a ser presidente, porque eles viveram o melhor momento econômico no Brasil quando eu fui presidente. Eu duvido que tenha um empresário, eu duvido que tenha um banqueiro, eu duvido que tenha um empresário da construção civil que não tenha ganhado dinheiro no meu governo. Eu dizia: sou o presidente de todos, agora, é importante saber que eu tenho que olhar para os mais pobres. Eu vou governar como coração de mãe: aqueles que mais necessitam serão aqueles que serão privilegiados no meu governo. Isso aconteceu e eles sabem que se eu voltar vou fazer isso outra vez. Eles sabem que o Brasil vai ser respeitado no mundo outra vez. Eles sabem que o Brasil vai ser protagonista. Eles sabem que o pobre vai participar do orçamento outra vez. Eles sabem que vai ter financiamento. Eles sabem que o banco público vai voltar a cumprir com sua função social. Eles sabem que o BNDES vai voltar a financiar desenvolvimento neste país. E eles sabem que o Estado não será o Estado empresário, mas será o Estado indutor no desenvolvimento econômico.

Fórum – Agora, se eles tentarem esse golpe, o senhor disputaria a eleição mesmo assim com o golpe do parlamentarismo?
Lula – É muito difícil imaginar no parlamentarismo com esse Congresso. É muita ilusão imaginar que aquele bando de raposa que está lá ia aceitar que uma galinhazinha entrasse sem ser comida. Eu não acredito nisso. Eu acredito que o Brasil já negou duas vezes o parlamentarismo. O Brasil negou com João Goulart, quando obrigaram ele a aceitar o parlamentarismo e depois ele fez o plebiscito e o povo foi presidencialista, e na Constituinte, nós fizemos o parlamentarismo. Fizemos o plebiscito e povo outra vez foi contra o parlamentarismo. O povo brasileiro quer o presidencialismo. Esse negócio de ficar dizendo que quer parlamentarismo, é quem tem medo de voto, quem sabe que não será eleito nunca por via do voto. Então, quer encontra um jeito mais curto da política do “é dando que se recebe” pra virar primeiro-ministro. Tem uma coisa que eu respeito: o voto popular. Quem tiver interesse, quem tiver proposta, vamos pra rua. Quem o povo votar a gente respeita. Eu perdi três eleições e eu respeitei o resultado. Então, eu acho que é muita conversa fiada essa reforma política que eles querem fazer, que não é reforma coisa nenhuma. Na verdade, se você quer saber o que eu penso, a gente deveria ter uma Constituinte exclusiva pra fazer reforma política nesse país.

Fórum – Presidente, o senhor deve ter visto as caixas de dinheiro do Geddel (Vieira Lima). Deve ter visto ou alguém lhe disse do Aécio sendo chamado de “o grande bandidão” pelo Joesley. Então, como o senhor vê pessoas que o acusaram tanto de ser corrupto, lhe destrataram tanto na imprensa, sendo pegos nesse tipo de coisa?

Lula – Olha, Deus escreve certo por linhas tortas. Sabe, eu fico muito tranquilo porque eu tenho dito publicamente que eu duvido que tenha um empresário brasileiro, do pequeno, médio e grande, que o diga o seguinte: “Um dia o Lula conversou comigo e me pediu cinco reais, dez reais ou vinte reais”. Eu duvido. E sabe por que eu não faço? Eu não faço porque não quero perder o respeito diante do empresário e não quero que ele perca o respeito diante de mim. É por isso que todas as conversas que tive com empresários, a gente discutiu o Brasil, a gente discutiu investimento no Brasil. Eu nunca conversei com um empresário, mais amigo ou menos amigo, sobre dinheiro. Por exemplo, eu estou muito tranquilo, sabe, com as delações e podem fazer delação toda hora todo dia, que eu desafio alguém a dizer que algum dia me deu cinco reais.

Fórum – Presidente, uma última pergunta. Eu sei que a Dona Marisa tinha uma grande importância na sua vida. E que no dia a dia da política o senhor ouvia muito ela. Mudou muito pro senhor fazer política hoje sem a grande companheira?

Lula – Mudou muito. Tem um branco na minha vida, tem um branco quando eu chego em casa, tem um branco quando eu saio de casa. Não é fácil porque eu pensei que eu já tinha experiência porque eu era viúvo, eu já fui viúvo uma vez. Mas quarenta e três anos de casado faz a diferença. Ou seja, não é brincadeira você conviver quarenta e três anos com uma pessoa. A Marisa fez as caravanas de 92 e de 93 inteirinhas comigo, com as crianças. Então, ela ficava me puxando, não faz isso, não faz aquilo. Ela se tivesse comigo não tinha essa muvuca do selfie não, porque ela tirava do meio e me levava pra descansar. Então faz falta, mas o tempo também se encarrega de fazer com que a gente aprenda a viver com aquilo que a gente tinha, que a gente gostava e que não existe mais. Eu acho que eu tô sobrevivendo e vou sobreviver. E eu tenho a imagem do que ela queria que eu fizesse e vou continuar fazendo, lutar sempre por um país melhor e mais justo.

Fórum – Presidente, queria lhe agradecer viu. No meio de tudo isso…

Lula – E eu espero que você tenha gostado da caravana, a experiência da caravana. Eu agora quero fazer uma pegando o Vale do Aço, Vale do Jequitinhonha, Vale do Mucuri, o Vale do Rio Doce, lá em Minas Gerais. Depois, pegar o Sul do país, pegar a Amazônia, fazer no Centro-Oeste. Tudo isso até abril do ano que vem. O que não dá é pra ficar em casa lendo jornal ou vendo a televisão falando mal de mim. Então, é o seguinte: se eles falam mal de mim sentados no sofá, eu prefiro estar em pé num palanque falando mal deles também.

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