Renato Rovai

Blog do Rovai

Coluna política

26 de junho de 2018, 08h47

Roda Viva com Manuela D’Ávila dá a dimensão da tragédia do jornalismo na mídia tradicional

Ao permitir que gente desqualificada use um programa com 32 anos de vida desta maneira, a TV Cultura vai indo junto pro esgoto da história.

Eu estava terminando o segundo ano da faculdade quando o Roda Viva veio ao ar. A despeito de o programa estar numa TV pública de baixo alcance, foi um acontecimento.

Era um programa jornalístico de fato. Com jornalistas que em geral respeitavam os princípios básicos das técnicas de uma entrevista e daquilo que se pode chamar no popular de distância e respeito com o entrevistado.

O sujeito não ia ao programa nem para babar ovo de alguém nem pra querer sair no braço.

Isso não significa que entrevistadores e entrevistados que passaram por ali não tenham vivido episódios memoráveis, como quando Lenildo Tabosa Pessoa, do Jornal da Tarde, e Brizola tiveram um confronto para lá de tenso, com Ratón pra cá e Ratón pra lá.

Ou quando Rui Xavier do Estadão e o então governador Orestes Quércia por pouco não foram as vias de fato quando o primeiro perguntou por que o peemedebista havia enriquecido tanto.

Mesmo nesses momentos, o apresentador não perdia a postura e tentava segurar a onda. E os outros entrevistadores se mantinham sérios. Sem buscar disputar a cena com o entrevistado.

Mas este tempo vem sendo engolido pela sanha inquisitória do não-jornalismo. Pela empáfia de alguns diplomados que acreditam em memes de internet e de um povo que vai ao programa para fazer campanha política de outro candidato.

O Roda Viva teve ontem, entre outros, um companheiro de Bolsonaro. Um certo Frederico D’Avila, pra quem estuprador deve ser castrado, como nos tempos da idade média.

E que não deixava, com a ajuda do resto da bancada, Manuela falar.

Manuela colocou, mesmo assim, a bancada inteira num bolso. Não precisou sequer dos dois. Tamanha a indigência intelectual da turma. Mas isso não é o principal.

O principal é que ao permitir que gente desqualificada use um programa com 32 anos de vida desta maneira, a TV Cultura vai indo junto pro esgoto da história.

Não é de hoje que isso vem acontecendo. Os governos tucanos tem se superado nesta tarefa. Mas é triste ver como sempre pode ser pior.

O programa de ontem não passaria no teste de qualidade de nenhuma TV Pública do mundo. E sob qualquer critério jornalístico, tomaria bomba numa avaliação de TCC.

Para a mídia tradicional, infelizmente, o fundo do poço parece não ter fim.