Renato Rovai

Blog do Rovai

Coluna política

23 de outubro de 2018, 13h07

A censura começou e o ato de Juremir é pedagógico, corajoso e revelador

Do gesto emerge a dignidade que todos os profissionais de imprensa deveriam ter para denunciar num momento tão dramático da vida nacional o que a vitória de Bolsonaro pode representar para o país.

Hoje o jornalista Juremir Machado da Silva pediu demissão ao vivo da Rádio Guaíba. Antes de mais nada, Juremir é escritor, tradutor, jornalista, radialista e professor universitário brasileiro. Foi coordenador do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da PUC-RS. É um dos mais respeitados jornalistas gaúchos.

Pode-se discordar de Juremir. Eu já discordei, por exemplo, quando ele levou Márcia Tiburi ao seu programa sem dizer a ela que Kim Katiguri (MBL) seria entrevistado junto com ela. Tiburi não topou e foi embora ao vivo. Fez muito bem.

Hoje foi a vez de Juremir fazer o mesmo. Ele foi proibido de entrevistar Jair Bolsonaro pela direção da rádio, que negociou que apenas o apresentador do programa que é simpático ao candidato do PSL fizesse perguntas aos presidenciável.

Os outros jornalistas presentes tiverem que assistir a entrevista calados. Ao final, Juremir pediu demissão e foi embora.

A situação é simbólica e sintomática do que já está acontecendo nos veículos da mídia tradicional.

Os jornalistas mais sérios estão sendo intimidados a aceitar a “nova ordem” bolsonariana para não serem demitidos.

Ou fazem isso ou então que procurem o RH.

Aliás, alguns chefes de diferenciadas maneiras já estão dizendo coisas assim.

Antes do caso Juremir, Patricia de Campos Mello foi perseguida e ameaçada por conta da reportagem que mostrou o esquema criminoso e sujo da campanha digital de Bolsonaro.

Miriam Leitão foi ameaçada por questionar o mito.

Os Jornalistas Livres foram ameaçados de censura e Fórum foi intimada a retirar reportagem que apontava o voto de Bolsonaro no caso das pessoas com deficiência.

A chefe de redação do Jornal da Record pediu demissão por não suportar a pressão dos bispos.

A Folha foi ameaçada pelo próprio candidato em discurso na Avenida Paulista e só faltou Bolsonaro dizer que vai fechar o jornal.

O Sindicato dos Petroleiros de Macaé foi invadido e o jornal Brasil de Fato foi recolhido de forma absurdamente covarde e agressiva pelo TRE do Rio de Janeiro.

O primeiro ato do fascismo é calar pela intimidação e o medo seus adversários. Em especial aqueles que têm voz na imprensa. Ou seja, os jornalistas sérios.

Muitos silenciam. E às vezes é de onde menos se espera que a resistência forma.

A forma como Juremir teve que se demitir para não ter que olhar para baixo quando viesse a se encontrar com seus colegas de profissão ou ex-alunos é simbólica.

Do gesto emerge a dignidade que todos os profissionais de imprensa deveriam ter para denunciar num momento tão dramático da vida nacional o que a vitória de Bolsonaro pode representar para o país.

Porque, como diz um amigo, merda cagada não volta à bunda.

É uma expressão escatológica e mal educada. Peço desculpas aos leitores. Mas me parece que dá a dimensão do drama que vivemos. Derrotar Bolsonaro no domingo pode livrar o país da censura. Porque, depois de domingo, talvez seja tarde pra devolver o que foi feito para o lugar de onde saiu.