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07 de outubro de 2013, 16h19

Herança escravista? Selvageria das elites rurais? Elite empresarial predatória e concentradora de renda? Para com isso! No Brasil, a causa da pobreza – e da unha encravada – é a corrupção

Esquerda – Direita, Política & Corrupção

Por Arnaldo Ferreira Marques, em seu Facebook

07/10/2013

A esquerda, geralmente, adora falar com o povo.
O que é natural. A esquerda diz coisas como: vamos manter seus direitos trabalhistas; vamos aumentar o máximo possível os seus salários, principalmente os mais baixos; vamos baratear o transporte coletivo e as outras tarifas públicas; vamos cobrar mais dos ricos para dar serviços melhores a vocês.

Esse tipo de discurso agrada à massa de eleitores, e na democracia brasileira a massa de eleitores decide a eleição.

Percebam que a direita neoliberal vive criticando que as massas votam no PT porque o petismo “compra” (?) as massas com bem-estar. Como eu sempre digo, a direita neoliberal brasileira prega o voto masoquista.

Mas imaginem a direita neoliberal em uma campanha política dizendo ao povo as coisas que ela defende abertamente na Globo News (por onde o povo não passa nem por engano): tem que conter os salários para aumentar a competitividade (aumento real de salário só depois de muito aumento de produtividade); tem de extinguir os direitos trabalhistas que encarecem a produção (eles querem extinguir, além do FGTS, toda a remuneração dos dias não trabalhados: do “descanso semanal” ao 13º e às férias de 30 dias, tudo passaria a ser negociado diretamente entre patrões e empregados); tem de diminuir os impostos sobre as empresas para desonerar a produção; os juros devem ser altos para conter a bolha de consumo e brecar a inflação; o preço das tarifas públicas devem ser “realistas” (altos) para atrair investimento privado e não distorcer a economia. Etc.

Com um discurso desses não se vence eleição nem pra presidência de clube de futebol de botão, não é?

Então a direita neoliberal sabe de uma coisa: ela não pode ser sincera na sua comunicação com as massas.

Mas sendo assim, como convencer o povo que é nela que o povo deve votar?

Simples: assumindo um discurso moralista. “Vote em nós porque somos honestos. Não vote na esquerda porque ela é corrupta”. Papo simples. Papo reto.

Diz o eleitor consciente: “Ei! só isso não, é importante falar também das políticas públicas! Vamos falar de salário, de direitos trabalhistas, saúde, educação, transporte, tarifas, impostos, investimentos!”

A direita retruca na hora: Ahá, defensor da corrupção! Petralha! Querendo fugir do foco! Nada disso! Vamos falar de honestidade, só disso. Roubou, tá fora. Essa é a única discussão que importa.

Deu para entender, não é?

E essa tática, essa cortina de fumaça ideológica é mais esperta ainda, vai além.

Herança escravista? Selvageria das elites rurais? Elite empresarial predatória e concentradora de renda? Para com isso! Não, não, não! No Brasil, a causa da pobreza – e da unha encravada – é a corrupção. As elites são inocentes, tão vítimas dos corruptos como todo mundo!

Não é assim que lemos por aí? A corrupção é apresentada como o principal problema do Brasil. E, claro, como a grande chave para a solução dos problemas do povo. “Povo por favor entenda: se resolver a corrupção todo mundo vai ter bom salário, geladeira cheia, hospital e escola padrão Fifa, carro zero na garagem.”

Eis um discurso que a massa gosta de ouvir. Um discurso que atrai atenção e dá voto.

Mas a direita ainda vai além e completa a estratégia.

Uma equação de primeiro grau, redondinha.

Se a causa da pobreza é a corrupção, e a esquerda (querem eles provar) é a corrente política mais corrupta, então a causa da pobreza são os governos de esquerda! E a solução para acabar com a pobreza é votar na direita moralista! Não é genial?

Santa manipulação da realidade, Batman!

Dá para entender por que a esquerda se enfureceu quando as Jornadas de Junho, tão necessárias, foram tomadas por cartazes “contra a corrupção”?