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14 de outubro de 2013, 09h56

Em seu discurso de encerramento em Frankfurt Paulo Lins apoia professores em greve no RJ

No encerramento de Frankfurt, Paulo Lins apoia professores em greve

Por Guilherme Freitas, O Globo

13/10/2013

A participação do Brasil como convidado de honra da Feira do Livro de Frankfurt terminou com o mesmo tom político da abertura, quando Luiz Ruffato fez um discurso sobre mazelas do país. Na cerimônia de passagem do bastão para a Finlândia, homenageada de 2014, o escritor Paulo Lins, representante da delegação nacional no evento, quebrou o protocolo ao ler uma declaração que começava manifestando apoio à greve dos profissionais da educação no Rio de Janeiro:

– Um saravá aos professores do Rio! – disse Lins, que no início da semana redigiu, com João Paulo Cuenca e Luiz Ruffato, um manifesto assinado por cerca de 40 autores da delegação brasileira em apoio aos professores e contra a violência policial.

Na sequência, o autor de “Cidade de Deus” voltou a rebater acusações de racismo na escolha dos autores que vieram a Frankfurt. Único negro da delegação, ele disse que essa não é uma falha de curadoria e sim um reflexo de que “o Brasil é um país racista, assim como muitos da Europa”. Lins também endossou o discurso de Ruffato, que foi criticado por autores da delegação, como Ziraldo, e chegou a ser ameaçado por brasileiros na feira.

– Faço minhas as palavras do Ruffato. Foi uma declaração de amor, uma fala de esperança sobre o Brasil. Nossos problemas têm que ser encarados de frente – disse Lins, que ainda ironizou o discurso de Michel Temer na cerimônia de abertura, quando o vice-presidente falou sobre os próprios poemas e foi vaiado. – A poesia é coisa seria, não se dá a qualquer um.

Lins participou da primeira parte da cerimônia de passagem do bastão ao lado da escritora finlandesa Rosa Liksom. Ele falou sobre a presença da violência e da cultura negra em seu novo romance, “Desde que o samba é samba”, recém-traduzido na Alemanha.

– O samba não é só arte, é uma arma de guerra. Ele e a umbanda foram cultivados por netos de escravos e, como toda a cultura negra, foram perseguidos. Quando falo do samba, falo também de intolerância, violência e racismo – disse Lins, que encerrou sua participação lendo um poema que publicou aos 20 anos.

Na segunda parte da cerimônia, o presidente da Feira de Frankfurt, Juergen Boos, elogiou o tom político da presença brasileira no evento:

– Nos últimos dias, tivemos uma amostra da força da literatura, seu poder destruidor e criador. Foram destruídos muitos clichês sobre o Brasil, que se mostrou como um país angustiado consigo próprio, mas que segue em frente movido pela criatividade – disse Boos, afirmando que a Finlândia terá o grande desafio de “levar adiante essa demonstração de relevância da literatura”.

O presidente da Fundação Biblioteca Nacional, Renato Lessa, entregou à representante finlandesa um bastão simbólico, contendo um texto brasileiro e um finlandês. O brasileiro era uma colagem de fragmentos de autores como Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Hilda Hilst, Guimarães Rosa e Oswald de Andrade, entre outros.