Blog da Maria Frô

ativismo é por aqui

26 de maio de 2011, 17h59

A dúvida da leitora Andrea e a desinformação da imprensa que reverbera o discurso homofóbico de Bolsonaro

Antes de reproduzir o texto de esclarecimento da Campanha ABGLT em defesa do material pedagógico para uma escola sem homofobia, reproduzo a pergunta da leitora Andrea no comentário deste post:

“E onde está o material verdadeiro? Já procurei em vários sites e só acho estes vídeos que foram recusados e que, aliás, são realmente inadequados para serem apresentados a crianças entre 7 e 10 anos. (grifos do Maria Frô)
Este é um assunto muito importante que deve ser discutido pela sociedade brasileira. Seria ótimo se as organizações responsáveis pelo material o divulgassem. Afinal de contas, é a educação de nossos filhos que está em jogo. Temos o direito de opinar sobre o que será distribuído.”

Nota-se que a leitora acredita que o material é destinado às crianças (o que não é verdade, mas é insistentemente divulgado pela imprensa que ressoa incalsavelmente o discurso mentiroso de Bolsonaro de que o material é destinado ao público infantil). Nota-se também que ela teve dificuldades de encontrar o material verdadeiro, dado também o esforço de uma mídia tendenciosa de condenar previamente um material pedagógico sem ao menos deixar que a sociedade o conheça e possa tirar suas próprias conclusões. Aliás isso está virando rotina na abordagem da mídia institucional, basta ver o que ela fez com a cartilha da Ação Educativa e a falsa polêmica entre norma culta e linguagem coloquial e antes na criação da polêmica com o parecer do CNE e antes ainda com os livros didáticos de História do PNLD.

Apesar de há pelo menos 15 anos os temas tranversais – “ética, meio ambiente, orientação sexual, pluralidade cultural, trabalho e consumo e saúde – estarem presentes nos currículos escolares brasileiros, nesta faixa etária a curiosidade das crianças não gira em torno do tema da orientação hetero/homo.

Bons trabalhos podem ser feitos para a educação de uma escola sem sexismo, sem racismo, sem homofobia, sem toda ordem de preconceitos de gênero e identidade de gênero, classe, raça, de origem regional e em respeito à diversidade fazendo as crianças refletirem sobre gênero e brincadeiras e brinquedos infantis, sobre estereótipos de cores ‘rosa pra menina’, ‘azul pra meninos, sobre papéis socialmente atribuídos aos homens e mulheres etc.

As crianças devem ser educadas para o respeito à diversidade e são capazes de refletir sobre os gêneros e sobre a reprodução dos estereótipos sociais. Mas o kit escola sem homofobia se dirige aos adolescentes que em muitos casos já tem vida sexual ativa. E nesse sentido a orientação sexual também está associada ao tema da saúde e de viver a sexualidade de modo sadio.

Por outro lado não há um debate sério sobre a inconstitucionalidade da campanha insidiosa de Bolsonaro que mandou imprimir 50 mil panfletos detratores sobre o kit-escola sem homofobia (e os divulgou em escolas cariocas) e a irresponsabilidade da imprensa em abordar o tema, como a Record e muitos outros órgãos da mídia velha, que adotaram o termo ‘kit-gay’, apelido detrator dado por  Bolsonaro ao material pedagógico.

Como educadora esta crescente cultura do ódio é que me preocupa e acho que deveria preocupar e indignar toda a sociedade civil. Nesses panfletos detratores a mente doentia de Bolsonaro associa homossexualidade à pedofilia, representa todos os homossexuais como seres promíscuos, incapazes de viver uma vida sem sexualizar tudo ao seu redor, estimulando os preconceitos e a cultura do ódio contra a comunidade LGBT.

Portanto, aos interessados em discutir verdadeiramente a educação, sem criminalizar educadores e a SECAD/MEC que aceitaram o desafio de lidar com tema tabu, porque verdadeiramente querem desenvolver uma cultura de paz em nossas escolas, indico que consultem o site da ABGLT e leia o tópico: Campanha da ABGLT – Eu apoio o Kit Escola sem Homofobia: quero uma escola que respeite a diversidade. Não ao Bullying Homofóbico e à Violência contra a população LGBT. Vão poder tirar suas próprias conclusões sem serem desinformados por uma mídia que adora criar polêmicas e foge de sua responsabilidade maior que é o compromisso com o jornalismo.

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