Blog da Maria Frô

ativismo é por aqui

03 de janeiro de 2009, 23h35

A Segunda Revolução Verde, meu quiabo e a promiscuidade do poder público

Acordei decidida a não comer trash food: no natal, ano novo, nos encontros de fim de ano com os amigos costumamos exagerar na dose e fugir do bom e velho feijão com arroz.

Na quinta, almoçando uma moqueca capixaba maravilhosa com casais amigos, Raquel, a anfitriã, conta-nos sobre seu um curso de culinária e nos mostra suas recentes aquisições: revistas e livros sobre a literatura culinária. Uma receita chamou-me a atenção: um prato mineiro – angu como base para apoiar o músculo refogado, decorado com quiabos.

Visualmente o prato era lindo e como boa filha de nordestina que sou, adoro quiabo e acho a carne de músculo, quando bem limpa, saborosíssima. Decidi que me aventuraria a fazer o prato de cabeça, rememorando a fotografia atraente da revista de culinária.

Enquanto andava alguns metros para ir à banca do seu Francisco que acorda cedinho lá no Embu pra ir ao CEASA e trazer a seus fregueses, aqui no Rio Pequeno, produtos frescos, dei graças aos deuses pela Monsanto ainda não ter deteriorado a semente do quiabo.

Há pelo menos uma década a Monsanto vem mudando meus hábitos alimentares: eu que sempre gostei de soja, cortei todo o consumo desta leguminosa ou ao menos tento cortar. Mas, segundo o Greenpeace nem todas as indústrias alimentícias respeitam a lei que exige o símbolo do T no triângulo amarelo para indicar que o produto é transgênico. Assim, desavisados, corremos o risco de consumir transgênicos sem saber. Há ainda deputados gaúchos que acham muito ‘agressivo’ o símbolo que informa ao consumidor a origem transgênica do produto (uma das poucas vitórias dos ambientalistas brasileiros) e querem eliminá-lo da legislação. Decididamente é melhor não arriscar e talvez rezar.

Rezar ou começar a apoiar seriamente os grupos e iniciativas que desejam e lutam pelo estabelecimento de uma agricultura limpa, porque com esta política insana do agronegócio comandando todas as decisões de como, o que, e onde plantar nós estamos realmente fritos.

Segundo agrônomos do MST que, por sua vez, baseiam-se em pesquisas acadêmicas, a polinização de milho e soja transgênicos, por exemplo, é capaz de atingir uma distância de 500 metros, ou seja, se você é produtor de soja orgânica ou não transgênica e está perto de algum plantio de produtos transgênicos, esqueça, sua plantação vai se contaminar. Agora, imagine isso no esquema atual dos latifúndios monucultores em escala global. Imaginou? Vento, passarinho e outros insetos polinizadores estão pouco se lixando com as cercas das fazendas ou outras fronteiras geopolíticas. Vocês se lembram como a soja transgênica chegou ao Brasil? Foi via Argentina, que em meados da década de 1990 liberou o seu plantio.

Essa praga geneticamente modificada é tão potente que é capaz de alcançar os vales isolados mexicanos onde há dez mil anos os astecas, mexicas e outros povos cultivam dezenas de espécies diferentes de milho. No México não se planta milho transgênico, mas ele chega ao território do povo do milho, exportado dos Estados Unidos via o NAFTA.

Pesquisadores mexicanos renomados, casualmente, descobrirem que já está nascendo milho geneticamente modificado em território mexicano. Corremos o risco de perder a maior diversidade de sementes de milho do planeta e se esta variedade de milhos mexicanos for contaminada estamos fritos. O documentário da Marie-Monique mostra essas plantas nascidas de uma polinização sem controle. Elas são deformadas, completamente esquisitas, milhos com orelhas, folhas retorcidas, flores com folha misturada ao miolo, um pequeno exemplo da visão fantasmagórica da natureza em um futuro próximo, caso o projeto criminoso da Monsanto não seja detido.

Tenho uma amiga geógrafa, especialista em solo, que diz que esta política destrutiva é toda ela feita por velhacos sovinas, avarentos, ávidos pelo lucro, que não viverão pra ver o resultado dos estragos que provocam ao meio ambiente. Vocês já viram a decrepitude do diretor geral da Monsanto? Seja como for, eu queria que minha filha e meus netos e todos que ainda estão por vir tivessem direito a uma terra sem envenenamento, à água potável, a um lugar ao sol.

E por falar em água e solo, como esses recursos ficam depois da passagem da Monsanto? Perguntemos a uma comunidade do Alabama, majoritariamente formada por população negra e pobre. Foi o que Marie-Monique Robin fez em seu documentário ao visitar Anniston, a cidade onde nasceu a Monsanto. Lá, um prefeito energúmeno permitiu que o solo da cidade servisse de descarte para os tanques de PCBs (bifenila policloradas) – líquidos para refrigerar transformadores de eletricidade. Na fabricação deste produto a Monsanto utilizava grandes quantidades de dioxina e sem conhecimento e, portanto, sem consentimento da população a terra de Anniston virou cenário de ficção científica: um cemitério de mortos vivos no qual 50% da população apresenta níveis altíssimos dessa substância no organismo e que provoca os mais pavorosos tipos de câncer. A Monsanto foi criminalmente responsabilizada, obrigada a construir um hospital especializado pra atender a população contaminada em um custo de cerca de 750 milhões de dólares, café pequeno para o lucro que ela tem provocado com a sua indústria da morte.

Um agricultor paraguaio que também depõe no documentário de Marie-Monique sabe bem o que é ser vizinho da Monsanto: depois de uma chuva perdeu todos os seus patos que foram nadar no rio que passa por sua pequena chácara e que foi contaminado pelos defensivos agrícolas utilizados nas lavouras de soja transgênica. Ele e sua família são obrigados a caminhar horas em busca de água não contaminada, mesmo assim, seu filho menor que é obrigado a circular nas cercanias da área agrícola transgênica tem uma doença de pele esquisitíssima, desenvolvida depois da chegada do cultivo transgênicos e seus defensivos agrícolas.

Sempre tive uma desconfiança instintiva dos transgênicos, por achar que não se brinca de mãe natureza impunemente, mas como todo leitor do livro O mundo segundo a Monsanto e expectador do documentário que deu origem ao livro eu, realmente, não tinha idéia da dimensão global do estrago.

Nos EUA famílias inteiras de agricultores, plantando ou não milho ou soja transgênica, são depauperadas em processos sem fim movidos na Justiça pela Monsanto e isto também está ocorrendo no Brasil. O esquema é de espionagem e intimidação mafiosa. Há agricultores brasileiros que plantam soja orgânica e estão sendo obrigados judicialmente a pagar royalties para a Monsanto, mesmo sendo eles os maiores prejudicados pela contaminação de suas terras.

Quanto à promessa vendida pela Monsanto em caríssimas peças publicitárias de que o produto transgênico é mais resistente às pragas, necessita de menos defensivos agrícolas e produz mais, é pura balela que os agricultores só vão descobrir quando já se tornaram reféns da Monsanto. Os produtores de algodão da Índia que estão ampliando em números alarmantes as estatísticas de suicídio no meio rural que o digam. Quase 700 se mataram nos últimos anos, após verem as promessas de lucro de suas lavouras de algodão se transformarem em comida de praga e suas dívidas junto à Monsanto tornarem-se impagáveis.

A Monsanto hoje detém o monopólio das sementes no mundo: tem 600 patentes sobre organismos vivos o que lhe permite cobrar o preço sobre as sementes que lhe der na telha, encarecer os alimentos com a cobrança dos royalties e pôr em risco a segurança alimentar mundial. Há uma pesquisadora indiana, Vandana Shiva, que vem estudando os terríveis efeitos da Segunda Revolução Verde (transnacionais, agronegócio, monocultura, produção para exportação, exclusão social, busca incessante por lucro) e tem muito a nos dizer sobre o que restará para pôr nos nossos pratos e alimentar nossos corpos.

Quando Marie- Monique esteve aqui no Brasil, no início de dezembro do ano passado, eu fiz um apanhado para ela de como as coisas funcionam em nosso país. Relatei-lhe resumidamente como se estabelecem as relações entre o agronegócio e o poder público, como elas estão escandalosamente misturadas: contei-lhe um pouco sobre a atuação de Quartiero em Roraima; sobre a perseguição implacável do Ministério Público gaúcho ao MST, especialmente, porque, em nosso país, este é o único movimento social que peita a Monsanto, a Bunge e as demais transnacionais do agronegócio. Forneci outros exemplos desta relação suspeita, porque sabia que ela iria à Brasília falar ao Congresso Nacional. Eu gostaria de saber quais eram as expectativas dela em relação aquele encontro, visto que nossa realidade não era nada diferente do quadro promíscuo de relações entre poder público e poder econômico estabelecido nos diversos países retratados no seu documentário.

Ela, como toda pessoa de bem que investe em informação e educação, seguia para lá com esperanças de despertar em nossos homens públicos o interesse para as graves conseqüências ambientais, econômicas e sociais provocadas pelo agronegócio, especialmente pelos transgênicos. Sua resposta para minha questão foi a de que se ao menos um político procurasse se informar mais sobre o assunto antes de legislar seria uma vitória.

Tomara que ela tenha tido sucesso. Eu, infelizmente, quando vejo um presidente proveniente dos estratos populares, de origem operária e de esquerda, escorregar feito quiabo e ceder ao projeto de desenvolver o país a qualquer custo (e sabemos que o desenvolvimentismo é mais discurso que realidade), não tenho grandes esperanças. Cedo ou tarde Lula também terá de pagar a sua fatura por fazer tantas concessões ao agronegócio, Marina Silva que o diga e meu quiabo que se cuide.

PS. Não deixe de ver: O mundo segundo a Monsanto e O veneno está na mesa
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Veja também:  Em mais um recuo, Bolsonaro mantém evento da ONU sobre mudanças climáticas no Brasil

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