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22 de outubro de 2012, 13h24

Altair Freitas: ‘Meus corruptos favoritos’

MEUS CORRUPTOS FAVORITOS!

A história do Brasil é permeada por denúncias de corrupção. Desde o período colonial, passando pela monarquia de Pedro pai e Pedro filho e avançando por todo o período republicano e até os nossos dias, denunciar a corrupção alheia tem sido uma boa arma política para as oposições de todo tipo. Até aí, novidade nenhuma, até porque esse não é um fenômeno brasileiro. Corrupção é praticamente uma “instituição” presente na sociedade desde que surgiram as primeiras diferenciações de classe, desde que alguns começaram a enriquecer em detrimento do conjunto da sociedade. Nada de novo no front, portanto!

O que incomoda profundamente, no caso específico da política brasileira das últimas décadas, é que a chamada “sociedade civil”, incluídos aí partidos, “políticos” eleitos pelo povo ou indicados para o exercício de cargos públicos os mais diversos, nos habituamos a travar a luta política, em boa parte do tempo, brandindo a bandeira da anticorrupção como mera arma para desgastar, desmoralizar e derrubar os poderosos de plantão.

Desde a redemocratização iniciada pós ditadura militar (ela própria um esteio fenomenal de corrupção e cevadora de corruptos em larga escala), não houve um simples ano no qual jornais, revistas, parlamentares de oposição em todos os níveis e entidades as mais diversas – aparelhadas ou não pelas diversas forças políticas – não tivessem berrado a plenos pulmões que quem exercia o poder naquele momento era corrupto, conivente ou, no mínimo, incompetente para combatê-la. Vejam, estou me referindo aos últimos 28 anos da história brasileira, após a grande vitória popular sobre a corrupta ditadura militar.

Quase trinta anos e a cada ano, tome denúncias. Pouco importa se são verídicas ou não. O efeito geralmente tem sido semelhante e em processo crescente: um contingente cada vez maior de pessoas simplesmente trata a política como algo sem solução, um verdadeiro mar de lama, independente da coloração partidária. Os índices de abstenção e votos nulos têm crescido sucessivamente a cada eleição, a julgar pelos dados recentes referentes ao primeiro turno da eleição deste ano. É lastimável sob qualquer aspecto que eu analise.

Desencanto com a política, a percepção de que todos os políticos agem igual independente de filiação partidária (que mentem, que roubam, que são incompetentes, etc) geralmente termina de uma única maneira: regimes autoritários que afirmam que vão “limpar” a política e geralmente acabam não apenas exercitando a corrupção em larga escala, mas, muito pior do que isso, desenvolvendo políticas que apenas aprofundam o fosso que separa ricos e pobres. Lembremos do nazifascismo e da nossa ditadura militar, apenas para dar dois exemplos fáceis de serem compreendidos.

As forças políticas progressistas, os partidos de esquerda, os movimentos sociais que lutam décadas a fio por um país mais justo, pela construção de uma pátria efetivamente independente e desenvolvida e com justiça social, não podemos ficar olhando esse trem passar e entrar no verdadeiro concurso que se tornou comum nos últimos anos: quem aponta com mais fatos e argumentos o tamanho do lamaçal dos partidos adversários. Não podemos aceitar a permanência do nosso campo nessa ideia de que corruptos são apenas os outros ou, pior ainda, na onda “Meus corruptos favoritos”, aqueles a quem escolhemos para destruir moralmente e derrubar do poder, caso o poder exerçam, ou para evitar que o assumam.

Não sou daqueles ingênuos que acham que a corrupção é o maior problema do Brasil (ou de qualquer país). Isso é uma bobagem sem tamanho e serve principalmente como cortina de fumaça amplamente utilizada pelas forças mais conservadoras para embolar o meio de campo e desviar a atenção da maioria da população para o principal problema que é exatamente a brutal estrutura de concentração de renda típica do capitalismo. Esse é o pior problema da humanidade desde os últimos trezentos anos e ele apenas está se intensificando nas últimas décadas.

Corrupção é acessória à exploração que os capitalistas exercem sobre a maioria da população e é um fenômeno que contribui para a acumulação de capitais e poder político. Mas mesmo sendo acessória, é preciso levar em consideração o efeito que ela causa sobre o conceito que o povo tem sobre a política, sobre a luta política e sobre a necessária transformação profunda das estruturas econômicas para democratizar efetivamente a riqueza e a própria sociedade. Menos de 10% da população, em âmbito mundial, concentra brutalmente a renda e usa largamente a corrupção em suas múltiplas variáveis como instrumento secundário da manutenção do seu poder e privilégios. Mas a corrupção é face mais evidente e facilmente identificável pela massa popular como fonte de acumulação de riqueza. Por isso usá-la como arma Política é geralmente fácil e eficiente.

Não tenho ilusões sobre o fim da corrupção enquanto a humanidade viver sob o manto da concentração capitalista da riqueza. Corrupção só será plenamente varrida da prática humana quando não houver mais motivo para acumular riqueza e poder político. O problema é que esse horizonte está por demais distante e não dá para ficarmos deitados em berço esplendido esperando que esse maravilhoso dia chegue, pois ele não chegará automaticamente e quando chegar, se chegar, será o resultado de uma imensa luta transformadora de alcance histórico.

Às forças transformadoras, progressistas, que têm compromisso efetivo com a democratização da sociedade brasileira, é necessário travar a dura luta contra os principais mecanismos atuais que favorecem a corrupção na política – e de quebra, em vários segmentos da sociedade fora do ambiente político-partidário e estatal . Ou tomamos em nossas mãos as iniciativas para eliminar mecanismos perversos de geração de corrupção em larga escala, como o financiamento privado para campanhas eleitorais, por exemplo , ou continuaremos a chocar o “ovo de serpente” que alimenta golpistas históricos – os encastelados em grandes órgãos de comunicação e que detestam governos progressistas ou de esquerda, os saudosos da hipócrita e corrupta ditadura militar, os aventureiros pseudo salvadores da pátria, etc. – sempre a serviço das tradicionais elites enriquecidas e associadas de potências estrangeiras sugadoras das nossas riquezas.
Ou pomos a mão efetivamente na consciência do nosso papel nesse campo, ou vamos vivenciar nos próximos processos sucessórios ou de luta pelo poder fora das eleições, mais e trágicos episódios do concurso “Meus corruptos favoritos”.

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