Blog da Maria Frô

ativismo é por aqui

13 de setembro de 2013, 17h30

As manifestações, os black bloc e o autoritarismo de Estado

Por: Renam Brandão, em seu Facebook

Sobre as manifestações no Rio, tenho lido e conversado com companheiros e companheiras com quem, há pouco, coincidia posições (contra a violência do estado e de solidariedade com os manifestantes). Há um viés de mudança no posicionamento deles. Eu entendo todos os argumentos, tenho acordo com muitos, mas o que me preocupa são as possíveis conclusões que podem abalar as possibilidades da resistência contra o autoritarismo.

O que está em jogo não é o desgaste dos “Black Bloc” perante a opinião pública que lê “O Globo”; o maior risco é a vitória do arbítrio do estado e da polícia militar do Rio de Janeiro. A derrota dos que estão sendo reprimidos é a legitimação do legado autoritário da Ditadura Militar, com o qual ainda não rompemos e cujo combate devemos realizar, também, a partir do fortalecimento das articulações e comissões da Verdade, Memória e Justiça.

Nossa dificuldade, da esquerda social tradicional (os vermelhos) em ser catalizadora e organizadora das lutas relacionadas às crescentes e bem-vindas insatisfações populares, não pode nos levar ao posicionamento político equivocado de torcer ou operar pela derrota dos coletivos (de preto e que não se resumem à tática black bloc) que hoje têm sido mais capazes de aglutinar e colocar em marcha um crescente de descontentes – ainda que possam ser socialmente pequenos, no último dia 7/9 a coluna dos mesmos era no mínimo igual à do Grito dos Excluídos.

Se há uma escalada da violência nas manifestações ela tem uma causa: a ação completamente desproporcional, abusiva e ilegal do aparato repressivo do estado, desde o início das manifestações. Isso foi amplamente comprovado e documentado desde junho. Assim, há aqui uma questão especial: a do Direito de Resistência. Este Direito não é válido apenas quando aqueles que o exercem comungam de determinados ideais.

Aqui, arrisco a dizer: o acolhimento social do Direito de Resistência é um dos nós que temos para desatar e progredir em matéria de cultura política, pois só favorece à classe dominante essa concepção de apoio à resistência contra o arbítrio apenas na concordância de pautas e métodos. Talvez por isso, por esse modo de pensar, por essa forma de naturalizar o senso comum do “perdeu a razão” – que é uma expressão da suposta “afabilidade” do brasileiro – estejamos tão atrasados em relação aos vizinhos da América Latina no resgate da verdade e das devidas punições àqueles que escreveram com o sangue dos mortos, desaparecidos e torturados a página infeliz de nossa história.

Apanhar calado e sem reagir não é uma virtude. Nessa disputa semântica sobre a cordialidade “buarquiana” dos brasileiros, sempre estarei ao lado daqueles que a interpretam pelo seu viés etimológico: a franqueza vinda do coração.

Creio na luta franca, no aprendizado e no acúmulo organizativo e por isso acho que devemos atuar onde e como pudermos para que a cordialidade incisiva e vigorosa dos jovens em luta encontre os caminhos capazes de reunir mais apoio social e se desdobre em transformação da estrutura do estado com ampliação da efetiva democracia.

“A não-violência e a covardia não combinam. Posso imaginar um homem armado até os dentes que no fundo é um covarde. A posse de armas insinua um elemento de medo, se não mesmo de covardia. Mas a verdadeira não-violência é uma impossibilidade sem a posse de um destemor inflexível.” – Mahatma Gandhi

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