Blog da Maria Frô

ativismo é por aqui

14 de março de 2011, 15h07

Boom brasileiro e a carência de mão-de-obra qualificada

Tenho um irmão cadeirante, pais velhos e doentes, fiz um empréstimo na minha editora pra fazer um quarto adaptado, os dois escritórios de arquitetura possíveis pra a empreitada com o empréstimo que fiz não estão trabalhando porque os pedreiros voltaram para o Nordeste. O empréstimo que fiz daqui a pouco não valerá nada, pois no mundo capitalista vigora a lei do mercado, tudo que diz respeito à construção civil – dos materiais de construção, à mão-de-obra para  uma pequena reforma doméstica ou a compra de um imóvel – está superfaturado e reina a especulação.

A carência de trabalhadores qualificados é mais visível na construção civil, mas não só. O Brasil cresceu economicamente e as demandas são muitas e pra ontem. Fico pensando como projetos como Minha Casa Minha Vida, reforma ou construção de novos aeroportos, estádios, ginásios, complexos esportivos vão superar este quadro para que daqui a três anos possamos realizar a Copa e depois as Olimpíadas. Especialmente, considerando a mentalidade de um empresariado no Brasil que é muito competente pra enriquecer, mas que não tem prática de investir em formação de mão de obra qualificada ou em pesquisas e  não vê tais investimentos como responsabilidade também deles.

BBC hoje fala da migração de trabalhadores técnicos dos EUA para o mercado brasileiro: Boom econômico atrai americanos em busca de ‘sonho brasileiro’.

É bacana crescimento econômico, claro que sim, mas se o Brasil não começar a investir pesadamente em formação técnica e pesquisa para desenvolver novas tecnologias, os trabalhadores brasileiros não se beneficiarão deste crescimento ou ficarão apenas com as rebarbas dele. Nas pequenas construções trabalhamos ainda como se estivéssemos no século XIX, tudo relacionado às novas tecnologias na construção civil – novos materiais, novas técnicas, casas inteligentes, ecologicamente sustentáveis – é privilégio dos mais ricos.

Não seria maravilhoso se as casas do projeto Minha Casa Minha Vida usassem novos materiais, reaproveitassem água, tivessem painéis de energia solar dentre outras inovações? São recursos públicos financiando esses projetos, tais exigências fazem parte do programa?

A realidade concreta que temos hoje é: 64% dos empregadores brasileiros sentem dificuldades para preencher suas vagas em aberto e pelo visto vão optar pelo caminho mais fácil e mais lucrativo: importar mão de obra qualificada, na medida em que é mais barato trazer trabalhadores qualificados dos EUA do que investir na formação dos trabalhadores brasileiros (em setores com escassez).

E lá nave vá, melhor é devolver o dinheiro do empréstimo, antes que não consiga fazer o quarto adaptado do meu irmão e fique apenas com a dívida.