Blog da Maria Frô

ativismo é por aqui

06 de março de 2011, 09h06

Cordeiros no carnaval de Salvador: o outro lado da folia

Recebo da leitora  Luana um texto que retrata um outro olhar sobre o carnaval de Salvador.  Para quem como eu, no tempo de criança, brincava atrás do trio elétrico, sem cordeiros ou abadás, é triste constatar que a indutrialização de uma atividade cultural só dá lucro para quem já acumula riquezas e intensifica a exploração dos mesmos: trabalhadores negros e pobres.

Um cordeiro ganha menos que 200 reais para realizar um trabalho intenso embaixo do sol, por cerca de 6 horas sem descanso durante 5 ou 6 dias de Carnaval.  Quanto custa um abadá? Quanto está a diária em um hotel médio em Salvador durante a temporada do Carnaval? Quanto Ivete Sangalo ganha para cantar?

Ainda sobre os cordeiros leia aquiaqui.


Carnaval de Salvador: nem só a “oitava maravilha”

Luana Tolentino, via e-mail

06/03/2011

É carnaval. Belo Horizonte está praticamente deserta. Embora tenha havido esforços da Prefeitura para fazer dos festejos carnavalescos uma tradição na capital mineira, a maioria das pessoas ainda foge para as cidadezinhas do interior ou para o litoral.

Faz três carnavais que não experimento toda essa calmaria na cidade. Saber que não viajaria, gerou em mim certa apreensão. O que fazer nesse feriado prolongadíssimo? Certamente não receberia emails. Os celulares dos meus amigos dariam caixa postal. Não encontraria uma viva alma no MSN. Nunca tive paciência para acompanhar os desfiles das escolas de samba na televisão. Tenho um sério problema de déficit de atenção, e em função disso, não consigo assistir filmes. Todo esse desconforto tem uma razão de ser: nos últimos anos rumei para Salvador. Lena e Lídia, os acarajés “de” Vera, a cidade em si, e todo o resto, fizeram com que eu voltasse. Simplesmente inesquecível.

Nunca imaginei que um dia fosse correr atrás do trio da Ivete Sangalo ou da Banda Eva. Sempre preferi Chico à Chiclete com Banana, Elza à Asa de Águia. Jamais passou pela minha cabeça que em algum momento da minha vida estaria no meio daquela multidão. Na verdade, meu sonho era desfilar pela Mangueira. Sonho que espero um dia realizar. Quem sabe no ano que vem?

A estrutura do carnaval soteropolitano é realmente grandiosa. Algo surreal. Os trios elétricos, os ídolos do axé tão próximos (e ao mesmo tempo tão distantes), os camarotes cheios de artistas, inebriam as vistas. Quanta alegria! Como esquecer a emoção de ver o Ilê passar ou Gil e Jorge Ben cantando juntos no Expresso 2222? Minha memória sempre recobrará o momento em que vi uma mulher entrando em transe ao som dos tambores da Timbalada. Tinha a sensação de que o mundo iria acabar a qualquer momento e todos que estavam ali morreriam felizes. São momentos vivos dentro de mim. Tudo aquilo impressiona, fascina, encanta, ilude.

Ilusão. Difícil não iludir-se e esquecer por um momento todas as agruras vividas ao longo do ano. Salvador, carnaval – panis et circense total. As pessoas realmente compram a idéia de que a cidade abriga a maior festa “popular” do planeta. Mesmo carregando uma felicidade inconteste e fascinada pelos dias de festa, não conseguia digerir que o carnaval de baiano fosse uma festa do povo. No primeiro ano foi um choque. No bloco da Ivete, em meio ao mar de gente, pude contar os negros que estavam ali. Vão dizer que tenho mania de perseguição, mas, (in)felizmente meus olhos só conseguem olhar nessa direção. Além disso, estamos falando da metrópole baiana, a cidade com maior contingente de negros fora da África.

Os cordeiros, (pessoas contratadas para segurar a corda que separa os foliões daqueles que não tem como pagar pelo abadá) trabalham entre 5 a 6 horas em cada trio. Ao longo do percurso pedem água e comida. Terminado o desfile do bloco, recebem a quantia irrisória de R$ 30,00, ao passo que um abadá custa entre R$ 300,00 a R$ 800,00. Enquanto nos divertimos ao som dos hits baianos, do lado de lá da corda, homens, mulheres e crianças nos olham fixamente enquanto bebemos uma cerveja. Ficam esperando que joguemos as latas fora para recolhé-las e fazer da reciclagem uma fonte de renda. O olhar estrangeiro sobre as brasileiras me fazia lembrar um ritual antropofágico. As meninas com seus corpos ainda em formação não precisam aprender as lições de “Nova”, sabem perfeitamente “como descolar um gringo”. O olhar estrangeiro sobre as brasileiras me fazia lembrar um ritual antropofágico. As meninas com seus corpos ainda em formação não precisam aprender as lições de “Nova”, sabem perfeitamente “como descolar um gringo”.

Aos desavisados já vou logo avisando: o carnaval de Salvador não é o carnaval da Band. A mídia auxilia os políticos na tarefa de esconder uma cidade racista e segregacionista, onde boa parte da população sobrevive através de empregos informais. Esconde também a violência, a deterioração e a falta de estrutura da “capital” do nordeste. Nos jornais, durante os sete dias de festa, ninguém morre, assalta ou mata. Talvez fosse melhor me iludir mesmo. Entorpecer de cerveja, caipirinhas e de música. Acho que seria mais confortável.

Meu desejo era apenas rememorar os momentos de folia em Salvador, e assim fazer com que esses dias de sossego aqui em Belo Horizonte passassem mais depressa. Gosto mais da correria e da agitação. De qualquer maneira, lembrar do carnaval é também reviver todas as mazelas que aqui mencionei. Nas minhas lembranças, as duas faces da festa soteropolitana estarão sempre intrinsecamente ligadas.

Não escreverei mais. Começo a me sentir culpada. Droga! Farei algo que por diversas vezes tentei fazer em Salvador, e nem sempre consegui: tomar uma Brahma em paz, sem tantas angústias e questionamentos. Afinal de contas, é carnaval.

*Luana Tolentino – mulher, negra, canhota, gêmea univitelina