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07 de julho de 2010, 18h36

EUA para Israel: “Acabou-se o tempo do cheque em branco”

Outro excelente artigo do The Guardian traduzido pela Caia Fittipaldi. Resta saber se Binyamin Netanyahu entenderá o recado e o que os EUA farão de concreto.

EUA questionam o apoio incondicional a Israel

Por:  Chris McGreal, The Guardian, UK

5/7/2010

Há perguntas que nunca se fazem, ou só aparecem muito raramente, em Washington. Durante anos, o mantra da aliança íntima e inquebrável entre EUA e Israel foi tão útil aos dois lados, que nem os EUA nem o Estado judeu nem os políticos preocuparam-se muito com o custo daquele apoio sempre incondicional.

Dessa vez, quando Binyamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, chegar a Washington para tentar remendar suas relações com a Casa Branca, lá estará, pairando sobre todos uma pergunta que raramente se propôs e que, agora, parece ouvir-se de todos os lados: estará Israel – ou, pelo menos, o atual governo israelense –, criando riscos de segurança para os EUA e para os soldados estadunidenses?

Netanyahu prefere ser visto como aliado indispensável na luta contra o terror islâmico. Mas sua insistência em construir colônias exclusivas para judeus em Jerusalém Leste, que cavou profunda ravina entre Telavive e Washington, é vista como prova de que os israelenses não têm qualquer interesse real em que se estabeleça um Estado palestino viável. E isso parece estar alimentando a hostilidade contra os EUA em outras partes do Oriente Médio e em todo o mundo, porque os EUA são vistos como um escudo de proteção para Israel.

O presidente Obama tem dito que resolver o conflito entre israelenses e palestinos é “de vital interesse para a segurança dos EUA”. O vice-presidente Joe Biden já disse a Netanyahu, privadamente, que as políticas de Israel fazem aumentar o risco que cerca os soldados dos EUA no Iraque e no Afeganistão. Altos escalões militares estadunidenses, inclusive o general David Petraeus que comandou as forças dos EUA no Iraque e agora comanda-as no Afeganistão, já identificaram a ocupação continuada, por Israel, de terras palestinas, como obstáculo à solução de todos os conflitos naquela Região.

Mais recentemente, o ataque de Israel contra barcos que tentavam romper o bloqueio de Gaza, abalou gravemente as relações com a Turquia – importante aliado estratégico dos EUA.

Avaliação do ex-diretor de inteligência da secretaria de Defesa dos EUA, mês passado, causou muita agitação, sob o título de “Israel, risco estratégico?” Nesse documento, Anthony Cordesman, que escreveu muito sobre o Oriente Médio, constata uma mudança no pensamento da Casa Branca, do Departamento de Estado e talvez também mais crucialmente importante, no Pentágono, em relação ao impacto do apoio incondicional de Washington, jamais questionado, às políticas israelenses, inclusive a políticas que põem sob grave risco as perspectivas de paz com os palestinos.

Cordesman escreveu que os EUA jamais abandonarão Israel, porque têm o compromisso moral de assegurar a sobrevivência do Estado judeu. “Ao mesmo tempo, a profundidade do compromisso moral dos EUA não justifica nem desculpa ações de governo israelense que convertam Israel em risco estratégico, quando também Israel dever-se-ia dedicar a operar como ativo estratégico positivo. Tampouco significa que os EUA devam apoiar qualquer governo israelense, quando acontece de um ou outro governo nada fazer para construir a paz com seus vizinhos.

“É hora de Israel perceber que tem deveres com os EUA, tanto quanto os EUA têm deveres com Israel. É hora de Israel começar a tomar cuidado com o quanto exige da paciência dos EUA e com o uso que dá ao apoio que recebe dos judeus estadunidenses.” (grifos nossos)

Em entrevista ao Guardian, Cordesman disse que o governo de Netanyahu tem mantido um “padrão de conduta” que está convertendo Israel mais em risco estratégico do que em ativo estratégico positivo.

O atual governo de Israel tem-se excedido em tudo”, disse ele. “Gaza é um caso. Outros casos: as construções em terras árabes em Jerusalém; a falta de disposição para responder de modo que interesse tanto a Israel quanto aos EUA. Até agora, não se viu sequer um passo, dos israelenses, na direção de construir qualquer tipo de processo de paz.” (grifos nossos)

Foi quase exatamente o que Biden disse a Netanyahu em março, quando os israelenses mostraram-se inacreditavelmente grosseiros, quando, durante visita de Biden, anunciaram a construção de novas 1.600 unidades de moradia exclusivas para judeus na parte leste, ocupada, de Jerusalém.

O jornal israelense Yedioth Ahronoth noticiou que, em encontro com Netanyahu, Biden, em tom de profunda irritação, acusou o primeiro-ministro de Israel de, por causa da política agressiva de seu Estado judeu contra os árabes em Jerusalém, fazer aumentar o risco que pesa sobre os soldados estadunidenses.

“A coisa está começando a ficar perigosa demais para nós. O que vocês estão fazendo compromete a segurança de nossos soldados que combatem no Iraque, no Afeganistão e no Paquistão. Aumentam os riscos, para nós e para a paz regional” – palavras de Biden a Netanyahu. (grifos nossos)

O principal conselheiro político de Obama, David Axelrod, disse que os novos planos de construir casas exclusivas para judeus nas colônias nos territórios ocupados “pareceu planejado para minar” quaisquer novos esforços para construir conversações de paz realmente produtivas. Disse também que “é importante para a segurança dos EUA que andemos adiante e resolvamos essa difícil questão”.

Netanyahu tentou atacar frontalmente essa dificuldade, quando discursou em reunião de lobistas pró-Israel em Washington no início do ano. “Durante décadas, Israel serviu como escudo protetor contra o expansionismo soviético. Hoje, Israel ajuda os EUA a deter a maré do terrorismo islâmico. Israel partilha com os EUA tudo que sabemos sobre combater esse novo tipo de inimigo”, disse ele. “Partilhamos inteligência. Cooperamos de inúmeras outras maneiras, a maioria das quais não posso divulgar. Essa cooperação é importante para Israel e tem ajudado a salvar vidas norte-americanas.”

Hoje, esse argumento é bem menos persuasivo nos EUA. Mês passado, o embaixador de Israel aos EUA, Michael Oren, disse que o Estado judeu está passando por uma fase de “agitação tectônica” em relação aos EUA. “Não se pode dizer que as relações Israel-EUA estejam em crise, porque, numa crise, há altos e baixos” – disse o embaixador a diplomatas israelenses em Jerusalém. “As relações estão em estado de agitação tectônica, no qual se vê que os continentes começam a separar-se.”

Oren disse que as avaliações que se fazem na Casa Branca, sobre a política israelense, modificaram-se; da repetição de discursos históricos e ideológicos que se via em governos anteriores, para, como se vê hoje, um frio cálculo estratégico.

Para Cordesman, ainda é cedo para saber se Netanyahu realmente se deu conta do que está acontecendo; que, embora não venha a ocorrer qualquer alteração nas garantias fundamentais de segurança que os EUA dão a Israel, “acabou-se o tempo do cheque em branco.” (grifos nossos)

E acrescentou: “Acho que é claro que, hoje, todos pensam mais atentamente sobre como lidar com Gaza, sobre como enfrentar as questões humanitárias. Francamente: hoje, do ponto de um observador externo, é impossível não ver que o modo como Israel encaminhou as questões é causa direta de o Hamás ter evoluído, não para posição de acomodação, mas de resistência. Israel criou um desafio extremista para o Hamás. Mas foi preciso esperar o resultado, para poder ver com clareza todo esse processo.” (grifos nossos)

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