Blog da Maria Frô

ativismo é por aqui

07 de novembro de 2010, 14h47

Folha e seus eufemismos no maior deslocamento forçado já registrado em SP

Observem que curioso o cuidado que a Folha de São Paulo tem ao falar de ações violentas no estado de São Paulo em relação à expulsão de famílias inteiras de suas casas. ‘Expulsam’, no título da matéria, vem entre aspas e a Folha faz questão de apresentar o ‘outro lado’.

A arquiteta Raquel Ronik em seu blog chama a atenção para o que é na verdade  o maior deslocamento populacional forçado já registrado no Estado de São Paulo. A maioria das moradias que estão sendo derrubadas e cujas famílias são expulsas, muitas vezes sem recursos e sem saídas para se abrigarem com dignidade em outro lugar, são  irregulares. Elas estão ou em áreas de preservação ambiental ou estão no meio do caminho de grandes obras como o Rodoanel  e o megaparque. No entanto, durante anos, o poder público nada fez para resolver o problema  de moradia e ele se alastrou e se agravou.

De acordo com matéria reproduzida no blog Os amigos do Presidente Lula. poucos dias depois do segundo turno das eleições a violência contra os moradores das favelas paulistanas já começou com operação despejo em Paraisópolis, levada a cabo pela prefeitura de São Paulo, sem nenhum eufemismo posto entre aspas.

AGSP – Sao Paulo, SP, BRASIL – 5/11/2010 – Reintegração de posse, Paraisópolis. Prefeitura, Policia Militar e Guarda Civil Metropolitana realizam reintegração de posse na Favela Paraisópolis. Vários barracos foram destruídos.

Projetos públicos em São Paulo “expulsam” 165 mil pessoas de casa

DE SÃO PAULO, na Folha

25/10/2010 – 09h06

Projetos em execução pelo poder público em São Paulo vão desalojar compulsoriamente de suas casas cerca de 50 mil famílias em dez anos (2006-2015), no maior deslocamento populacional forçado já registrado no Estado. A informação é da reportagem de José Benedito da Silvapublicada na edição desta segunda-feira da Folha (íntegra da coluna está disponível para assinantes do jornal e do UOL).
De acordo com o texto, considerando 3,3 moradores por casa –média da prévia do Censo 2010–, o número de desalojados chega a 165 mil, mais que a população de São Caetano do Sul (153 mil). A maioria das casas é irregular, está em áreas de risco ou preservação ambiental. Quase a metade das famílias desalojadas será atingida por ações de cunho ambiental.

A maior delas é o Várzeas do Tietê, um megaparque linear de 107 km de extensão que vai do extremo leste de São Paulo até Salesópolis, onde nasce o rio Tietê. O projeto prevê desalojar 10 mil famílias em seis cidades, sendo a maior parte na região do Jardim Pantanal, onde remoções começaram após enchentes em 2009.

A maioria dos projetos é executada pelo governo do Estado ou prefeitura, mas parte tem recursos do PAC (federal) ou financiamento de órgãos como BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) e Banco Mundial.

OUTRO LADO
A Prefeitura de São Paulo diz que há 800 mil famílias à espera de moradia adequada, que age diante de situações emergenciais e que uma solução definitiva deverá vir até 2024, como prevê o Plano Municipal de Habitação. Segundo ela, estão sendo urbanizadas 110 favelas na cidade, com verbas estadual, municipal e federal e que o processo é complexo pois envolve uma “negociação ininterrupta com a população”.

Um dos problemas é o imediato adensamento populacional de uma favela sempre que sua reurbanização é anunciada, como diz ter acontecido na favela do Sapo (região da Água Branca), onde o número inicial de famílias saltou de 87 para 455.

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Dona de casa Betania Bonfim sentada nos escombros de sua casa derrubada para obras das margens da represa Billings. Joel Silva/Folhapress

Pedreiro Jesuino Ferreira observa máquina derrubar casas ao lado da sua, que também será derrubada, para obras em SP. Joel Silva/Folhapress

De acordo com a pasta, o objetivo é atender com casas e apartamentos todas as famílias removidas, mas que, emergencialmente, paga o chamado aluguel social –R$ 300 por mês– para que elas fiquem em moradias provisórias até que sejam concluídas as unidades habitacionais.

Já a CDHU (companhia habitacional do Estado) afirmou que atua em favelas em duas frentes –urbanização e erradicação– e que “em hipótese nenhuma deixa famílias sem atendimento definitivo nos locais de intervenção”. Segundo ela, o Programa de Atuação em Favelas atendeu 18.375 famílias com novas moradias entre 2007 e 2010 e 22.645 foram beneficiadas com urbanização.

No Programa de Recuperação Socioambiental da Serra do Mar, a companhia afirma que as 5.350 famílias retiradas de áreas de risco ou de preservação irão para conjuntos habitacionais.

Editoria de Arte/Folhapress