Blog da Maria Frô

ativismo é por aqui

18 de julho de 2015, 09h34

Grandes infratores do Congresso estavam a julgar os trombadinhas

MAIORES INFRATORES

Por Lelê Teles

vovó me prepara um chá de capim santo enquanto sopra a brasa do fogão à lenha. as galinhas beliscam o chão, os pintos piam, a vaga muge e três cães farejam o rabo de uma cadela no cio.

tô na fazenda, fazendo visita à vovozinha. ela me pergunta como vai Brasília e por que os ladrões adultos estavam tão preocupados com os ladrões mirins.

vovó é antenada, tem uma parabólica na fazenda, daquelas que pegou Ricupero falando safadezas a Monforte.

puxei pra mim o cesto com pães de queijo ainda fumegantes e fui falando e comendo.

tem um canalha lá no Congresso, vó, com sangue nos olhos a dizer que os adolescentes estão a tocar fogo no país. uma conversa mole, a molecada é quem menos comete crimes, é só mais uma estratégia de criminalização da pobreza.

vovó ouvia, curiosa.

um cachorro mostrou os dentes para os seus colegas paqueradores, afugentando-os. jogou as patas dianteiras nas costas da cachorra no cio e passou a fazer sem-vergonhices ali mesmo, na frente de minha vó.

cães dos infernos.

vovó nem liga para a cachorrada e suas cachorrices, segue a prosa.

esse Cunha é o diabo, meu neto. lembro como os jornais humilharam Severino Cavalcanti, aquele baixinho, quando presidiu a câmara. botaram ele pra fora por causa de uma maracutaia numa lanchonete que ficava dentro da Câmara; se lembra disso?

tô ligado, vó. defenestraram Severino quando descobriram que o empresário escroque, Buani, lhe pagava um mensalinho; dava-lhe umas coxinhas frias que ele enfiava no bolso do paletó, na surdina.

era um conchavo para manter o boteco funcionando dentro da Câmara.

agora pegam Cunha com a boca na butija, abocanhando 5 milhões de dólares em propinas. se o ex-presidente da Câmara caiu por receber uns salgadinhos vencidos, o que não ocorrerá com esse agora?

vovó acendeu um cigarrim de palha no braseiro, pigarreou, cuspiu longe (tipo cocô de pato) e seguiu com a prosa.

meu neto, Cunha está acabado.

agora diz que vai tocar fogo no Congresso, isso é coisa de desesperado. e você sabe por quê agora ele resolveu passar para a oposição?

como eu estava com a boca cheia, apenas meneei a cabeça negativamente.

porque na oposição ninguém vai preso, meu neto. veja esse aécio (grafemos em minúsculas), esse napoleão de hospício, o homem tá solto, livre, olho esbugalhado, dando entrevistas.

acho que vão colocar uma tornozeleira eletrônica em Cunha para constrangê-lo, mas a cana dura ainda vai demorar um pouco.

mas de qualquer forma ele já é um prisioneiro. está encarcerado na sua arrogância tresloucada. agora, como estratégia midiática, dará uma de doido, ficará gritando e espumando como um cão, igual faz esse esse aécio (continuemos a grafar em minúsculas).

todos vãos se afastar dele, meu neto, como se fosse um leproso. hoje, quem tem Cunha tem medo.

por isso, Cunha ficará só, a bravatear, enquanto olha pela fresta da persiana se a polícia está vindo.

pisando nas hotaliças, o cachorro e a cadela agora estavam grudados, bunda com bunda, numa ridícula imagem pós coito.

línguas de fora, salivas a escorrer. Cunhamente.

pois é, vó. a ironia é que os maiores infratores estavam a julgar os menores infratores.

digo maior infrator em relação ao tamanho da infração que esse cabras cometem. os menores infratores são como Severino, trombadinhas, ladrões de galinha, peixes pequenos.

Cunha é da turma dos peixes graúdos. e como os peixes, vai morrer pela boca.

andava a gritar e a exercer, ilegalmente, um parlamentarismo midiático. inventou cultos evangélicos na Câmara, cometeu algumas agressões à Constituição. sacou da cartola até um shopping, tamanha era a sua cara de pau e molecagem.

e fez de tudo para odiarmos adolescentes periféricos.

esse canalha fez o Brasil inteiro ter medo de uns molecotes sem camisa e sem chinelos.

enquanto a gente se distraía com os pivetes, os bandidões batiam nossas carteiras.

vovó se cansou da conversa.

trouxe o meu canabidiol, vovó perguntou pelo remédio.

claro, vó, trouxe do Uruguai.

saquei um skankezinho, botei a ponta numa lenha em brasa, dei uma baforada e passei pra vovó.

ele fumou, tossiu, cuspiu e deu uma gargalhada. é meu neto, acho que esse Eduardo tomou no Cunha.

palavra da salvação.