Blog da Maria Frô

ativismo é por aqui

08 de março de 2009, 00h17

Mais um blog em ação: reformas do Escrevinhador chegaram ao fim

No ano passado, um dos jornalistas cujo trabalho muito admiro, resolveu entrar na blogosfera. Seu site ficou longos meses em reforma.

(Três amigos queridos, cinco cidadãos, no ato em repúdio à ‘Ditabranda da Folha. Arquivo pessoal. 07/08/2009)

Hoje, em um dia muito especial pra blogosfera (veja aqui nosso dia de festa e protesto) Rodrigo Vianna, finalmente, terminou de assentar o piso, abriu as janelas e portas, a tinta ainda está fresca, mas a casa virtual já está pronta para receber os amigos para a festa de inauguração.

É de lá a matéria reproduzida abaixo. Selecionei este tema porque acho que ele é muito significativo para nós historiadores, para a sociedade brasileira e, principalmente, para o dia de hoje. Aproveitem e, claro, a nova casa do Escrevinhador é espaço para visitas freqüentes.


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publicada em quinta, 05/03/2009 às 01:00 e atualizado em quinta, 05/03/2009 às 01:00

(texto originalmente publicado em 21 de novembro de 2008, às 13:00)

“Salve, o navegante* negro, que tem por monumento as pedras pisadas do cais”.

Se você tem mais de 30 anos, já deve ter ouvido esses versos, na interpretação belíssima de Elis Regina.

A letra é de Aldir Blanc – um dos maiores compositores da MPB, carioca da zona norte, vascaíno, homem simples e erudito ao mesmo tempo.

Nos anos 70, Aldir Blanc (em parceria com João Bosco) fez o que nossa escola não fazia: contou a história de João Cândido, marinheiro que, em 1910, comandou a “Revolta da Chibata” – rebelião contra os castigos corporais que, em pleno século XX, ainda eram adotados pela gloriosa Marinha brasileira.

Onze anos atrás, eu era repórter na Globo do Rio. Tim Lopes era produtor. Trabalhei com ele em algumas reportagens. A mais bacana foi essa, levada ao ar em 20 de novembro de 1997: Tim descobriu que o povo da Baixada Fluminense tinha montado uma exposição sobre João Cândido, e resolvemos aproveitar o dia de Zumbi (como era chamado o 20 de novembro), pra falar de João Cândido, herói negro menos conhecido.

Tim não gostava do circuito jornalístico da zona sul. Criado no pé do Morro da Mangueira, negro, filho de militar, ele já era um jornalista consagrado naquele tempo, mas não esquecera suas origens. “Eu gosto de falar sobre o meu povo, eu gosto de matéria com o pé no chão”, ensinava ele para este paulistano branquela, durante as sessões de muito chopp no Calamares ( misto de boteco e restaurante, no Jardim Botânico, ao lado da Globo do Rio).

Vocês sabem que a turma que hoje está na direção da Globo não gosta muito de mim. E eu não gosto deles. Mas, o pessoal que cuida do site do “JN” não deve saber disso. Hoje, achei até engraçado: na primeira página do “JN”, na internet, há um link pra matéria que eu fiz com o Tim Lopes há onze anos, sobre João Cândido. É aquela coisa curta, de telejornal. Ainda assim, foi uma vitória botar no ar. Na época, vibramos muito: Tim, eu e a Cristina Aragão (ótima editora que hoje cuida do “Arquivo N”, da Globo News). O link pra matéria está aqui:Dia da Consciência Negra

Confesso que fiquei emocionado quando li, hoje, uma outra notícia no jornal: Lula inaugurou um monumento a João Cândido no porto do Rio. Até hoje, o único monumento a ele, como dizia Aldir Blanc, eram as “pedras pisadas do cais”. Agora, o Almirante Negro ganhou uma estátua. O presidente da República estava lá , na Praça 15, e disse: “precisamos aprender a transformar nossos mortos em heróis”. Isso não é pouco! Basta dizer que até hoje a Marinha rechaça a figura de João Cândido.

O Centro de Comunicação Social da Marinha disse ao repórter Mario Magalhães, da “Folha”, que não reconhece “heroísmo nas ações daquele movimento”, classificado como um “triste episódio da história do país”.

Triste ou vergonhoso?

Registros da época dão conta que 2 mil marinheiros se sublevaram contra a prática de punir com chibatadas os militares considerados indisciplinados. A revolta durou 4 dias e terminou com vários mortos, incluindo alguns oficiais. Será que foi isso que a Marinha classificou como “triste”? Ou “triste” era o fato de os marinheiros serem punidos com chibatadas?

Expulso da Marinha, João Cândido terminou seus dias na pobreza; dizem que vendia peixe no cais do Rio para ganhar uns trocados. Agora, ganhou um monumento.

Representantes de nossa Armada não foram à inauguração da estátua. Isso, sim, eu acho muito triste! Mostra que mentalidade ainda comanda as Forças Armadas no Brasil. Mas, azar o dessa gente, que ainda carrega nas costas essa história vergonhosa.

João Cândido, esse carrega uma história de heroísmo e glória!

Viva o Almirante Negro! Viva Tim Lopes! Viva Aldir Blanc! Viva nossa Brava Gente Brasileira.

*a letra original falava em “almirante” negro; mas, como os tempos eram de ditadura, a censura obrigou Aldir Blanc e João Bosco a trocar “almirante” por “navegante negro”.

Neste link, você encontra a letra original, e a que foi censurada pelos militares.

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