Blog da Maria Frô

ativismo é por aqui

21 de janeiro de 2009, 15h23

Momento mulherzinha ou não? O estilo de Michelle Obama e questões do gênero

The First Lady’s first dress

Ontem, como não poderia deixar de ser, tudo sobre o casal Obama foi comentado. Uma dada hora foi o vestido de Michelle Obama, especialmente, a cor do vestido que chocou as mais ‘beges’.


No twitter eu comentava:

1) a estilista do vestido e casaco dourado é cubana (bom sinal);

2) o dourado, embora choque as mais ‘beges’ (o mania desta mulherada ocidental achar que chic é preto/branco/bege, que saco, que marasmo, que tédio! Lembrem-se: estéticas variam, dourado é Oxum na cabeça, deusa da beleza, e, embora Michelle não deva conscientemente saber disso, poderia dizer que é quase um atavismo cultural;

3) Querer que a first lady de ébano do império se vestisse simplezinha no dia da posse do “Black is beautiful, Yes, He can!” é esquecer como os afroestadunidenses fazem questão de demarcar sua identidade/pertencimento afro. Gentem! dourado é cor de realeza, por excelência, especialmente as africanas ;-)

Na provocação de hoje do Azenha, Fátima Oliveira escreveu:

Azenha, Michelle Obama, já sabemos, é uma mulher que sabe, gosta e pode andar bem vestida. E o seu prazer de se vestir bem pode ser a tábua de salvação, economicamente falando, da moda do seu país. O Estilo Michelle Obama tem tudo para “pegar” mundo afora.
Para mim a moda não é futilidade, encerra cultura, expressa um estado de espírito de quem a veste e é um setor importante da economia. Filha de uma costureira daquelas que era chamada de “modista”, por ser uma “costureira fina”, uma artista da costura, herdei o gosto por roupas bem feitas, com detalhes bem trabalhados, confortáveis e bonitas, num estilo “desleixo chic”. Embora goste muuuito de vestir roupa nova, não sou daquelas que tem sempre de “estar na moda”. Nada a ver. Além do que “Não sou fanática por moda, mas desenvolvi um olhar especial sobre ela. Jamais entendi roupa como futilidade. Interesso-me pelo aspecto arte e pela filosofia que cada uma encerra (da “modinha” à “alta costura”). A moda circunscreve espaços sócio-culturais (“o hábito faz o monge”) e é um setor importante da economia de um país. A França que o diga!.
Concordo plenamente que a “moda fala”. Reverencio estilistas de todas as tendências e os espaços de moda – vanguardistas, anti-moda, neo-hippie, hippie pop, punk – como expressões simbólicas de uma visão de mundo. Uma roupa expressa o estado de espírito de quem a veste, posto que ela diz como estamos no momento em que a usamos.” (Fátima Oliveira, in Mundo fashion – O TEMPO, 22/11/08)

Falando de gênero e moda, ora pois e quando eu tiver tempo, volto para discutir a la Bell Hooks a questão do bendito cabelo. Por enquanto fiquem com um artiguinho sobre o estilo da nova first lady ébano estadunidense. Repare também aqui e aqui um pouco sobre o estilo de Michelle.

Michelle, uma primeira-dama de ouro

Mulher de Obama, famosa pela determinação, usa dourado na festa

Marcia Disitzer

Rio – Autêntica, guerreira, de pavio curto, franca, chique e simples. Muitos são os adjetivos usados para descrever a nova primeira-dama dos Estados Unidos, Michelle Obama, 45 anos. Prova viva do sonho americano, Michelle, muito antes de se tornar primeira-dama, trilhou caminho árduo para construir uma carreira sólida como advogada.

Desde cedo, nadou contra a maré. Nasceu no sul de Chicago, num bairro negro e pobre. Estudou em colégio público e conseguiu entrar em duas conceituadas universidades americanas: Princeton, onde estudou Sociologia, e Harvard, na qual formou-se em Direito. E foi num famoso escritório de advocacia em Chicago que Michelle conheceu Obama e viu sua vida mudar.

O início do romance contou com breve resistência dela, que não queria misturar amor e trabalho. Mas Obama a encantou e a resistência foi vencida. O namoro vingou e virou casamento, que se concretizou em 1992. Michelle esteve ao lado de Obama desde o começo de sua trajetória política. A mãe de Sasha, 7, e Malia, 10, só fez duas exigências quando o marido se candidatou a presidente dos Estados Unidos: que ele visse as filhas uma vez por semana e parasse de fumar. Quando Obama foi eleito, fez questão de deixar claro que a educação das filhas continuaria a ser sua prioridade, se definindo como futura ‘primeira-mamãe’.

Para acompanhar o marido, Michelle, que pediu demissão do cargo de vice-presidente do Hospital Universitário de Chicago, disse em alto e bom som que, como a maioria das mulheres, não tem babá e não sobreviveria sem a ajuda valiosa da mãe. Ontem, deu provas de sua gentileza ao presentear Laura Bush com caneta e diário com capa de couro, para que Laura leve em frente a idéia de escrever suas memórias.

O estilo pé-no-chão de Michelle e a sabedoria tipicamente feminina de conciliar diversos papéis no atribulado cotidiano a aproxima da mulher contemporânea. E, como boa representante do século 21, ganhou também o direito de reclamar do marido: chegou a afirmar em entrevistas que Obama acorda com mau hálito, ronca, esquece a manteiga fora da geladeira e deixa as meia
s soquetes espalhadas por toda a casa. Podia ou não ser a nossa melhor amiga?

RENOVAÇÃO NA MODA AMERICANA

Se Barack é esperança de renovação política na Casa Branca, Michelle simboliza a retomada de poder do estilo engajado. Depois de Laura Bush, mulher de George W. Bush, que não deixou impressa nenhuma marca fashion, Michelle surge como a promessa de um novo tempo na moda americana e já foi até comparada à primeira-dama icônica Jackie Kennedy Onassis. Ontem, usou tubinho e casaco dourados de lã suíça e seda francesa e sapatos verdes, combinação que, para nós, tem espírito patriota.

Ao invés de escolher um estilista megaconhecido, homenageou uma designer de origem cubana, Isabel Toledo. Esta foi a segunda vez que Michelle usou uma roupa assinada por Isabel: a primeira foi em junho. Ontem, ela mandou, através de sua roupa, mensagens ao mundo. A primeira delas foi a escolha do dourado. Em meio a uma crise econômica, a cor, que simboliza ouro, riqueza e prosperidade, aponta para dias melhores e mais ensolarados.

Ao escolher uma estilista de origem cubana, a mulher do primeiro presidente negro dos Estados Unidos endossou sua opção pelas minorias. E avisa que chegou a hora da virada: os historicamente excluídos estão no poder. Que bom.

ISABEL TOLEDO COMEMORA

A cubana Isabel Toledo, 48 anos, atua há 25 na moda americana, mora em Nova Iorque e é casada com o artista plástico Ruben Toledo. Tem um ótimo currículo: estudou no Fashion Institute of Technology, na Parsons School of Design, e foi diretora criativa da grife Anne Klein antes de criar a grife que leva o seu nome. Sem saber até ontem que Michelle Obama usaria sua criação, ela comemorou. “É incrível, estamos muito felizes”, exclamou, contando que mulheres de várias origens — como chinesas, polonesas e espanholas —, trabalharam durante o Natal para aprontar o traje. Isabel tem motivos de sobra para celebrar: a carreira dela se divide em antes de Michelle Obama e depois da nova primeira-dama dos EUA.

O Dia Online