Blog da Maria Frô

ativismo é por aqui

10 de junho de 2009, 14h55

Não há justificativa para a barbárie ocorrida ontem na USP

Amigos reproduzo alguns relatos do absurdo do autoritarismo ocorrido ontem na Universidade de São Paulo.

O DCE solicita moções de apoio à comunidade universitária e de REPÚDIO CONTRA A AGRESSÃO NA USP!! As moções podem ser encaminhadas para DCE@dceusp.org.br

Quanto a mim, tive de me proteger das bombas ‘de efeito moral’ e diga-se ‘efeito moral’ uma pinóia! Elas explodem, ensurdecem e soltam estilhaços. Como já descrevi longamente nos vários posts do twitter: maria_fro e em alguns comentários do Biscoito Fino e a Massa do professor Idelber Avelar (que fez e está fazendo uma cobertura excelente desta barbárie), o que ocorreu na USP ontem não tem justificativa.

A direitona raivosa pode falar o que for, mas este quadro de barbárie é mérito da inabilidade e truculência deste que se diz governador do estado e deseja presidir o país. Ontem tivemos uma mostra do que seria o Brasil se os brasileiros acreditarem em um sujeito autoritário, que não cumpre a sua palavra, arrivista (Serra não engole a USP que sempre resistiu a tentativa deste vampiro em retirar a autonomia universitária, fazendo do seu primeiro ato, assim que assumiu o governo do estado, em 04/01, um decreto para retirar a autonomia universitária e que foi repudiado pela comunidade acadêmica).

A sociedade civil, que preza a liberdade de pensamento deveria em peso repudiar este ato brutal e tão DESPROPORCIONAL, sem cabimento e justificativas.

Professor Kabengele que já é um senhor e tanto fez por este país, teve de correr de bombas, assim como outros professores, alunos e funcionários que receberam spray de pimenta nos rostos. Um horror, algo inadimissível e injustificável.

Repudio este sujeito e suas ações como membro da comunidade da USP, como cidadã e como pessoa.

Agradeço ao Cartunista Carlos Latuff que mais uma vez soube com maestria sintetizar em suas charges criativas os abusos de poder cometido por sujeitos autoritários que não honram os cargos que ocupam.

CONCEIÇÃO OLIVEIRA
HISTORIADORA, EDUCADORA, AUTORA DE LIVROS DIDÁTICOS, PRÊMIO JABUTI, 2005/2008
ALUNA DE PEDAGOGIA DA FE-USP

 

Carlos Latuff, mais uma vez, atendendo um pedido para boas causas. Obrigada meu querido por colocar o seu talento sempre a serviço da Justiça de fato e de direito.

Carlos Latuff, mais uma vez, atendendo um pedido para boas causas. Obrigada meu querido por colocar o seu talento sempre a serviço da Justiça de fato e de direito.

***
Apelo do professor Marcelo Modesto (FFLCH) à sociedade civil:
Por favor, encaminhe pro maior número de pessoas possível, meus irmãos inclusive. É um relato em primeira pessoa de um professor que estava hoje na mesma assembléia que eu. Aliás, eu também levei bomba de gás na cabeça (mas estou bem). bjs

Prof. Marcelo Modesto (FFLCH)

Urgente e importante: tropa de choque na USP (professor Pablo Ortellado)

Prezados colegas,

Eu nunca utilizei essa lista para outro propósito que não informes sobre o que acontece no Co (transmitindo as pautas antes da reunião e depois enviando relatos). Essa lista esteve desativada desde a última reunião do Co porque o servidor na qual ela estava instalada teve problemas e, com a greve, não podia ser reparado.
Dada a urgência dos atuais acontecimentos, consegui resgatar os emails e criar uma lista emergencial em outro servidor. O que os senhores lerão abaixo é um relato em primeira pessoa de um docente que vivenciou os atos de violência que aconteram poucas horas atrás na cidade universitária (e que seguem, no momento em que lhes escrevo – acabo de escutar a explosão de uma bomba). Peço perdão pelo uso desta lista para esse propósito, mas tenho certeza que os senhores perceberão a gravidade do caso.

Hoje, as associações de funcionários, estudantes e professores haviam deliberado por uma manifestação em frente à reitoria. A manifestação, que eu presenciei, foi completamente pacífica.
Depois, as organizações de funcionários e estudantes saíram em passeata para o portão 1 para repudiar a presença da polícia do campus. Embora a Adusp não tivesse aderido a essa manifestação, eu, individualmente, a acompanhei para presenciar os fatos que, a essa altura, já se anunciavam. Os estudantes e funcionários chegaram ao portão 1 e ficaram cara a cara com os policiais militares, na altura da avenida Alvarenga. Houve as palavras de ordem usuais dos sindicatos contra a presença da polícia e xingamentos mais ou menos espontâneos por parte dos manifestantes. Estimo cerca de 1200 pessoas nesta manifestação.

Nesta altura, saí da manifestação, porque se iniciava assembléia dos docentes da USP que seria realizada no prédio da História/ Geografia. No decorrer da assembléia, chegaram relatos que a tropa de choque havia agredido os estudantes e funcionários e que se iniciava um tumulto de grandes proporções. A assembléia foi suspensa e saímos para o estacionamento e descemos as escadas que dão para a avenida Luciano Gualberto para ver o que estava acontecendo. Quando chegamos na altura do gramado, havia uma multidão de centenas de pessoas, a maioria estudantes correndo e a tropa de choque avançando e lançando bombas de concusão (falsamente chamadas de “efeito moral” porque soltam estilhaços e machucam bastante) e de gás lacrimogêneo. A multidão subiu correndo até o prédio da História/ Geografia, onde a assembléia havia sido interrompida e começou a chover bombas no estacionamento e entrada do prédio (mais ou menos em frente à lanchonete e entrada das rampas). Sentimos um cheiro forte de gás lacrimogêneo e dezenas de nossos colegas começaram a passar mal devido aos efeitos do gás – lembro da professora Graziela, do professor Thomás, do professor Alessandro Soares, do professor Cogiolla, do professor Jorge Machado e da professora Lizete todos com os olhos inchados e vermelhos e tontos pelo efeito do gás. A multidão de cerca de 400 ou 500 pessoas ficou acuada neste edifício cercada pela polícia e 4 helicópteros. O clima era de pânico. Durante cerca de uma hora, pelo menos, se ouviu a explosão de bombas e o cheiro de gás invadia o prédio. Depois de uma tensão que parecia infinita, recebemos notícia que um pequeno grupo havia conseguido conversar com o chefe da tropa e persuadido de recuar. Neste momento, também, os estudantes no meio de um grande tumulto haviam conseguido fazer uma pequena assembléia de umas 200 pessoas (todas as outras dispersas e em pânico) e deliberado descer até o gramado (para fazer uma assembléia mais organizada). Neste momento, recebi notícia que meu colega Thomás Haddad havia descido até a reitoria para pedir bom senso ao chefe da tropa e foi recebido com gás de pimenta e passava muito mal. Ele estava na sede da Adusp se recuperando.

Durante a espera infinita no pátio da História, os relatos de agressões se multiplicavam. Escutei que a diretoria do Sintusp foi presa de maneira completamente arbitrária e vi vários estudantes que haviam sido espancados ou se machucado com as bombas de concusão (inclusive meu colega, professor Jorge Machado).

Escutei relato de pelo menos três professores que tentaram mediar o conflito e foram agredidos. Na sede da Adusp, soube, por meio do relato de uma professora da TO que chegou cedo ao hospital que pelo menos dois estudantes e um funcionário haviam sido feridos. Dois colegas subiram lá agora há pouco (por volta das 7 e meia) e tiveram a entrada barrada – os seguranças não deixavam ninguém entrar e nenhum funcionário podia dar qualquer informação. Uma outra delegação de professores foi ao 93o DP para ver quantas pessoas haviam sido presas. A informação incompleta que recebo até agora é que dois funcionários do Sintusp foram presos – mas escutei relatos de primeira pessoa de que haveria mais presos.

A situação, agora, é de aparente tranquilidade. Há uma assembléia de professores que se reuniu novamente na História e estou indo para lá. A situação é gravíssima. Hoje me envergonho da nossa universidade ser dirigida por uma reitora que, alertada dos riscos (eu mesmo a alertei em reunião na última sexta-feira) , autorizou que essa barbárie acontecesse num campus universitário.
Estou cercado de colegas que estão chocados com a omissão da reitora. Na minha opinião, se a comunidade acadêmica não se mobilizar diante desses fatos gravíssimos, que atentam contra o diálogo, o bom senso e a liberdade de pensamento e ação, não sei mais.

Por favor, se acharem necessário, reenviem esse relato a quem julgarem que é conveniente. Cordialmente,

Prof. Dr. Pablo Ortellado

Escola de Artes, Ciências e Humanidades

Universidade de São Paulo


Veja também:  Moradores de favelas do RJ descerão os morros em ato contra a violência policial

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