Blog da Maria Frô

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07 de julho de 2010, 12h50

A série Nova África acabou e hoje começam as reprises

Abaixo reproduzo o último post que escrevi sobre o 32º programa da série Nova África, série que tive o prazer e a responsabilidade de ser co-autora do projeto editorial, juntamente com o compentente jornalista Luiz Carlos Azenha, também diretor da série; de ser parte da equipe de produção e fazer a consultoria histórica. Foi uma das experiências mais ricas de minha vida profissional.

Se você perdeu a série Nova África terá a chance a partir de hoje de rever pelo menos 20 episódios que nossa equipe selecionou para serem reprisados. Não perca :)

No episódio de hoje, você pode assistir a reprise de um dos programas que fizemos sobre a questão da terra na África do Sul pós-apartheid. Nova África é transmitido pela TV Brasil, toda quarta-feira às 20h30 e todo domingo às 22h30. Se você não tem acesso à TV Brasil pode assistir via webtv da TV-Brasil. Bom programa!

Por: Conceição Oliveira

Durante nossas viagens em vários países africanos nossa equipe entendeu o porquê de o historiador Alberto da Costa e Silva ter definido o Atlântico como ‘um rio’ que separa o Brasil da África. Do lado da ‘outra margem do rio’, seja na costa ocidental africana ou na oriental, encontramos semelhanças entre nós brasileiros e os inúmeros povos africanos que redescobrimos.

Povos distintos, culturas diversas, convivendo, às vezes, em pequenos espaços geográficos. Eles nos convidam a refletir sobre as micro-nações africanas, muitas delas submetidas a fronteiras arbitrárias impostas pelos europeus.

Mulheres Vermelhas - Por Luiz Carlos Azenha
O óleo que usam para se proteger do sol tinge a pele dessas mulheres de vermelho, característica marcante das mulheres do povo Himba.

Nem sempre o mosaico étnico existente em diferentes países africanos é razão de conflitos. Na Guiné-Bissau, por exemplo, cerca de trinta etnias convivem pacificamente. Em Ruanda, onde o etnicismo foi forjado, a manipulação política de uma falsa etnicidade resultou na morte de um milhão de pessoas. Ao atravessar este ‘rio chamado Atlântico’ descobrimos que nem tudo é conflito étnico.

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A África vista como um continente miserável não se sustenta. A República Democrática do Congo é um verdadeiro ‘escândalo geológico’, em Gana o solo fértil atrai gaúchos que estão plantando arroz; nosso caju que brota por todos os cantos da Guiné-Bissau se tornou o maior produto de exportação daquele país, no Maláui a fome vem sendo combatida com fornecimento de insumos pelo governo aos pequenos agricultores.


Silos onde o arroz produzido por brasileiros é armazenado, interior de Gana.

Os conflitos que vimos de perto — por terras, no Zimbábue ou por riquezas naturais, na República Democrática do Congo — nasceram da disputa pelo controle de riquezas. E não faltam riquezas naturais no continente africano: 10% das reservas mundiais de petróleo estão espalhadas em vários países da África, 80% do coltan essencial para a produção de celulares, videogames e outros eletrônicos saem do Congo. Na atualidade, o grande desafio dos africanos é fazer os benefícios dessas inúmeras riquezas chegarem às populações locais.

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A África hoje acolhe os chineses. A China importa um terço de todo o petróleo que consome da África. Isso levou a denúncias de um neocolonialismo chinês. Mas não foi bem isso o que descobrimos aos conversar com os africanos. Em Cabo Verde, os chineses erguem represa para armazenar água da chuva num país que não tem rios, trazem produtos baratos, acessíveis para a população em várias partes do continente.


Barragem de Poilão, Ilha de Santiago, Cabo Verde.

Os brasileiros também estão cada vez mais presentes no continente africano. Somos bem-vindos, porque estabelecemos uma relação de parceria com os africanos. Conhecimento e tecnologia brasileira estão contribuindo para potencializar a agricultura africana.

Outro mito desfeito em nossas viagens foi o da África como um continente preso no passado sem acesso à tecnologia. Os celulares estão em todas as regiões do continente. Os quenianos pagam até passagem de ônibus pelo celular, em Zanzibar a mortalidade materna e a neonatal têm sido reduzidas com o uso da tecnologia celular. Em Cabo Verde o combate à dengue, usando a internet, assim como acesso gratuito à rede nas praças de cada uma das ilhas do arquipélago, mostram que a modernidade tecnológica é bem-vinda.

Tradição e Modernidade - Por Erica Teodoro

Praça na Praia, Ilha de Santiago, Cabo Verde onde o acesso à internet é gratuito.

Ao longo de nossas viagem em quase duas dezenas de países africanos ouvimos escritores, pesquisadores, músicos, intelectuais, trabalhadores e descobrimos inúmeras histórias. Eles nos ensinam que a história do continente africano não pode ser contatada por uma única voz. Elas são múltiplas, por vezes dissonantes. Dentre elas a queniana Wangari Maathai, prêmio Nobel, o artista plástico moçambicano Naguib, o escritor moçambicano Mia Couto.

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No Brasil, na outra margem do ‘rio’, o historiador brasileiro Alberto da Costa e Silva, especialista em África, o angolano Carlos Serrano e o congolês, Kabengele Munanga, ambos antropólogos radicados no Brasil, professores da Universidade de São Paulo, a professora Rita de Barros, diretora do Africa Consulting também falam sobre um continente africano que ainda precisa ser redescoberto por nós.

Carlos Serrano
Entrevista com professor Carlos Serrano, antropólogo angolano, professor da USP.


Aline e Profª. Dra. Rita de Cássia B. Barros, Diretora – África Consulting

Venha fazer essa redescoberta conosco no último episódio da série Nova África que revisita o continente responsável por grande parte de nossa identidade e que fez nossa repórter se apaixonar e, literalmente, expressar esta paixão à flor da pele. Aline Midlej tatuou o termo paixão em cinco línguas africanas.

Paixão - Por Conceição Oliveira
Nossa repórter, Aline Midlej, apaixonou-se pela África e expressou esse amor em cinco línguas africanas.

Para ver mais fotos de nossa viagem ao continente africano visite o Flickr do Nova África.

Para ver trechos deste programa acesse aqui.

A série Nova África é exibida toda quarta-feira às 20h30, com reprise aos domingos às 22h30 na TV-Brasil. Pode também ser vista online, nos horários de exibição do programa na webtv da TV-Brasil.

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