Blog da Maria Frô

ativismo é por aqui

05 de novembro de 2010, 14h06

O preconceito sulista instigando orgulho nordestino e outras manifestações

Os dois textos selecionados abaixo  têm similaridades: ambos reforçam a importância do Nordeste na economia do país e a importância dos nordestinos em todos os estados brasileiros.

O texto de Marcelo Manzano parte das idéias preconceituosas do Manifesto São Paulo para os paulistas que só conseguem enxergar o nordestino como mão-de-obra barata e, por vezes, não qualificada e propõe uma exercício para a massa cheirosa que assina o manifesto ou para os adeptos silenciosos das idéias nele expressas: imaginem se apenas por um dia os migrantes nordestinos de São Paulo e seus descendentes cruzassem os braços.

Manzano sabe que há nordestinos aliados desta elite preconceituosa que não são alvo de ataques como Demóstenes Torres, Tasso Jereissati, Roberto Freire, sabe também que há descendentes de nordestinos que ascenderam, incorporaram o pensamento preconceituoso da direita e que exploram em suas Casas Grandes nos Jardins  trabalhadores mineiros, paulistas do interior, que cozinham suas refeições, que são babás de seus filhos,  que dirigem seus carros, que limpam suas piscinas…

O que há de muito interessante no texto de Manzano é a percepção que com este tipo de mente tão deturpada os argumentos racionais, os fatos pouco importam. Suas mentes estão absolutamente deformadas, vivem em uma realidade paralela, reificada. Não adianta criticá-los, eles são incapazes de entender o significado das críticas, porque são refratários aos argumentos, como diz Manzano: “ Agem como se estivessem esgrimando com inimigos do mundo de Harry Potter. Vivem uma realidade tão reificada, que não há argumento capaz de rasgar o véu e lhes sensibilizar para a concretude de seus jogos de palavras e para o significado real de suas bravatas. Para mentes ‘descoladas’ como as dessa gente, palavras e argumentos não servem senão para apurar seu gosto pelo sangue azul. Somente ações concretas os farão despertar de seu delírio de classe rentista e fazê-los enxergar a fragilidade de sua condição privilegiada, mas altamente dependente da estrutura social – e fartamente nordestina – que lhes engrossa o maná.”

Por falar em realidades reificadas, alguém aí viu o candidato José Serra repudiar publicamente as manifestações da juventude protofascista que vomitou seus preconceitos contra os nordestinos, porque votaram em Serra e se sentiram derrotados pelos nordestinos? Digamos que para Serra, tão preocupado com o que os estrangeiros pensam de nós, é vergonha alheia  que o britânico The Telegraph noticie que os eleitores de Serra são ‘racistas’ e estimulam ódio contra os nordestinos, são ainda anti-democráticos, incapazes de aceitar as decisões das urnas.

Fiquem com as manifestações contrárias a ala obtusa da juventude que desejava eleger Serra e não se conforma que seus preconceitos não tenham conseguido tal intento.

O poema de Bráulio e da década de 1980 e o Cloaca News achou uma gravação que vale a pena ouvir, aqui.

ATUALIZAÇÃO. Não percam na mesma linha o texto da moçada do Futepoca, exigindo coerência dos paulistas, lembrei-me de minha amiga Socorro Rangel e sua ótima resposta aos colegas campineiros despeitados lá no finalzino da década de 80, início de 1990….

NORDESTE INDEPENDENTE
Imagine o Brasil

(Ivanildo Vilanova e Bráulio Tavares)

Já que existe no Sul este conceito
que o Nordeste é ruim, seco e ingrato,
já que existe a separação de fato
é preciso torná-la de direito.
Quando um dia qualquer isso for feito
todos dois vão lucrar imensamente
começando uma vida diferente
da que a gente até hoje tem vivido:
imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar independente.

Dividindo a partir de Salvador
o Nordeste seria outro país:
vigoroso, leal, rico e feliz,
sem dever a ninguém no exterior.
Jangadeiro seria o senador
o cassaco de roça era o suplente
cantador de viola o presidente
e o vaqueiro era o líder do partido.
Imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar independente.

Em Recife o distrito industrial
o idioma ia ser “nordestinense”
a bandeira de renda cearense
“Asa Branca” era o hino nacional
o folheto era o símbolo oficial
a moeda, o tostão de antigamente
Conselheiro seria o Inconfidente
Lampião o herói inesquecido:
imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar independente.

O Brasil ia ter de importar
do Nordeste algodão, cana, caju,
carnaúba, laranja, babaçu,
abacaxi e o sal de cozinhar.
O arroz e o agave do lugar
a cebola, o petróleo, o aguardente;
o Nordeste é auto-suficiente
nosso lucro seria garantido
imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar independente.

Se isso aí se tornar realidade
e alguém do Brasil nos visitar
neste nosso país vai encontrar
confiança, respeito e amizade
tem o pão repartido na metade
tem o prato na mesa, a cama quente:
brasileiro será irmão da gente
venha cá, que será bem recebido…
imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar independente.

Eu não quero com isso que vocês
imaginem que eu tento ser grosseiro
pois se lembrem que o povo brasileiro
é amigo do povo português.
Se um dia a separação se fez
todos dois se respeitam no presente
se isso aí já deu certo antigamente
nesse exemplo concreto e conhecido,
imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar independente.

24 horas sem nordestinos

Por Marcelo Manzano em seu blog

04/11/2010

É inominável esse movimento xenófobo contra nordestinos e nortistas que ganhou a mente de filhinhos da classe média paulista.

É fruto de tamanha ignorância e irracionalidade, que talvez mais sensato seria deixar que falassem entre si, sem que lhes déssemos eco. Porém, o fato é que essa onda fascista já ganhou visibilidade e agora se apresenta inclusive sob o abominável slogan: “São Paulo para os paulistas”.

Mas essa molecada é besta mesmo!

E, de tão abestada, sequer é capaz de entender o significado das críticas e dos incontáveis argumentos que a eles se contrapõem, principalmente pela internet. Agem como se estivessem esgrimando com inimigos do mundo de Harry Potter. Vivem uma realidade tão reificada, que não há argumento capaz de rasgar o véu e lhes sensibilizar para a concretude de seus jogos de palavras e para o significado real de suas bravatas.

Para mentes ‘descoladas’ como as dessa gente, palavras e argumentos não servem senão para apurar seu gosto pelo sangue azul. Somente ações concretas os farão despertar de seu delírio de classe rentista e fazê-los enxergar a fragilidade de sua condição privilegiada, mas altamente dependente da estrutura social – e fartamente nordestina – que lhes engrossa o maná.

Pois, por que não lhes dar um auxílio para que compreendam o quanto do Reino é feito de gente do norte e do nordeste?

Sugiro 24 horas de folga para todos aqueles que a paulistada resolveu esnobar. Que fiquem então os paulistas com os paulistas. Só 24 horas, nada que coloque em risco o reino de ninguém. São Paulo en su tinta!

Os meninos poderão ajudar mamãe a carregar o lixo, as meninas cortam a cebola, limpam o banheiro. Mas, lembrem-se, não vai dar para almoçar no Bar des Arts, no Viena, nem mesmo no Mac. Também não haverá cineminha no Shopping, nem será boa idéia sair de carro, pois o vigilante do estacionamento estará no Bar do Biro, comendo farinha seca e se perdendo na cachaça. Serão insuficientes os taxis e o metrô provavelmente não será recomendável – os cabeças chatas da manutenção só voltarão no dia seguinte. Lembrem-se também de ficar atentos quando passarem pela portaria – o Ceará não estará lá. Clube? esqueça, a piscina não foi limpa e sem cloro a micose viceja, mesmo entre os brancos, mesmo entre os paulistas. E se, apesar de todos esses possíveis percalços, resolverem se aventurar pela ruas da cidade, muito cuidado. Entre o pessoal de emergência, bombeiros, motoristas de ambulância, mecânicos e borracheiros, há uma grande maioria que é oriunda daquelas regiões acaloradas. Lembrem-se também que faltarão médicos, enfermeiras, músicos, chefs, sommeliers, baristas, alfaiates, bancários, advogados,…. um mundo de gente mal nascida, que insiste em viver nessa pujante terra de Piratininga.

É verdade que será um tanto difícil, mas, apenas por 24 hs. Nada que tire pedaço de ninguém. A brava gente bandeirante é forte. Além do mais, quem sabe os paulistas se superam e se descobrem capazes de viver sem o auxílio desprezível dessa turma do norte? Já imaginaram, vivermos apenas entre nosotros?

Ficamos então combinados. Façamos o teste. Marca-se o dia, a verdadeira “Virada Paulista!” 24 horas de sangue bom! Para que não haja riscos maiores que afetem a rentabilidade do nobre capital paulista, pode-se até escolher um domingo, quando, na pior das hipóteses, todos ficarão em suas casas, à espera da segunda e dos nordestinos.

Coragem!

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Seguem alguns links para consulta aos principais artigos a respeito da polêmica:

Cynara Menezes: campanha de Serra insuflou preconceito, distribuindo panfletos “Dilma não gosta de são paulo”

Bob Fernandes: Querem colocar “pessoal do Nordeste” como vítima, diz integrante do Movimento SP para Paulistas

Diário do Nordeste: OAB abre hoje representação criminal contra a onda de ataques aos nordestinos no Twitter

Vídeo com coletânea de mensagens xenófobas divulgadas no twitter