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19 de abril de 2016, 14h29

Paulo Fonteles: O voto de Bolsonaro e o país que não esquecemos

Por Paulo Fonteles Filho.

Na miríade das canalhices do último domingo, 17 de abril, entre traidores prosaicos, reconhecidos corruptos tipo Maluf, direitistas radicais passando por ex-esquerdistas convertidos ao Capital e os discursos burlescos de evocação da família e de deus, o que calou fundo mesmo na consciência democrática dos brasileiros foi à lembrança, infame, de um dos maiores torturadores da ditadura militar, Brilhante Ustra.

Anunciado como um ‘herói’ tupiniquim pela caratonha fascista de Jair Bolsonaro, deputado convertido à democracia cristã por puro oportunismo e eleitoralismo de cabresto, o episódio marca uma espécie de renascimento da extrema-direita brasileira, tida como fora de moda desde os fins dos anos de 1980, quando a UDR – uma organização fascista do grande latifúndio – manchava o campo brasileiro com o sangue de diversas lideranças da luta pela terra, entre advogados, religiosos, lideranças sindicais e, principalmente, de camponeses pobres.

Como um Ronaldo Caiado de trinta anos passados, Jair Bolsonaro parece ganhar os corações e as mentes dos partidários do conservadorismo brasileiro e vai costurando, entre o pensamento xiita de direita e um numeroso setor evangélico partidarizado, o PSC, uma engenharia política que irá fazê-lo concorrer à Presidência da República em 2018 ou até antes, se forem convocadas eleições gerais como antídoto e desdobramento da grave crise política em curso.

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A frase atribuída ao poeta e compositor Antônio Carlos Jobim de que ‘O Brasil não é para principiantes’, no sentido de revelar a complexidade do país brasileiro exige a crença de que, aqui, os canalhas dos porões da tortura, dos assassinatos e dos desaparecimentos forçados não podem continuar zombando – numa verdadeira cruzada – da democracia e das liberdades públicas, tão caras ao povo e trabalhadores brasileiros.

O deprimente discurso do deputado fascista decorre do fato de que não concluímos, em mais de trinta anos, a nossa transição democrática e isso passa, também, pela punição exemplar dos lobos que o deputado sabe representar. A manutenção das premissas da Lei de Anistia, de 1979, faz com que a impunidade e o escárnio sejam uma prática tão corriqueira quanto às de racismo, homofobia, misoginia e xenofobia que assistimos na atualidade, impulsionada por uma grande mídia golpista e empresarial.

Se é verdade que a extrema-direita nunca teve competência política para transformar-se em força hegemônica, apesar de ter passado mais de vinte anos no poder, entre 1964/1985, é verdade também que a antiga fórmula adotada por Alexandre Inojosa, um dos principais articuladores da ultradireita brasileira na década de 1980, é bastante atual, ou seja, ‘do quanto pior, melhor’. O medo e o cinismo, irmãs siamesas, atuam nestes dias com os mesmos métodos da Sociedade de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP) em tempos passados, insuflando a violência e o anticomunismo.

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Que a violação dos direitos humanos sempre começa pelo discurso do ódio e da intolerância e depois é usado como estratégia de guerra contra jovens negros das periferias, disso já sabemos. Como devemos saber que um torturador – aquele que investido de indescritível covardia é capaz de tudo para supliciar sua vítima – é o que há de pior na escala humana, o mais baixo e delinquente.

A conversão crente ao fascismo, e vice-versa, que faz recrudescer figuras do tipo Torquemada – o Grande Inquisidor do século XV – precisa ser desvendada e duramente combatida porque deus não deve estar gostando da repetição desse estelionato – que em 64 realizou as Marchas da Família com Deus pela Liberdade – que mais uma vez reúne, como farsa, torturadores, as oligarquias e falsos profetas.

Não passarão!

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